"Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor?" (Lucas, 43)
 
       
 
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07/02/2012
TRATADO DA VERDADEIRA DEVOÇÃO À SANTÍSSIMA VIRGEM
Por São Luís Maria Grignion de Montfort - 19ª edição – Editora Vozes – Petrópolis, 1992. - Nona Parte
 
Maria Santíssima
Artigo III
Esta devoção nos proporciona as boas graças da Santíssima Virgem
 
§ I. Maria se dá a quem é seu escravo por amor.
 
144. Terceiro motivo. A Santíssima Virgem, Mãe de doçura e misericórdia, que jamais se deixa vencer em amor e liberalidade, vendo que alguém se lhe entrega inteiramente, para honrá-la e servir-lhe, despojando-se do que tem de mais caro para com isso adorná-la, entrega-se também inteiramente e dum modo inefável, a quem tudo lhe dá. Ela o faz imergir no abismo de suas graças, e reveste-o de seus merecimentos, dá-lhe o apoio de seu poder, ilumina-o com sua luz, abrasa-o de seu amor, comunica-lhe suas virtudes: sua humildade, sua fé, sua pureza, etc.; constitui-se seu penhor, seu suplemento, seu tudo para com Jesus. Como, enfim, essa pessoa consagrada é toda de Maria, Maria também é toda dela; de modo que se pode dizer desse perfeito servo e filho de Maria o que São João Evangelista diz de si próprio, que ele a tomou como um bem, para sua casa: “Accepit eam discipulus in sua” (Jo 19, 27).
 
145. É isto que produz na alma fiel uma grande desconfiança, desprezo e ódio de si mesma, ao lado de uma confiança ilimitada na Santíssima Virgem, sua boa Senhora. Já não procura, como antes, o seu apoio em suas próprias disposições, intenções, méritos, virtudes e boas obras, pois, tendo sacrificado tudo a Jesus por esta boa Mãe, só lhe resta um tesouro que resume todos os seus bens e de que ele não dispõe, e esse tesouro é Maria.
É o que o faz aproximar-se de Nosso Senhor, sem receio servil nem escrupuloso, e rezar com extrema confiança; é o que o faz adquirir os sentimentos do devoto e sábio abade Ruperto, o qual, aludindo à vitória de Jacob sobre o anjo (cf. Gn 32, 23), dirige à Santíssima Virgem estas belas palavras: “Ó Maria, minha princesa e Mãe Imaculada de Deus-homem, Jesus Cristo, é meu desejo lutar com este Homem, isto é, o Verbo divino, armado não com meus próprios méritos, mas com os vossos: “O Domina, Dei Genitrix, Maria, et incorrupta Mater Dei e hominis, non meis, sed tuis armatus meritis, cum isto Viro, scilicet Verbo Dei, luctare cupio”.55
55) Rup., Prolog. in Cant.
Oh! quão poderoso e forte é, para Jesus Cristo, quem está armado dos méritos e da intercessão da digna Mãe de Deus, que, como diz Santo Agostinho, venceu amorosamente o Todo-poderoso.
 
§ II. Maria purifica nossas boas obras, embeleza-as e as torna aceitáveis a seu Filho.
 
146. Esta bondosa Senhora purifica, embeleza e torna aceitáveis a seu Filho todas as nossas boas obras, porque, por esta devoção, as damos todas a ele pelas mãos de sua Mãe Santíssima.
 
1º Ela as purifica de toda mancha de amor-próprio e do apego imperceptível à criatura, apego que se insinua insensivelmente nas melhores ações. Desde que elas estão em suas mãos puríssimas e fecundas, estas mesmas mãos, que não foram jamais manchadas nem ociosas, e que purificam tudo que tocam, tiram do presente que lhe fazemos tudo que pode deteriorá-lo ou torná-lo imperfeito.
147. 2º Ela embeleza nossas boas ações ornando-as com seu méritos e virtudes. É como se um campônio, querendo ganhar a amizade do rei, se dirigisse à rainha, e lhe apresentasse uma maçã, que representasse todo o seu lucro, e lhe pedisse que a oferecesse ao rei. A rainha, acolhendo a pobre dádiva do camponês, punha-a no centro de grande e magnífico prato de ouro, e apresentava-a assim ao rei, da parte do ofertante. Nestas circunstâncias, a maçã, indigna por si mesma de ser oferecida ao rei, torna-se um presente digno de sua majestade, devido ao prato de ouro e à importância da pessoa que a apresenta.
148. 3º Ela apresenta essas boas obras a Jesus Cristo, pois nada retém para si do que lhe ofertamos. Tudo remete fielmente a Jesus. Se algo lhe damos a ela, damos necessariamente a Jesus. Se a louvamos e glorificamos, logo ela louva e glorifica a Jesus. Hoje como outrora, quando Santa Isabel a exaltou, ela canta, quando a louvamos e bendizemos: “Magnificat anima mea Dominum...” (Lc 1, 46).
149. 4º Faz Jesus aceitar essas boas obras, por pequeno e pobre que seja o presente que ofertamos ao Santo dos Santos e Rei dos reis. Quando apresentamos alguma coisa a Jesus, de nossa própria iniciativa e apoiados em nossa própria capacidade e disposição, Jesus examina o presente e muitas vezes o rejeita em vista das manchas que a dádiva contraiu do nosso amor-próprio, como antigamente rejeitou os sacrifícios dos judeus por estarem cheios de vontade própria. Quando, porém, lhe apresentamos algo pelas mãos puras e virginais de sua bem-amada, tomamo-lo pelo seu lado fraco, se me é permitida a expressão. Ele não considera tanto a oferta que lhe fazemos como sua boa Mãe que lha apresenta; não olha tanto a procedência como a portadora. Deste modo, Maria, que nunca foi repelida, e, pelo contrário, foi sempre bem recebida, faz que seja agradavelmente recebido pela Majestade divina tudo que lhe apresenta, pequeno ou grande: basta que Maria lho apresente para que Jesus o receba e acolha. Conselho valioso é o que dava São Bernardo aos que dirigia no caminho da perfeição: “Quando quiserdes oferecer qualquer coisa a Deus, tende o cuidado de oferecê-lo pelas mãos agradáveis e digníssimas de Maria, a menos que queirais ser rejeitados” – Modicum quid offerre desideras, manibus Mariae offerendum tradere cura, si non vis sustinere repulsam.56
56) São Bernardo: “De Aquaeductu”.
150. E, como vimos (n. 146), a própria natureza não inspira aos pequenos como agir em relação aos grandes? Por que não há de levar-nos a graça a fazer o mesmo em relação a Deus, que está infinitamente acima de nós, e diante do qual somos menos que átomos? tendo além disso uma advogada tão poderosa, que não foi jamais repelida; tão habilidosa que conhece os segredos para ganhar o Coração de Deus; tão boa e caridosa que não se esquiva a ninguém, por pequeno e mau que seja.
Referirei mais adiante a verdadeira figura das verdades que afirmo, na história de Jacob e Rebeca (v. cap. VI).
 
Artigo IV
Esta devoção é um meio excelente de promover a maior glória de Deus
 
151. Quarto motivo. Esta devoção fielmente praticada é um excelente meio para fazer com que o valor de todas as nossas boas obras contribua para a maior glória de Deus. Quase ninguém age com este nobre intuito, apesar de a isto estarmos obrigados, ou porque não conhece em que consiste a maior glória de Deus, ou porque não a quer. Mas a Santíssima Virgem, a quem conferimos o valor de nossas boas obras, sabe perfeitamente em que consiste a maior glória de Deus, e nada faz que não contribua para este fim. Daí, um perfeito servo dessa amável Soberana, que a ela se consagrou inteiramente, como dissemos, pode dizer ousadamente que o valor de todas as suas ações, pensamentos e palavras, é aproveitado para a maior glória de Deus, a não ser que revogue expressamente a intenção de sua oferta. Pode-se encontrar algo de mais consolador para uma alma que ama a Deus com um amor puro e desinteressado, e que preza mais a glória e os interesses de Deus, que os seus próprios interesses?
 
Artigo V
Esta devoção conduz à união com Nosso Senhor
 
152. Quinto motivo. Esta devoção é um caminho fácil, curto, perfeito e seguro para chegar à união com Nosso Senhor, e nisto consiste a perfeição do cristão.
 
§ I. Esta devoção é um caminho fácil.
 
É um caminho fácil; é um caminho que Jesus Cristo abriu quando veio a nós, e no qual não há obstáculo que nos impeça de chegar a ele. Pode-se, é verdade, chegar a ele por outros caminhos; mas encontram-se muito mais cruzes e mortes estranhas, e muito mais empecilhos, que dificilmente se vencem. Será preciso passar por noites obscuras, por combates e agonias terríveis, escalar montanhas escarpadas, pisando espinhos agudos, atravessar desertos horríveis. Enquanto que pelo caminho de Maria passa-se com muito mais doçura e tranqüilidade.
Aí se encontram, sem dúvida, rudes combates a travar, e dificuldades enormes para vencer. Mas esta boa Mãe e Senhora está sempre tão próxima e presente a seus fiéis servos, para alumiá-los em suas trevas, esclarecê-los em suas dúvidas, encorajá-los em seus receios, sustê-los em seus combates e dificuldades, que, em verdade, este caminho virginal, para chegar a Jesus Cristo é um caminho de rosas e de mel, em vista de outros caminhos. Houve alguns santos, mas em pequeno número, como Santo Efrém, São João Damasceno, São Bernardo, São Bernardino, São Boaventura, São Francisco de Sales, etc., que trilharam este caminho ameno para ir a Jesus Cristo, porque o Espírito Santo, esposo fiel de Maria, o indicou a eles por uma graça especial; os outros santos, porém, que são em muito maior número, embora tenham tido devoção à Santíssima Virgem, não entraram, ou entraram muito pouco, nesta via. E por isso tiveram de arrostar provas bem mais rudes e mais perigosas.
153. A que atribuir, então, – dirá algum fiel servidor desta boa Mãe, – que seus servos tenham de enfrentar tantas ocasiões de sofrer, e mais que os outros que não lhe são devotos? Contradizem-nos, perseguem-nos, caluniam-nos, não os suportam57; ou, então, andam em trevas interiores, e em aridez de deserto onde não pinga nem uma gota de orvalho celeste. Se esta devoção torna mais fácil o caminho que conduz a Jesus Cristo, donde vem que eles são tão desprezados?
57) Cf. S. Boaventura: “Servientes tibi plus aliis invadunt dracones inferni” (Psalter. maius B. V., Sl 118).
154. Respondo-lhes que é bem verdade que os mais fiéis servos da Santíssima Virgem, porque são os seus grandes favoritos, recebem dela as maiores graças e favores do céu, isto é, as cruzes; mas sustento que são também os servidores de Maria que levam estas cruzes com mais facilidades, mérito e glória; e mais que, onde outro qualquer pararia mil vezes e até cairia, eles não se detêm e, ao contrário, avançam sempre, porque esta boa Mãe, cheia de graça e unção do Espírito Santo, adoça todas as cruzes que para eles talha, no mel de sua doçura maternal e na unção do puro amor; deste modo, eles as suportam alegremente, como nozes confeitadas, que, de natureza, são amargas. E creio que uma pessoa que quer ser devota e viver piedosamente em Jesus Cristo, e, por conseguinte, sofrer perseguições e carregar todos os dias sua cruz, não carregará nunca grandes cruzes, ou não as carregará alegremente até ao fim, sem uma terna devoção à Santíssima Virgem, que torna doces as cruzes; do mesmo modo que uma pessoa não poderia, sem uma grande violência, impossível de manter indefinidamente, comer nozes verdes que não fossem saturadas de açúcar.
 
§ II. Esta devoção é um caminho curto.
 
155. Esta devoção à Santíssima Virgem é um caminho curto58, para encontrar Jesus Cristo, seja porque dele não nos extraviamos, seja porque, como acabo de dizer, nele marchamos com mais alegria e facilidade, e, conseqüentemente, com mais prontidão. Avançamos mais, em pouco tempo de submissão e dependência a Maria, do que em anos inteiros de vontade própria e contando apenas com o próprio esforço; pois o homem obediente e submisso a Maria Santíssima cantará vitórias (Prov. 21, 28) assinaladas sobre seus inimigos. Estes hão de querer impedi-lo de avançar, ou obrigá-lo a recuar, ou derrubá-lo; mas, apoiado, auxiliado e guiado por Maria, ele, sem cair, sem recuar, sem mesmo atrasar-se, avançará a passos de gigante em direção a Jesus Cristo, pelo mesmo caminho, que, como está escrito (Sl 18, 6), Jesus trilhou para vir a nós em largos passos e em pouco tempo.
58) Cf. S. Bernardo : “Tu es via compendiosa in caelo” (Laudes glor. Virginis). – Cf. Bento XV: “Recta et tanquam compendiaria via ad Iesum per Mariam itur” (Epist. ad R. P. D. Schoepfer. – AAS 1914, p. 515).
156. Por que viveu Jesus Cristo tão pouco sobre a terra, e por que esses poucos anos que aqui viveu passou-os quase todos em submissão e obediência a sua Mãe? Ah! é que, tendo vivido pouco, encheu a carreira de uma longa vida (Sb 4, 13); viveu longamente e mais do que Adão, do qual veio reparar as perdas, embora este tenha vivido mais de novecentos anos; e Jesus Cristo viveu longamente, porque viveu bem submisso e bem unido a sua Mãe Santíssima, para obedecer a Deus seu Pai; pois: 1º aquele que honra sua mãe assemelha-se a um homem que entesoura, diz o Espírito Santo, isto é, aquele que honra a Maria, sua Mãe, ao ponto de submeter-se a ela e obedecer-lhe em tudo, em breve se tornará rico, pois acumula tesouros todos os dias, pelo segredo desta pedra filosofal: “Qui honorat matrem, quasi qui thesaurizat” (Ecli 3, 5); 2º porque, conforme uma interpretação espiritual da palavra do Espírito Santo: “Senectus mea in misericordia uberi, - Minha velhice se encontra na misericórdia do seio” (Sl 91, 11), é no seio de Maria, que “envolveu e gerou um homem perfeito” (cf. Jer 31, 22), e que “teve a capacidade de conter aquele que o universo todo não compreende nem contém”59, é no seio de Maria que os jovens envelhecem em luz, em santidade, em experiência e em sabedoria, e onde, em poucos anos, se atinge a plenitude da idade de Jesus Cristo.
59) Cf. Gradual da Missa da Santíssima Virgem (de Pentecostes ao Advento); 1º Responso do Ofício da Santíssima Virgem.
 
§ III. Esta devoção é um caminho perfeito.
 
157. Esta prática de devoção à Santíssima Virgem é um caminho perfeito para ir e unir-se a Jesus Cristo, pois Maria é a mais perfeita e a mais santa das criaturas, e Jesus Cristo, que veio perfeitamente a nós, não tomou outro caminho em sua grande e admirável viagem. O Altíssimo, o Incompreensível, o Inacessível, aquele que é, quis vir a nós, pequenos vermes da terra, que nada somos. Como se fez isto? O Altíssimo desceu perfeita e divinamente até nós por meio da humilde Maria, sem nada perder de sua divindade e santidade; e é por Maria que os pequeninos devem subir perfeita e divinamente ao Altíssimo sem recear coisa alguma. O Incompreensível deixou-se compreender e conter perfeitamente por Maria, sem nada perder de sua imensidade; é também pela pequena Maria que devemos deixar-nos conduzir e conter perfeitamente sem a menor reserva. O Inacessível aproximou-se, uniu-se estreitamente, perfeitamente e até pessoalmente à nossa humanidade por meio de Maria, sem perder uma parcela de sua majestade; é também por Maria que devemos aproximar-nos de Deus e unir-nos a sua majestade, perfeita e estreitamente, sem temor de repulsa. Aquele que é quis, enfim, vir ao que não é, e fazer que aquele que não é se torne Deus ou aquele que é. E ele o fez perfeitamente, dando-se e submetendo-se inteiramente à Virgem Maria sem deixar de ser no tempo aquele que é na eternidade; outrossim, é por Maria que, se bem que sejamos nada, podemos tornar-nos semelhantes a Deus, pela graça e pela glória, dando-nos a ela tão perfeita e inteiramente, que nada sejamos em nós mesmos e tudo nela, sem receio de enganar-nos.
158. Ainda que me apresentem um caminho novo para ir a Jesus Cristo, e que esse caminho seja pavimentado com todos os merecimentos dos bem-aventurados, ornados de todas as suas virtudes heróicas, iluminado e decorado de todas as luzes e belezas dos anjos, e que todos os anjos e santos lá estejam para conduzir, defender e amparar aqueles e aquelas que o quiserem palmilhar; em verdade, em verdade, digo ousadamente, e digo a verdade, eu havia de preferir a este, tão perfeito, o caminho imaculado de Maria: “Posui immaculatam viam meam” (Sl 18, 33), via ou caminho sem a menor nódoa ou mancha, sem pecado original ou atual, sem sombras nem trevas; e quando meu amável Jesus vier, em sua glória, uma segunda vez à terra (como é certo) para aqui reinar, o caminho que escolherá será Maria Santíssima, o mesmo pelo qual ele veio com segurança e perfeitamente a primeira vez. A diferença entre a primeira e a última vinda é que a primeira foi secreta e oculta, e a segunda será gloriosa e retumbante; ambas, porém, são perfeitas, porque, como a primeira, também a segunda será por Maria. Eis um mistério que não podemos compreender: “Hic taceat omnis lingua”.
 
§ IV. Esta devoção é um caminho seguro.
 
159. Esta devoção à Santíssima Virgem é um caminho seguro para irmos a Jesus Cristo e adquirirmos a perfeição, unindo-nos a ele:
1º Porque esta prática, preconizada por mim, não é nova; é tão antiga, que não se pode, como diz Boudon60, em um livro que escreveu sobre esta devoção, determinar-lhe com toda a precisão os começos. Em todo caso é certo que há mais de 700 anos encontram-se vestígios dela na Igreja.61
60) Henri-Marie Boudon, doutor em teologia, falecido em odor de santidade, em 1702, como arcediago de Evreux. Autor do livro intitulado “A santa escravidão da admirável Mãe de Deus”, e de outras obras, todas impregnadas de uma ardente devoção à Santíssima Virgem.
61) O santo rei Dagoberto II (século VII) consagrou-se assim à Santíssima Virgem, na qualidade de escravo (cit. por Kronenburg in “Maria’s Heerlikheid”, 1, 98). O mesmo fez o Papa João VII (701-707).
Santo Odilon, abade de Cluni, que viveu cerca do ano 1040 foi um dos primeiros que a praticaram na França, conforme está anotado em sua vida.
O cardeal Pedro Damião62 refere que em 1016 o bem-aventurado Marinho, seu irmão, se fez escravo da Santíssima Virgem, em presença de seu diretor e de um modo bem edificante: pôs a corda ao pescoço, tomou a disciplina, e depositou sobre o altar uma quantia de dinheiro como sinal do seu devotamento e consagração à Santíssima Virgem; e assim continuou tão fielmente, que, na hora da morte, mereceu ser visitado e consolado por sua boa Soberana, de cujos lábios recebeu as promessas do paraíso em recompensa de seus serviços.
62) Declarado “doutor da Igreja” por Leão XIII.
Cesário Bollando menciona um ilustre cavaleiro, Vautier de Birbak, parente chegado dos duques de Lovaina, que, aí pelo ano 1300 fez esta consagração à Santíssima Virgem.
 
160. O padre Simão de Roias da Ordem da Trindade, também chamada da redenção dos cativos, pregador do rei Filipe III, pôs em voga esta devoção em toda a Espanha (em 1611) e na Alemanha63; a instâncias de Filipe III, obteve de Gregório XV grandes indulgências para aqueles que a praticassem.
63) O próprio imperador Fernando II fez esta consagração com toda a sua corte, em 1640.
O padre de Los Rios, da Ordem de S. Agostinho, aplicou-se com seu íntimo amigo, o padre de Roias, a espalhar esta devoção por toda a Espanha e Alemanha, o que fez por seus escritos e pregações. Compôs um grosso volume intitulado “Hierarquia Mariana”64, no qual trata com piedade e erudição, da antiguidade, da excelência e da solidez desta devoção.
64) Editado em Antuérpia em 1641.
161. Os reverendos padres teatinos estabeleceram esta devoção na Itália, na Sicília e na Sabóia, no século 17.
O rev. Padre Estanislau Falácio, da Companhia de Jesus, incrementou maravilhosamente esta devoção na Polônia.65
65) O rei da Polônia Wladislaf encarregou os jesuítas de pregá-la em seu reino.
O rev. Padre Cornélio a Lápide, recomendável tanto por sua piedade como por seu profundo saber, tendo recebido de vários bispos e teólogos a incumbência de dar seu parecer sobre esta devoção, examinou-a acuradamente e teceu-lhe louvores dignos de sua piedade, e seu exemplo foi seguido por muitas outras pessoas importantes.
Os reverendos padres Jesuítas, sempre zelosos do serviço da Santíssima Virgem, apresentaram ao duque Fernando da Baviera, em nome dos congreganistas de Colônia, um pequeno tratado desta devoção.66 O duque, que era, então arcebispo de Colônia, deu-lhe sua aprovação e a permissão de imprimi-lo, exortando todos os curas e religiosos de sua diocese de propagar, quanto pudessem, esta sólida devoção.
66) Intitulado “Mancipium Virginis” – A escravidão da Virgem. Colônia, 1634.
162. O cardeal de Bérulle, cuja memória é abençoada por toda a França, foi um dos mais zelosos em espalhar esta devoção, apesar de todas as calúnias e perseguições que lhe levantaram e moveram os críticos e os libertinos. Acusaram-nos de inventar novidade e superstição; escreveram e publicaram contra ele um panfleto difamatório, e serviram-se, ou antes o demônio, por seu ministério, de mil estratagemas para impedi-lo de divulgar na França esta devoção. Mas o grande e santo homem só opôs a suas calúnias uma inalterável paciência, e às suas objeções, contidas no tal libelo, um pequeno escrito em que as refuta energicamente, demonstrando que esta devoção é fundada no exemplo de Jesus Cristo, nas obrigações que lhe devemos, e nos votos que fizemos no santo batismo, e é especialmente com esta última razão que ele fecha a boca a seus adversários, fazendo ver que esta consagração à Santíssima Virgem e a Jesus Cristo por suas mãos, nada mais é que uma perfeita renovação das promessas do batismo. Diz, enfim, muitas coisas belas que se podem ler nas suas obras.
163. No livro de Boudon, já citado (n. 159), encontra-se os nomes dos Papas que aprovaram esta devoção, dos teólogos que a examinaram, pode-se ler das perseguições que lhe suscitaram e que venceu, e dos milhares de pessoas que a abraçaram, sem que jamais Papa algum a tenha condenado; nem seria possível fazê-lo sem derrubar os fundamentos do cristianismo.
 
Fica, portanto, de pé que esta devoção não é nova, e que não é comum, por ser preciosa demais para ser apreciada e praticada por todo mundo.
164. 2º Esta devoção é um meio seguro para ir a Jesus Cristo, porque pertence à Santíssima Virgem e lhe é próprio conduzir-nos a Jesus Cristo, como compete a Jesus Cristo conduzir-nos ao Pai celestial. E não creiam erroneamente as pessoas espirituais que Maria seja um empecilho no caminho que conduz à união divina. Pois seria possível que aquela que achou graça diante de Deus para o mundo todo em geral, e para cada uma em particular, fosse um empecilho a uma alma que busca a grande graça da união com ele? Seria possível que aquela que tem sido cheia e superabundante de graças, e tão unida e transformada em Deus, a ponto de ele encarnar-se nela, impedisse uma alma de ficar perfeitamente unida a Deus?
É verdade que a vista de outras criaturas, ainda que santas, poderia, talvez, em certos tempos, retardar a união divina; mas não Maria, como já disse e direi sempre sem me cansar. Uma das razões por que tão poucas almas atingem a plenitude da idade de Jesus Cristo, é que Maria, a Mãe do Filho e a Esposa do Espírito Santo, não está suficientemente formada nos corações. Quem quiser o fruto bem maduro e formado deve ter a árvore que a produz; quem quer possuir o fruto de vida, Jesus Cristo, deve ter a árvore da vida, que é Maria. Quem quiser ter em si a operação do Espírito Santo, deve ter sua Esposa fiel e inseparável, Maria Santíssima, que o torna fértil e fecundo, como já dissemos alhures (nn. 20-21).
165. Persuadi-vos, portanto, de que quanto mais contemplardes Maria em vossas orações, meditações, ações e sofrimentos, se não de um modo distinto e perceptível, ao menos geral e imperceptível, tanto mais perfeitamente encontrareis Jesus Cristo, que, com Maria, é sempre grande, poderoso, ativo e incompreensível, e muito mais que no céu e em qualquer criatura do universo. Assim, Maria Santíssima, toda abismada em Deus, esta longe de tornar-se um obstáculo aos perfeitos no seu caminho para chegar à união com Deus, e, bem ao contrário, não houve até hoje, nem haverá nunca criatura que nos auxilie mais eficazmente do que ela nesta grande obra, seja pelas graças que para este efeito vos comunicará, pois ninguém fica cheio do pensamento de Deus se não for por ela, diz um santo67: “Nemo cogitatione Dei repletur nisi per te”; seja pelas ilusões e trapaças do espírito maligno contra o qual ela vos garantirá.
67) São Germano de Constantinopla (Sermo 2 in Dormit.).
166. Onde está Maria, não entra o espírito maligno; e um dos sinais mais infalíveis de que se está sendo conduzido pelo bom espírito, é a circunstância de ser muito devoto de Maria, de pensar nela muitas vezes, e de falar-lhe freqüentemente. É esta a opinião de um santo68 que acrescenta que, como a respiração é sinal inconfundível de que o corpo não está morto, o pensamento assíduo e a invocação amorosa de Maria é um sinal certo de que a alma não está morta pelo pecado.
68) Idem: Orat. in Encaenia veneranda aedis B. V.
167. Maria sozinha esmagou e exterminou as heresias, diz a Igreja com o Espírito Santo que a conduz: “Sola cunctas haereses interemisti in universo mundo”69; e embora os críticos resmunguem contra esta afirmação, jamais um fiel devoto de Maria cairá na heresia ou na ilusão, pelo menos formal; poderá errar materialmente, tomar a mentira por verdade, e o espírito maligno pelo bom, e isto mesmo não tão facilmente como outro qualquer. Mais cedo ou mais tarde, porém, reconhecerá sua falta e seu erro material, e, quando o reconhecer, não teimará de modo algum em crer e sustentar o que tomara por verdade.
69) Ofício da Santíssima Virgem, 1ª antífona do 3º noturno.
168. Qualquer pessoa, portanto, sem receio de ilusão comum às pessoas de oração, que quiser avançar no caminho da perfeição e achar segura e perfeitamente Jesus Cristo, abrace de todo o coração, “corde magno et animo volenti” (2Mac 1, 3), esta devoção à Santíssima Virgem, que talvez ainda desconheça. Entre neste caminho excelente que não conhecia e que eu lhe mostro (1Cor 12,31). É um caminho trilhado por Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada, nosso único chefe. Os fiéis que o trilharem não podem estar enganados.
É um caminho fácil devido à plenitude da graça e da unção do Espírito Santo, de que está cheio: ninguém, que marche neste caminho, se cansa, nem recua. É um caminho curto que em pouco tempo nos leva a Jesus Cristo. É um caminho perfeito, onde não há lama, nem poeira, nem a menor sujeira do pecado. É, enfim, um caminho seguro que, de um modo reto e garantido, sem voltas para a direita ou para a esquerda, nos conduz a Jesus Cristo e à vida eterna. Entremos, portanto, neste caminho, e marchemos dia e noite, até a plenitude da idade de Jesus Cristo (cf. Ef. 4, 13).
 
 
 

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