"Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor?" (Lucas, 43)
 
       
 
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03/04/2012
JESUS CONDUZIDO A ANÁS E CAIFÁS segundo as visões de Anna Catharina Emmerich (1774 - 1824)
 
JESUS CONDUZIDO A ANÁS E CAIFÁS.
Extraído do Livro "Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus - Anna Catharina Emmerich - Ed. MIR
 
Maus tratos que sofreu a caminho da cidade
 
Depois de acesas algumas lanternas, o cortejo se pôs em marcha. A frente marchavam dez soldados; depois seguiam os esbirros, arrastando Jesus pelas cordas, atrás vinham, insultando-O e escarnecendo-O, os fariseus e no fim os restantes 10 soldados, que formavam a retaguarda. Os discípulos andavam ainda pelas vizinhanças, como fora de si; João, porém, seguia a pouca distância os últimos soldados e os fariseus mandaram prendê-lo. Voltaram por isso alguns soldados, correndo, para segurá-lo, mas ele pôs-se a fugir e, como o segurassem pelo sudário que tinha em volta do pescoço, abandonou-o nas mãos dos soldados e escapou. Já tinha despido o manto antes, vestindo só uma túnica arregaçada e sem mangas, para poder fugir mais ligeiramente. O pescoço, cabeça e braços tinha-os envolvido numa faixa estreita de pano, como os Judeus costumam usar.
 
Os soldados arrastavam e maltratavam Jesus da maneira mais cruel e praticavam muitas maldades, só para agradar e adular desse modo baixo aos seis agentes farisaicos, que eram cheios de ódio e maldade contra Jesus. Conduziram-No pelo caminho incômodo, por todos os sulcos, sobre as pedras e pela lama. Puxavam as cordas compridas com força, escolhendo para si o melhor caminho; assim Jesus tinha de seguir onde as cordas o arrastavam. Tinham nas mãos pedaços de cordas nodosas, com que batiam e impeliam Nosso Senhor para frente, como costumam entre escárnios e insultos tão grosseiros, que seria contra a decência repetir-lhes as palavras.
 
Jesus ia descalço; além da roupa do corpo, vestia uma túnica de lã, tecida sem costura e um manto. Os discípulos, como os judeus em geral usavam no corpo, sobre as costas e o peito, um escapulário, constando de duas peças de pano, unidas sobre os ombros por correias, deixando deste modo descobertos os lados; cingiam-se com um cinto, do qual pendiam quatro faixas de pano, as quais, enrolando as coxas, formavam uma espécie de calça. Devo acrescentar ainda que não vi os soldados apresentarem uma ordem escrita ou documento de prisão; procederam como se Jesus estivesse fora da lei e sem direitos.
 
O cortejo marchou a passo rápido e tendo saído do caminho que passa entre o horto de Getsêmani e o das Oliveiras, caminhou algum tempo ao longo do lado oriental de Getsêmani, dirigindo-se a uma ponte que ali atravessa a torrente Cedron. Jesus, indo com os Apóstolos ao monte das Oliveiras, não passara por esta ponte, mas atravessara o Cedron por outra ponte, mais para o sul, tomando um atalho pelo vale de Josafá. A ponte sobre a qual foi conduzido pelos soldados, era muito comprida, porque não estendia somente sobre o leito do Cedron, que ali passa perto do monte, mas também a alguma distância, sobre os terrenos desiguais do vale, formando uma estrada calçada, transitável.
 
Antes do cortejo chegar à ponte, vi Jesus cair duas vezes por terra, pelos arrancos cruéis que os soldados davam nas cordas. Chegando, porém, no meio da ponte, praticaram ainda maior crueldade. Empurraram o pobre Jesus amarrado, a quem seguravam pelas cordas, da ponte, que ali tinha a altura de um homem, ao leito do Cedron e insultaram-nO ainda, dizendo que aí bebesse à vontade. Foi só por proteção divina que o Redentor não se feriu mortalmente. Caiu sobre os joelhos e depois sobre o rosto, que se teria machucado gravemente no leito, que tinha pouca água, se Ele não o tivesse protegido, estendendo as mãos ligadas. Essas não estavam mais amarradas no cinto; não sei se foi por assistência divina ou se os soldados mesmos lhas desamarraram.
 
As marcas dos joelhos, pés, cotovelos e dedos do Salvador imprimiram-se, pela vontade de Deus, no lugar em que tocaram, no fundo rochoso; mais tarde eram veneradas pelos cristãos. Hoje não se crê mais em tais efeitos; mas vi muitas vezes, em visões históricas, tais impressões feitas em rochas pelos pés, joelhos e mãos de patriarcas e profetas, de Jesus, da SS. Virgem e de outros santos. As rochas eram menos duras e mais crentes do que os corações dos homens e deram, em tais momentos, testemunho da impressão que a verdade sobre elas fez.
 
Eu não tinha visto Jesus beber durante as graves angústias no monte das Oliveiras, apesar da veemente sede; depois, porém, quando o empurraram no Cedron, eu O vi beber penosamente e recitar a passagem profética do salmo que fala em “beber do ribeiro ao lado do caminho”. (Sal. 109,7).
 
Os soldados que ficaram na ponte, seguravam Jesus sempre pelas cordas e porque lhes era demasiadamente dificultoso puxá-Lo para cima e como a muralha na outra banda impedia que Jesus atravessasse o ribeiro, voltaram para trás, para o começo da ponte, arrastando Jesus através do Cedron; ali desceram à margem e puxaram-nO de costas, pela ribanceira acima. Esses miseráveis empurraram então ao pobre Jesus pela segunda vez, sobre a longa ponte, arrastando e arrancando-O para frente, cobrindo-O de insultos e maldiçõela segunda vez, sobre a longa ponte, arrastando e arrancando-O para frente, cobrindo-O de insultos e maldiçnsultaram-nOOm cintes, empurrões e pancadas. A longa túnica de lã, ensopada de água, caia-Lhe pesada sobre os ombros; movia-se com dificuldade e no outro lado da ponte caiu de novo por terra. Levantaram-nO aos arrancos, batendo-Lhe com as cordas nodosas, arregaçaram-Lhe no cinto o vestido molhado, entre vis escárnios e insultos; falaram, por exemplo, de arregaçar a veste, para matar o cordeiro pascal e zombarias semelhantes.
 
Ainda não era meia noite, quando vi Jesus caminhar, empurrado desumanamente pelos soldados, entre pragas e pancadas, sobre o pedregulho cortante e pedaços de rochas, através de cardos e espinheiros. O caminho passava para o outro lado do Cedron; era estreito e já muito estragado e havia atalhos paralelos a ele, ora mais acima, ora mais abaixo. Os seis malvados fariseus ficavam onde o caminho o permitia, sempre perto de Jesus; cada um tinha na mão um instrumento de tortura, uma vara curta, com ponta aguda, com a qual Lhe batiam ou, empurrando-O, picavam.
Nos lugares por onde Jesus andava, com os pés descalços e sangrentos, sobre as pedras cortantes, por urtigas e espinheiros, arrastado pelos soldados, que andavam nas veredas mais cômodas do lado, o coração terno do pobre Jesus ainda era ferido pelo malicioso escárnio dos seis fariseus, que diziam, por exemplo: “Aqui o teu precursor, João Batista, não te preparou um bom caminho”. ou: “Aqui não se cumpre a palavra do profeta Malaquias: “Eis aí mando o meu Anjo e ele preparará o caminho diante de ti”; ou: “Porque não ressuscita Ele a João Batista, para preparar-Lhe o caminho?” Tais palavras escarnecedoras daqueles miseráveis, acompanhadas de risadas impertinentes dos outros, instigavam também os soldados a afligirem Jesus com novas crueldades.
 
Tendo arrastado o Senhor por algum tempo, notaram que diversos homens se avistavam ao longe, segundo o cortejo, pois, à notícia da prisão de Jesus, vieram muitos discípulos de Betfagé e de outros esconderijos, para ver o que sucedia ao Mestre. À vista disso, começaram os inimigos de Jesus a recear que aqueles homens pudessem agredí-los e libertar o preso; fizeram por isso sinais na direção do arrabalde de Ofel, gritando que lhes mandassem reforço, como antes tinham combinado.
 
O cortejo tinha ainda um caminho de alguns minutos até a porta que, mais ao sul do Templo, conduzia, através de um arrabalde pequeno, ao monte Sião, onde moravam Anás e Caifás, quando vi sair dessa porta um pelotão de 50 soldados, para reforçar a guarda de Jesus. Marcharam em três grupos: o primeiro de dez, o último de quinze homens; esses contei, o do meio tinha, portanto, 25.
 
Traziam diversas lanternas e avançavam muito barulhentos e impertinentes, dando gritos altos, como para anunciar a sua vinda aos soldados do cortejo e dar-lhes os parabéns pela vitória. Aproximaram-se com grande vozeria. No momento em que o primeiro grupo se juntou ao cortejo de Jesus, vi Malco e alguns outros da retaguarda aproveitarem a desordem, para se afastarem furtivamente, dirigindo-se de novo ao monte das Oliveiras.
 
Quando esse destacamento saiu ao encontro do outro cortejo, à luz das lanternas e com grande gritaria, dispersaram-se os discípulos que tinham aparecido nos arredores. Vi, porém, a SS. Virgem e nove mulheres, impelidas pelo medo, virem de novo ao vale de Josafá. Estavam com ela, Marta, Madalena, Maria, filha de Cleofas, Maria Salomé, Maria Marcos, Suzana, Joana Chusa, Verônica e Salomé.
Estavam ao sul de Gestsêmani, defronte daquela parte do monte das Oliveiras, onde há outra gruta, na qual Jesus, em outras ocasiões, costumava rezar. Vi com elas também Lázaro, João Marcos, como também o filho de Verônica e de Simeão. Esse estivera também com os oito Apóstolos em Getsêmani e passara no meio dos soldados em tumulto. Trouxeram a notícia às santas mulheres. Nesse momento ouviram a gritaria e avistaram as lanternas das duas tropas, que se encontraram. A SS. Virgem perdeu então os sentidos, caindo nos braços das companheiras, que se retiraram com ela a certa distância, para, depois de passado o cortejo, levá-la à casa de Maria Marcos.
 
Lamentações dos habitantes de Ofel
 
Os cinqüenta soldados faziam parte de uma tropa de 300 homens, que haviam ocupado de improviso as portas e ruas de Ofel e arredores; pois Judas, o traidor, prevenira o Sumo Sacerdote que os habitantes de Ofel, na maior parte pobres operários, jornaleiros, carregadores de água e lenha, a serviço do Templo, eram os partidários mais convictos de Jesus e que era para recear que fizessem tentativas de livrá-Lo, ao ser conduzido por lá.
 
O traidor bem sabia que Jesus tinha ali muitas vezes ensinado, consolado, socorrido e curado muitos dos pobres obreiros. Foi também ali que Jesus se demorou, por ocasião da viagem de Betânia a Hebron, depois da morte de S. João Batista, para consolar os amigos deste; nessa estadia em Ofel, Jesus curava muitos operários e jornaleiros, feridos no desabamento do aqueduto e da grande torre de Silo. A maior parte dessa pobre gente reuniu-se, depois da vinda do Espírito Santo, à primeira comunidade cristã; quando depois os cristãos se separaram dos judeus e fundaram várias colônias da comunidade, erigiram-se tendas e cabanas dali por todo o vale, até o monte das Oliveiras. Naquele tempo era também ali o campo de ação de Estevão. Ofel é uma colina cercada de muralhas, situada ao sul do Templo e habitada na maior parte por jornaleiros pobres; parece-me que não é muito menor do que Dülmen.
 
Os habitantes de Ofel foram acordados do sono pelo barulho da tropa, que ocupou o bairro. Saíram das casas a correr, apinharam-se nas ruas e diante da porta onde estavam os soldados e perguntaram o que sucedia; mas foram repelidos para suas casas com zombarias e rudes insultos pelos soldados, que eram na maior parte escravos de índole baixa e impertinente. Quando, porém, tiveram a informação dada por alguns soldados: “trazem preso o falso profeta, Jesus, o malfeitor; o Sumo Sacerdote quer acabar-Lhe com as práticas; provavelmente morrerá na cruz”, levantou-se alto pranto e lamentação em toda a vila, acordada do sono noturno.
 
Essa pobre gente, homens e mulheres, correram pelas ruas, chorando ou caindo de joelhos, com os braços estendidos, clamando ao céu ou lembrando em alta voz os benefícios que Jesus lhes havia feito. Mas os soldados fizeram-nos voltar para as casas, empurrando-os e batendo-lhes; insultaram também a Jesus, dizendo: “Eis aqui uma prova evidente de que é um agitador do povo”. Não conseguiram, porém, sossegar inteiramente o povo, temendo também que, com maiores violências, ficasse ainda mais excitado; contentaram-se, pois, em retê-lo fora da rua pela qual Jesus devia ser conduzido.
 
Entretanto aproximava-se cada vez mais da porta de Ofel o cortejo desumano, que trazia Jesus preso. Nosso Senhor já caíra diversas vezes e parecia não poder sustentar-se mais em pé. Um soldado compadecido aproveitou essa ocasião e disse: “Vós mesmos vedes que Ele não pode mais andar: Se O quiserdes levar vivo à presença do Sumo Pontífice, soltai-Lhe um pouco as cordas que Lhe prendem as mãos, para que, caindo, possa apoiar-se. Enquanto o cortejo parava e os soldados Lhe desligavam um pouco as mãos, outro soldado misericordioso trouxe-Lhe água para beber, de um poço que se achava na vizinhança. Haurira a água com um saquinho de cortiça, que os soldados e viajantes nesse país costumam usar para beber. Jesus disse-Lhe algumas palavras de agradecimento, citando um trecho de um profeta, sobre “beber água viva” ou “fontes de água viva”, não sei mais exatamente; os fariseus zombaram e insultaram-nO por isso.
 
Acusaram-nO de vangloriar-se e de blasfemar, disseram-Lhe que deixasse tais palavras vaidosas; que não daria mais a beber nem a um animal, muito menos a um homem. Foi-me, porém, revelado que aqueles dois homens: um que fez desligar as mãos de Jesus e o outro que lhe deu a beber, tiveram a graça de uma iluminação interna. Converteram-se já antes da morte de Jesus e uniram-se, como discípulos, à comunidade cristã. Eu lhes sabia os nomes e também os nomes que receberam como discípulos e todas as circunstâncias da sua conversão; mas é impossível guardar tudo na memória: é uma imensidade de coisas.
O cortejo continuou então o caminho, maltratando o Senhor; subindo por uma encosta, entrou pela porta de Ofel, onde foi recebido pelos lamentos pungentes dos habitantes, que tinham por Jesus grande afeto e gratidão. Só à força podiam os soldados reter a multidão de homens e mulheres, que se acercaram de todos os lados. Vinham correndo, prostravam-se de joelhos, estendendo os braços e exclamando, “Soltai este homem, soltai este homem. Quem nos há de socorrer, quem nos há de curar e consolar? Entregai-nos este homem”.
 
Era um espetáculo que dilacerava o coração: Jesus, pálido, desfigurado, ferido, o cabelo em desordem, o vestido molhado, sujo, mal arregaçado, puxado pelas cordas, empurrado a pauladas, impelido pelos soldados impertinentes, meio nus, como se conduz um animal meio morto ao sacrifício; vê-lo arrastado pela soldadesca arrogante, através da multidão dos habitantes de Ofel, cheios de gratidão e compaixão, que Lhe estendiam os braços, que curara de paralisia, que o aclamavam com as línguas a que restituíra a voz, que olhavam e choravam com os olhos a que dera a vista.
 
Já no vale do Cedron se juntara à tropa muita gente de classe baixa, agitada pelos soldados e provocada pelos agentes de Anás e Caifás e outros inimigos de Jesus; insultavam e injuriavam a Jesus e ajudavam também a ultrajar e afrontar o bom povo de Ofel. Este lugar está situado numa colina; vi o ponto mais alto, no meio da vila, um largo onde estava empilhada muita madeira de construção, como no pátio de uma carpintaria. Descendo dali, o cortejo dirigiu-se a uma porta do muro, pela qual saiu do arrabalde.
 
Depois do cortejo ter saído de Ofel, os soldados impediram o povo de seguí-lo. O cortejo desceu ainda um pouco no vale, deixando à direita um edifício vasto, restos, se me lembro bem, de obras de Salomão e à esquerda, o tanque de Betesda. Assim marcharam, descendo sempre o caminho do vale chamado Milo, depois se dirigiram um pouco para o sul, subindo as altas escadarias do monte Sião, para a casa de Anás. Em todo esse caminho continuavam a insultar e maltratar Jesus e o povo baixo que vindo da cidade se juntara ao cortejo, instigava os infames soldados a repetirem as crueldades. Do monte das Oliveiras até a casa de Anás caiu Jesus sete vezes.
 
Os habitantes de Ofel ainda estavam cheios de susto e tristeza, quando outro incidente lhes renovou a compaixão: a Mãe de Jesus, conduzida pelas santas mulheres e pelos amigos de Jesus, vindo do vale de Cedron, passou por Ofel, indo à casa de Maria Marcos, situada ao pé do monte Sião. Quando a boa gente de Ofel a reconheceu, começou de novo a chorar compadecida; apinhava-se de tal modo em roda de Maria e dos companheiros, que a Mãe de Jesus foi quase transportada pela multidão.
 
Maria, muda de dor, não falava, nem depois de chegar à casa de Maria Marcos, senão quando chegou mais tarde João; então começou a perguntar com grande tristeza e João contou-lhe tudo o que vira, desde a saída do Cenáculo, até aquela hora. Mais tarde levaram a SS. Virgem à casa de Marta, a leste da cidade, ao pé do palácio de Lázaro. Conduziram-na novamente por desvios, evitando os caminhos pelos quais Jesus fora conduzido, para não lhe aumentar demais a tristeza e dor.
 
Pedro e João que, a certa distância, tinham seguido o cortejo, quando este entrou na cidade, recorreram depressa a alguns conhecidos que João tinha entre os empregados do Sumo Pontífice, para acharem uma oportunidade de entrar na sala do tribunal, para onde o Mestre devia ser levado. Esses conhecidos de João eram uma espécie de mensageiros do tribunal, que naquela hora receberam ordem de percorrer a cidade, para acordar os anciãos de várias classes e mais outras pessoas e convocá-los para a sessão do tribunal.
 
Desejavam mostrar-se obsequiosos aos dois Apóstolos, mas não acharam outro meio senão o de fazer João e Pedro vestirem-se dos mantos, entrarem depois no tribunal de Caifás; pois ali estava reunido somente gente de classe baixa, todos subornados, soldados e falsas testemunhas; todos os outros eram expulsos. Como, porém, José de Arimatéia e Nicodemos e outras pessoas bem intencionadas também fossem membros do Sinédrio, aos quais os fariseus talvez deixassem de avisar de propósito, foram Pedro e João convidar todos esses amigos de Jesus.
 
Judas, no entanto, como um criminoso desvairado, que a seu lado vê o demônio, andava vagando pelas encostas íngremes ao sul de Jerusalém, para onde se jogavam o lixo e todas as imundícies.
 
Preparativos dos inimigos de Jesus.
 
Anás e Caifás tinham imediatamente recebido notícia da prisão de Jesus. Em suas casas estava tudo em pleno movimento. As salas dos tribunais estavam iluminadas e todas as respectivas entradas e passagens guardadas; os mensageiros percorriam a cidade, para convocar os membros do Conselho, os escribas e todos quantos tinham voto no tribunal. Muitos, porém, já estavam reunidos com Caifás, desde a hora da traição de Judas, para esperar o resultado.
 
 Foram também chamados os anciãos das três classes de cidadãos. Como os fariseus, saduceus e herodinos de todas as partes do país, tinham chegado para a festa a Jerusalém, já havia alguns dias e tendo sido combinado havia muito tempo, entre eles e o Sinédrio, a prisão de Jesus, foram chamados também entre eles os mais ferozes inimigos do Salvador (Caifás tinha uma lista com os nomes de todos); receberam a ordem de juntar, cada um no seu meio, todas as provas e testemunhas contra o Senhor e de trazê-las ao tribunal.
 
Estavam, porém, reunidos em Jerusalém todos os fariseus e saduceus e outra gente malvada de Nazaré, Cafarnaum, Tirza, Gabara, Jotapata, Silo e outros de lugares, aos quais Jesus tinha dito tantas vezes a verdade crua, cobrindo-os de vergonha e confusão, diante de todo o povo; estavam todos cheios de ódio e raiva e cada um foi então procurar alguns patifes, entre os peregrinos conterrâneos, que moravam em acampamentos separados, conforme as várias regiões; subornaram-nos com dinheiro, para agitarem contra Jesus e O acusarem.
 
Mas, fora algumas evidentes mentiras e calunias, não sabiam proferir senão aquelas acusações, a respeito das quais Jesus os reduzira enumeráveis vezes ao silêncio nas sinagogas.
 
Todos esses homens reuniram-se pouco a pouco no tribunal de Caifás e mais toda a multidão de inimigos de Jesus, entre os orgulhosos fariseus e escribas e toda e escórcia mentirosa de seus partidários em Jerusalém. Havia já alguns dos mercadores, furiosos porque Jesus os expulsara do Templo, muitos doutores vaidosos que Ele fizera emudecer no Templo, diante do povo e talvez ainda houvesse alguns que não Lhe podiam perdoar tê-los convencidos de erros quando, menino de doze anos, ensinara pela primeira vez no Templo.
 
Entre os inimigos de Jesus ali reunidos havia pecadores impenitentes, que Ele não quisera curar da doença, pecadores reincidentes, que depois da cura, de novo adoeceram; jovens vaidosos, que o Mestre não aceitara como discípulos; caçadores de heranças, furiosos por Ele ter dividido entre os pobres tantos bens que esperavam possuir; criminosos, cujos camaradas convertera; libertinos e adúlteros, cujas amantes reconduzira ao caminho da virtude; homens que já se rejubilavam de herdar riquezas, cujos proprietários foram por Ele curados da doença; e muitos vis aduladores, capazes de toda a maldade, muitos instrumentos de Satanás, cujos corações odiavam tudo quanto era santo e, portanto, mais ainda, o santo dos santos.
 
Essa escória de uma grande parte do povo judaico, reunida para a festa, foi posta em movimento, excitada pelos inimigos principais de Jesus e afluía de todos os lados ao palácio de Caifás, para acusar falsamente de todos os crimes ao verdadeiro Cordeiro pascal de Deus, que tomara sobre si os pecados do mundo; vinham manchá-Lo com os efeitos dos pecados que tomara sobre si, suportando e expiando-os.
 
Enquanto esse lodo do povo judaico se agitava, para enlamear o Salvador Imaculado, aproximavam-se também muitas pessoas piedosas e amigos de Jesus, acordados pelo tumulto e entristecidos pela terrível notícia; não estavam iniciados nas intenções secretas dos inimigos, e quando ouviam e choravam, eram enxotados, quando se calavam, olhavam-nos de canto.
 
Outros, mais fracos, em intencionados e outros meio convencidos, se escandalizavam ou caiam em tentações, duvidando de Jesus. O número dos que ficaram firmes na fé, não era grande; aconteceu como ainda acontece hoje, que muitos querem ser bons cristãos, enquanto lhes convém, mas que se envergonham da cruz onde ela não é bem vista. Já no principio, porém, muitos se retiraram abatidos e calados; pois estavam enjoados do processo injusto, da acusação infundada, dos insultos e ultrajes vis e revoltantes e também comovidos pela paciência resignada do Salvador.
 
Uma vista geral sobre a Situação em Jerusalém àquela hora
 
Terminadas as numerosas cerimônias e orações, tanto públicas como particulares, acabados os preparativos para a festa, a vasta cidade populosa e os extensos acampamentos dos peregrinos pascais, nos arredores, estavam mergulhados em profundo sono e descanso, quando veio a notícia da prisão de Jesus, excitando tanto inimigos como amigos do Senhor.
De todos os pontos da cidade se põem em movimentos os convocados pelos mensageiros do Sumo Sacerdote. Correm, aqui ao claro luar, acolá à luz de lanternas, pelas ruas de Jerusalém, as quais de noite, pela maior parte, estão escuras e desertas; pois em geral se passa a vida das famílias nos pátios interiores, para onde também dão as janelas. Todos aqueles homens caminham para Sião, de cuja eminência brilha a luz das lanternas e ressoa grande vozeria. Ouve-se ainda, cá e lá, bater às portas dos vestíbulos para acordar os dormentes.
 
Em muitas partes da cidade há tumulto, barulho e gritaria; abrem-se as portas aos que batem, pergunta-se que há e obedece-se à ordem de ir a Sião. Curiosos e criados seguem, para trazer depois notícias dos acontecimentos aos que ficam em casa. Ouve-se o fechar de portas e o puxar barulhento de ferrolhos e trancas. O povo é medroso e receia uma agitação. Cá e lá saem pessoas das casas, pedindo informações a conhecidos que passam ou esses entram apressadamente em casa de amigos; ou vem-se aí muitas conversas maliciosas, como em semelhantes ocasiões, também hoje em dia, são bastante comuns, dizem, por exemplo: “Agora Lázaro e a irmã vão ver com quem travaram amizade. Joana Chusa, Suzana, Maria, mãe de João Marcos e Salomé arrepender-se-ão do procedimento que tiveram. Como deve agora Seráfia se humilhar diante do marido, Sirah, que tantas vezes a tem censurado por causa das relações com o Galileu! Todo o bando dos partidários deste agitador fanático olhava com compaixão para os que não os acompanhavam, mas agora muitos não saberão onde se esconder.
 
Agora não se apresenta ninguém que lhe estenda mantos e véus ou ramos de palmeira sob os pés do jumento. Esses hipócritas, que sempre querem ser melhores do que os outros, bem merecem cair agora na suspeita, pois todos estão implicados na causa do Galileu. Isto tem raízes mais longas do que se pensa. Eu queria saber como Nicodemos e José de Arimatéia se hão de haver; há muito que se desconfia deles, dão-se muito com Lázaro, mas são uns espertos. Agora há de esclarecer-se tudo, etc”. Desse modo se ouve falar muita gente, que tem ódio contra certas famílias, especialmente contra aquelas mulheres que creram em Jesus e desde então lhe manifestaram publicamente a fé.
 
Em outras partes o povo recebe as notícias de maneira mais digna; alguns se assustam e outros choram sozinhos ou procuram ocultamente um amigo que pense como eles, para desafogar o coração. Poucos, porém, se atrevem a manifestar compaixão franca e resolutamente.
 
Não é, porém, em toda a cidade que reina a excitação, mas apenas onde os mensageiros levam a chamada para o tribunal, onde os fariseus procuram as falsas testemunhas e especialmente no entroncamento das ruas que conduzem a Sião. É como se em diferentes partes de Jerusalém se alumiassem faíscas de fúria e raiva que, correndo pelas ruas, se tinissem a outras que encontrassem e, cada vez mais forte e densas, se derramassem finalmente, como um rio lúgubre de fogo, no tribunal de Caifás sobre Sião. Em algumas partes da cidade reina ainda silêncio, mas também ali já começa a pouco o alarme.
 
Os soldados romanos não tomam parte; mas os guardas estão reforçados e as tropas reunidas; observam atentamente o que acontece. Nos dias da Páscoa estão sempre muito quietos, por causa do grande concurso do povo, mas ao mesmo tempo sempre prontos e de sobreaviso. O povo que percorre as ruas, evita os pontos onde estão os guardas; pois contraria muito aos judeus farisaicos ter de responder ao grito da sentinela. Os Sumos Sacerdotes certamente informaram antes a Pilatos o motivo porque ocuparam Ofel e uma parte de Sião com os seus soldados; mas eles desconfiam uns dos outros. Pilatos também não dorme; recebe informações e dá ordens. A esposa está deitada no leito, dormindo profundamente, mas está inquieta, geme e chora, como opressa por pesadelos; dorme, mas aprende muitas coisas, mais do que Pilatos.
 
Em nenhuma parte da cidade se manifesta tanta compaixão como em Ofel, entre os pobres escravos do Templo e os jornaleiros que habitam essa colina. A dolorosa nova surpreendeu-os tão repentinamente, no meio da noite silenciosa; a crueldade despertou-o do sono: aí passara o santo Mestre, o benfeitor que os curara e consolara, passara como uma horrível visão noturna, ferido e maltratado; depois se lhes concentrou novamente a compaixão na Mãe dolorosa de Jesus, passando pelo meio deles, com as companheiras.
 
Ai! Que espetáculo triste, a Mãe dilacerada pela dor e as amigas de Jesus, obrigadas a percorrer as ruas, inquietas e tímidas, à hora insólita da meia noite, refugiando-se de uma casa amiga à outra! Diversas vezes se vêm obrigadas a esconder-se num canto das casas, para deixar passar um grupo de impertinentes; outras vezes são insultadas como mulheres notívagas; freqüentemente ouvem ditos maliciosos dos transeuntes, raras vezes uma palavra de compaixão para com Jesus. Chegadas afinal ao abrigo, caem abatidas por terra, chorando e torcendo as mãos, todas igualmente desconsoladas e sem forças; sustentam ou abraçam umas as outras, ou sentam-se, em dor silenciosa, apoiando sobre os joelhos a cabeça velada.
 
Batem à porta, todas escutam em silêncio e medo; batem devagar e timidamente: não é um inimigo; abrem com receio: é um amigo ou um criado de um amigo de seu Senhor e Mestre; rodeiam-no, pedindo notícias e ouvem falar de novos sofrimentos; a compaixão não as deixa ficar em casa, saem de nova à rua, para se informar, mas voltam sempre com crescente tristeza.
 
A maior parte dos apóstolos e discípulos andam vagando medrosos pelos vales em redor de Jerusalém e escondem-se nas cavernas do monte das Oliveiras. Cada um se assusta à aproximação do outro; pedem notícias em voz baixa e cada ruído de passos lhes interrompem as tímidas conversas. Mudam freqüentemente de paradeiro e separadamente se aproximam de novo da cidade. Outros procuram, furtivamente, conhecidos entre os conterrâneos peregrinos, nos acampamentos, para pedir informações ou mandam-nos à cidade, para trazerem notícias. Outros sobem ao monte das Oliveiras, espiando inquietos o movimento das lanternas e escutando o barulho de Sião, interpretam tudo de mil diferentes modos e descem de novo ao vale, para ter qualquer informação certa.
 
O silêncio da noite é cada vez mais interrompido pelo barulho em torno do tribunal de Caifás. Essa região é iluminada pela luz das lanternas e dos archotes. Nos arredores da cidade ressoa o mugido dos numerosos animais de carga ou de sacrifício, que tantos peregrinos de fora trouxeram para os acampamentos; como ressoa inocente e comovedor o balir desamparado e humilde dos inumeráveis cordeiros, que amanhã hão de ser imolados no Templo! Mas um só é imolado, porque Ele mesmo quis e não abre a boca, como a ovelha que é conduzida ao matadouro; e como um cordeiro, que emudece diante de quem o tosa, assim se cala o Cordeiro pascal, puro e sem mancha, - Jesus Cristo.
 
Sobre todo esse quadro se estende um céu sinistro e singularmente impressionante: a lua caminha ameaçadora, escurecida por estranhas manchas; dir-se-ia estar alterada e horrorizada, como se tivesse medo de tornar-se cheia, pois nessa ocasião Jesus já estará morto. Fora da cidade porém, no íngreme vale de Hinon, anda vagando Judas Iscariotes, o traidor, - incitado pelo demônio, chicoteado pela consciência, fugindo da própria sombra, solitário, sem companheiro, em lugares malditos e sem caminhos, em pântanos lúgubres, cheios de lixo e imundícies; milhares de espíritos maus andam por toda a parte, desnorteando os homens e impelindo-os ao pecado.
 
O inferno está solto e incita todos ao pecado: o fardo pesado do Cordeiro aumenta. A raiva de Satanás multiplica-se, semeando desordem e confusão. O Cordeiro tem sobre si todo o fardo; Satanás, porém, quer o pecado e pois que não cai em pecado esse justo, a quem em vão tentou seduzir, quer pelo menos que os inimigos que O perseguem, pereçam no pecado.
 
Os Anjos, porém, vacilam entre tristeza e alegria; desejariam suplicar diante do trono de Deus a permissão de socorrer a Jesus, mas só podem admirar e adorar o milagre da justiça e misericórdia divina, que já existia, desde a eternidade, no Santíssimo do céu e começa a realizar-se agora no tempo, pois também os Anjos crêem em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do Céu e da terra e em Jesus Cristo, um só seu Filho, Nosso Senhor, o qual foi concebido do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem, que esta noite começará a padecer, sob o poder de Pôncio Pilatos, que amanhã será crucificado, morto e sepultado; que descerá aos infernos, ressurgirá dos mortos ao terceiro dia, que subirá ao céu, onde se sentará à mão direita de Deus Pai Todo-Poderoso e de onde há de vir e julgar os vivos e os mortos pois também eles crêem no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica, na Comunhão dos Santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém.
 
Tudo isto é apenas uma pequena parte das impressões que necessariamente enchiam um pobre coração pecador de dilacerante angustia, contrição, consolação e compaixão quando, em busca de alívio, se lhe desviava o olhar da cruel prisão do Salvador e se dirigia sobre Jerusalém, nessa hora da meia noite, a mais solene de todos os tempos, na qual a infinita justiça e a misericórdia infinita de Deus, encontrando-se, abraçando-se penetrando-se uma a outra, iniciaram a santíssima obra do amor de Deus e dos homens: castigar e expiar os pecados dos homens no Homem-Deus pelo Homem-Deus.
 
Tal era a situação geral, quando o nosso querido Salvador foi conduzido à casa de Anás.
 
Jesus diante de Anás
 
Cerca de meia noite chegou Jesus ao palácio de Anás e foi conduzido, pelo átrio iluminado, á grande sala que tinha o tamanho de uma pequena Igreja. No fundo, em frente à entrada, estava sentado Anás, rodeado de 28 conselheiros, num terraço, sob o qual podia passar, pelo lado. Em frente havia uma escada, interrompida por patamares, que conduzia a esse tribunal de Anás, no qual se entrava por uma porta própria, do fundo do edifício.
 
Jesus, cercado ainda por uma parte dos soldados que o prenderam, foi puxado pelos soldados alguns degraus da escada para cima e seguro pelas cordas. A outra parte da sala foi ocupada por soldados e gentalha, judeus que insultam Jesus, criados de Anás, e parte das testemunhas reunidas por este que depois se apresentaram em casa de Caifás.
 
Anás estava esperando impacientemente a chegada de Jesus: tudo nele revelava ódio, malícia e crueldade. Era então presidente de um certo tribunal e reunira ali a junta da comissão, que tinha a tarefa de velar pela pureza da doutrina e de exercer o ofício de procurador geral no tribunal do Sumo Sacerdote.
 
Jesus estava em pé diante de Anás, calado, de cabeça baixa, pálido, cansado, com as vestes molhadas e enlameadas, as mãos amarradas, seguro com cordas pelos soldados. Anás, velho malvado, magro, com pouca barba, cheio de impertinência e de orgulho farisaico, sorria hipocritamente, como se não soubesse de nada e se admirasse de ser Jesus o preso que lhe haviam anunciado.
 
O discurso enfadonho com que recebeu Jesus, não sei repetí-lo com as mesmas palavras, mas era mais ou menos o seguinte: “Olá! Jesus de Nazaré! És tu? Onde estão então os teus discípulos, os teus numerosos aderentes? Onde está o teu reino? Parece que tudo saiu muito diferente do que pensavas! Acabaram agora as injúrias; esperávamos pacientemente até que estivesse cheia a medida das tuas blasfêmias, dos teus insultos aos sacerdotes e violações do Sábado. Quem são os teus discípulos?
Onde estão? Agora te calas? Fala, agitador e sedutor do povo? Já comeste o cordeiro pascal de modo insólito, à hora e em lugar fora de costume. Queres introduzir uma nova doutrina? Quem te deu o direito de ensinar? Onde estudaste? Qual é a tua doutrina, que excita a todos? Responde, fala! Qual é a tua doutrina”?
 
Então levantou Jesus a cabeça fatigada e, fitando Anás, disse: “Tenho falado em público, diante de todo o mundo, em lugares onde todos os judeus costumam reunir-se. Não tenho dito nada em segredo. Porque me perguntas a mim? Pergunta àqueles que me ouviam, eles sabem o que tenho falado”.
 
Como o rosto de Anás, a essas palavras de Jesus, manifestasse ódio e raiva, um esbirro infame, miserável e adulador, que estava ao lado de Jesus e que o percebeu, bateu, com a mão de ferro, na boca e face de Nosso Senhor, dizendo: “Assim é que respondes ao Sumo Pontífice?” – Jesus, abalado pela veemência da pancada e arrancado e empurrado pelos soldados, caiu sobre a escada de lado e o sangue escorreu-lhe do rosto; a sala retumbou de escárnio, murmúrio, insultos e risadas. Levantaram Jesus com brutalidade e Ele disse calmamente: “Se falei mal, mostra-me em que; se eu disse a verdade, porque me feres?”
 
Anás, enfurecido pela calma de Jesus, convidou todos os presentes a dizer, como Ele próprio queria, o que dEle tinham ouvido, o que ensinava. Seguiu-se então uma grande vozeria e gritaria daquele populacho: Ele disse que era rei, que era Filho de Deus, que os fariseus eram adúlteros; Ele agitava o povo, curava no sábado, com auxílio do demônio; o povo de Ofel rodeava-O como dementes, chamava-O seu Salvador e Profeta; Ele se deixava chamar Filho de Deus; Ele mesmo se dizia enviado por Deus, chamava a maldição sobre Jerusalém, falava da destruição da cidade, não guardava o jejum, percorria o país seguido de multidões de povo, comia com ímpios, pagãos, publicanos e pecadores, levava em sua companhia mulheres de má vida, havia pouco tinha dito em Ofel que daria a quem lhe deu água a beber, água da vida eterna e ele não teria mais sede; seduzia o povo com palavras equivocas, desperdiçava o bem alheio, pregava ao povo muitas mentiras sobre seu reino e muitas outras coisas.
 
Todas essas acusações foram proferidas ao mesmo tempo, numa grande confusão. Os acusantes avançavam para Jesus, lançando-Lhe em rosto essas acusações, acompanhadas de insultos e os soldados empurravam-nO para cá e para lá, dizendo: “Fala! Responde!” Anás e os conselheiros tomavam também parte, gritando-lhe, com riso sarcástico: “Ora, agora ouvimos a tua doutrina. É boa! Que respondes? É essa então a tua doutrina pública? O país está cheio dela. Aqui não tens nada que dizer? Porque não ordenas? Oh, rei? Oh, enviado de Deus, mostra a tua missão?”
 
A cada uma dessas exclamações dos superiores, seguiam-se arrancos, empurrões e insultos da parte dos soldados e de outros que estavam próximo, que todos de boa vontade teriam imitado o que Lhe batera na face.
 
Jesus cambaleava de um lado para o outro e Anás disse-lhe, com impertinência insultante: “Quem és? Que espécie de rei ou enviado? Eu julgava que fosses o filho de um marceneiro obscuro. Ou és acaso Elias, que foi levado ao Céu num carro de fogo? Dizem que ele ainda vive. Sabes também te tornar invisível, assim escapaste muitas vezes. Ou és por acaso Malaquias? Sempre tens feito gala com esse profeta, interpretando-lhe as palavras como se falasse de ti mesmo. Anda também a respeito dele um boato, que não tinha pai, que era um Anjo e não morreu; boa oportunidade para um embusteiro fazer-se passar por ele. Dize, que espécie de rei és? És maior do que Salomão? Esta é também uma afirmação tua. Está bem, não te quero privar mais tempo do título de teu reino”.
 
Anás mandou, pois, trazer uma tira de pergaminho, de ¾ de côvado de comprimento e da largura de três dedos, pô-la sobre uma tabuinha, que seguravam diante dele e escreveu com uma pena de caniço uma série de letras grandes, cada uma das quais continha uma acusação contra o Senhor. Enrolou-a depois e pô-la numa pequena cabaça, fechando esta com uma rolha e amarrando-a a um caniço, mandou entregar-Lhe esse certo irrisório e dirigiu-Lhe, com riso satírico, algumas palavras, como: “Eis aqui o cetro de teu reino; contém todos os teus títulos, dignidades e direitos. Leva-os ao Sumo Sacerdote, para que conheça a tua missão e o teu reino e te trate como convém à tua posição. Amarrai-Lhe as mãos e levai este rei ao Sumo Sacerdote”.
 
Então amarravam de novo as mãos de Jesus, que antes tinham desligado, cruzando-lhas sobre o peito e pondo nelas o cetro afrontoso, que continha as acusações de Anás. Assim conduziram o Senhor, entre risadas, insultos e brutalidades, da grande sala de Anás para a casa de Caifás.
 
Jesus é conduzido de Anás a Caifás
 
Ao ser conduzido à casa de Anás, Jesus passara já pelo lado da casa de Caifás; reconduziram-nO depois para lá, descrevendo um ângulo. Da casa de Anás à de Caifás haveria talvez a distância de trezentos passos. O caminho, que passa entre muros e pequenos edifícios pertencentes ao tribunal de Caifás, era iluminado por braseiros, colocados em cima de paus e estava cheio de uma multidão clamorosa de frenéticos judeus. Mal podiam os soldados reter a multidão.
 
Aqueles que tinham ultrajado a Jesus na casa de Anás, repetiram então a seu modo as palavras afrontosas desse último diante do povo e Jesus foi maltratado e injuriado em todo o percurso do caminho. Vi criados armados do tribunal afastarem pequenos grupos de pessoas que choravam, lastimando a Jesus, enquanto que deixavam entrar no pátio da casa de Caifás e davam dinheiro a outros que se distinguiam acusando e insultando o Divino Mestre.
 
O Tribunal de Caifás
 
Para chegar ao tribunal de Caifás, passa-se primeiro por um portão a um vasto pátio exterior, depois por outro portão a outro pátio que, com os outros muros, cerca toda a casa. (Nos trechos seguintes daremos a este pátio o nome de “pátio interior”).
 
A casa tem de comprimento mais de duas vezes a largura; a parte dianteira consta de uma sala, chamada vestíbulo ou átrio, lajeada, aberta, no meio, sem teto, cercada por três lados de colunatas cobertas, nas quais se acham também as entradas para o átrio. A entrada principal do átrio é no lado comprido da casa. Entrando ali, vê-se, à esquerda, uma fossa revestida de alvenaria, onde é mantida uma fogueira; dirigindo-se à direita, avista-se, atrás de algumas colunas mais altas e num plano alguns degraus mais acima uma sala coberta, que forma o quarto lado do átrio e tem mais ou menos a metade do tamanho desse. Nessa sala, no espaço alguns degraus mais alto, estão os assentos dos membros do conselho, dispostos num semicírculo. O assento do Sumo Pontífice está no meio da sala.
 
O lugar do acusado, com os guardas, achasse no centro do semicírculo; em ambos os lados e atrás dele, até o átrio, o lugar dos acusadores e das testemunhas. A esse estrado semicircular dos juízes, conduzem, no fundo, três entradas que dão para uma sala maior, de forma semicircular, ao longo de cujas paredes há também assentos. Ali têm lugar as sessões secretas. A direita e à esquerda da entrada, vindo do tribunal, há nessa sala portas e escadas, que dão para fora, para o pátio interior, que, seguindo a forma da casa, também é de forma semicircular. Saindo pela porta da sala, à direita e virando-se no pátio à esquerda do edifício, chega-se à porta de uma cadeia subterrânea, que se estende sob a sala posterior, que está num plano mais alto do que o átrio e assim dá lugar para adegas subterrâneas. Há diversos cárceres nesse pátio circular; num deles vi S. Pedro e S. João presos por uma noite, depois de Pentecostes, quando Pedro curou o paralítico na Porta Bela do Templo.
 
No edifício e em redor havia inúmeras lanternas e fachos; estava claro como dia. Além disso concorria também para a iluminação a fossa da fogueira, no centro do átrio; era como um fogão colocado dentro do chão, aberto em cima, onde se lançava o combustível, que me pareceu ser carvão de pedra. Nos lados sobressaiam, à altura de um homem, tubos parecidos com chifres, para deixarem sair a fumaça; no meio, porém, se via o fogo. Soldados, soldados, muita gente de populacho e falsas testemunhas subornadas apinhavam-se em roda do fogo. Também se achavam ali mulheres e raparigas de má vida, que ofereciam aos soldados uma bebida vermelha e coziam-lhes bolos por dinheiro. Era um movimento como nos dias de carnaval.
 
A maior parte dos conselheiros convocados já estavam reunidos em torno do Sumo Sacerdote, no semicírculo elevado do tribunal; de vez em quando chegavam ainda alguns. Os acusadores e testemunhas falsas quase enchiam o átrio. Muita gente quis entrar à força, mas era repelida pelos soldados.
 
Pouco antes da chegada do cortejo de Jesus, vieram. Também Pedro e João, revestidos dos mantos dos mensageiros do tribunal e entraram no pátio exterior.
 
João, com auxilio do empregado, conhecido seu, pôde mesmo entrar pela porta do pátio interior, a qual, porém, foi fechada atrás dele, por causa do povo impetuoso. Pedro, atrasado pela multidão, já encontrou fechada a porta do pátio interior e a porteira não quis deixá-lo entrar. João disse-lhe que lhe abrisse; mas mesmo Pedro não poderia ter entrado, se não tivessem chegado nesse momento Nicodemos e José de Arimatéia, fazendo-o entrar com eles. No pátio interior entregaram os mantos aos tais criados e colocaram-se silenciosos no meio da multidão, à direita, de onde se podiam avistar os assentos dos Juízes.
 
Caifás já estava sentado no meio do semicírculo graduado, em roda se lhe sentavam cerca de setenta membros do Conselho Supremo. Muitos deputados comunais, anciãos e escribas estavam em pé ou sentados aos dois lados e em torno deles, muitas testemunhas e patifes. Do pé do tribunal, sob as colunatas, pelo átrio, até à porta pela qual se esperava a entrada de Jesus, forma dispostos soldados; aquela porta não era a que ficava em frente às cadeiras dos juízes, mas uma outra, à esquerda do átrio.
 
Caifás era um homem de aspecto sério, olhar colérico e ameaçador; estava vestido de um longo manto vermelho, ornado de florões e orlas de ouro, atado sobre os ombros, o peito e na frente, por muitas placas brilhantes. Na cabeça trazia um barrete, que na parte superior tinha semelhança com uma mira; entre as partes anterior e posterior desse, havia aberturas, dos lados, das quais pendiam pequenas faixas de pano, que caiam sobre os ombros. Caifás já convocara havia muito tempo os partidários, entre os membros do Sinédrio; muitos estavam reunidos desde que Judas saíra com a tropa de soldados. Cresceu a tal ponto a impaciência e raiva de Caifás, que desceu do alto assento, correndo, com todo o seu aparatoso ornato, ao átrio e perguntou furioso se Jesus ainda não estava chegando; nesse momento o cortejo vinha se aproximando e Caifás voltou para o assento.
 
Jesus diante de Caifás.
 
Entre frenéticos gritos de insulto, com empurrões e arrancos, foi Jesus conduzido pelo átrio, onde a desenfreada fúria do populacho se moderou, reduzindo-se a um sussurro e murmúrio surdo de raiva contida. Da entrada dirigiu-se o cortejo à direita, para o tribunal. Passando por Pedro e João, o querido Salvador, olhou-os, mas sem virar a cabeça para eles, para não os trair. Mal Jesus tinha chegado, por entre as colunas, em frente do tribunal, Caifás já lhe gritou: “Então chegaste, blasfemador de Deus, que nos tens profanado esta santa noite”.
 
Tiraram então o cetro irrisório de Jesus, a cabeça, na qual se achavam as acusações escritas por Anás; depois de ler as acusações, Caifás lançou uma torrente de insultos e acusações contra Jesus, enquanto os esbirros e soldados em roda puxavam e empurravam Nosso Senhor; tinham nas mãos curtos bastões de ferro, em cuja extremidade havia um castão munido de muitas pontas; com esses bastões empurravam a Jesus, gritando: “Responde, abre a boca. Não sabes falar?”
 
Fizeram tudo isso enquanto Caifás, ainda mais assanhado do que Anás, dirigiu um sem número de perguntas a Jesus, que, silencioso e paciente, olhava para baixo sem levantar os olhos para Caifás. Os soldados quiseram forçá-Lo a falar, davam-Lhe murros na nuca e nos lados, batiam-Lhe nas mãos e picavam-nO com sovelas; houve até um vil patife que lhe apertou o polegar o lábio inferior sobre os dentes, dizendo: “Agora morde!”
 
Seguiu-se a audição das testemunhas. Mas em parte era só uma gritaria confusa do populacho subornado ou então depoimentos de vários grupos dos mais assanhados inimigos de Jesus, entre os fariseus e saduceus do todo o país, reunidos por ocasião da festa. Proferiram de novo tudo o que Ele mil vezes tinha refutado; disseram: “Ele cura e expulsa os demônios pelo próprio demônio; não guarda o sábado; quebra o jejum; os seus discípulos não lavam as mãos; Ele seduz o povo; chama os fariseus de raça de víboras, de adúlteros; prediz a destruição de Jerusalém; tem relações com pagãos, publicanos, pecadores e mulheres de má vida; percorre o país, seguindo de grande multidão de povo; faz-se chamar rei, profeta, até Filho de Deus, fala sempre do seu reino; contesta o direito do divórcio; proferiu ameaças sobre Jerusalém; chama-se pão da vida, ensina coisas inauditas, dizendo que quem não Lhe comer a carne e não Lhe beber o sangue, não poderá ser salvo”.
 
Desse modo eram torcidas e viradas ao contrario todas as palavras, doutrina e parábolas de Jesus, para servirem de acusações, sempre interrompidas por insultos e brutalidades. Mas todos contradiziam e se confundiam uns aos outros. Um disse: “Ele se faz passar por rei”; outro: “Não, Ele se deixa apenas chamar assim e quando O quiseram proclamar rei, fugiu”. Então gritou um: “Mas Ele diz que é Filho de Deus”; outro, porém, replicou: “Não, Ele não disse isso, chama-se Filho só por fazer a vontade do Pai”. Alguns exclamaram que Ele os tinha curado, mas que depois recaíram; as curas eram apenas feitiço”.
 
Quase todas as acusações consistiam essencialmente em acusá-lo de feitiçaria. Algumas falsas testemunhas depuseram também sobre a cura do homem na piscina de Betesda, mas mentiram e confundiram-se. Os fariseus de Seforis, com os quais tinha discutido sobre o divorcio, acusaram-nO de falsa doutrina e até aquele jovem de Nazaré a quem Ele não quisera aceitar como discípulo, teve a vileza de comparecer ali, para dar testemunho contra Ele. Acusaram-nO também de ter absolvido a adúltera no Templo e ter acusado os fariseus.
 
Contudo não eram capazes de encontrar qualquer acusação solidamente provada. Os grupos de testemunhas que entravam e saiam, começaram a insultar Jesus, em lugar de depor contra Ele. Discutiam veemente uns com os outros e nos intervalos Caifás e alguns dos conselheiros continuavam incessantemente a insultar Jesus, gritando-Lhe, entre as várias acusações: “Que rei és tu? Mostra teu poder. Manda vir as legiões de Anjos, das quais falaste no horto das Oliveiras. Que fizeste do dinheiro das viúvas e das pessoas que se deixaram enganar? Tantas riquezas que desperdiçaste, que foi feito dela? Responde, fala! Agora que devias falar, diante do juiz, ficas calado; mas onde terias feito melhor em calar-te, diante do populacho e mulherio, aí te abundavam as palavras, etc”.
 
Todas essas perguntas eram acompanhadas de incessantes crueldades dos soldados, que, com pancadas e murros, queriam forçar Jesus a responder. Só por milagre de Deus pôde Jesus agüentar tudo isso, para expiar os pecados do mundo. Algumas testemunhas infames afirmaram que Jesus era filho ilegítimo, mas imediatamente replicaram outros: “É mentira; pois sua mãe era uma moça piedosa do Templo e nós assistimos à cerimônia do seu casamento com um homem muito religioso”. Essas testemunhas começaram a discutir.
 
Acusaram também Jesus e os discípulos de não oferecerem sacrifícios no Templo. Eu também nunca vi Jesus ou os Apóstolos, desde que O seguiam, levarem animais de sacrifício ao Templo, a não ser os cordeiros de Páscoa. Essa acusação não era justa; pois também os Essenos não ofereciam sacrifícios, sem por isso merecerem castigo. A acusação de feitiçaria repetiu-se muitas vezes e o próprio Caifás afirmou diversas vezes que a confusão das testemunhas era efeito da arte mágica.
 
Alguns acusaram então Jesus de ter comido o cordeiro pascal já de véspera, contrariamente ao costume e de ter alterado a ordem dessa cerimônia já no ano anterior; por isso começaram de novo a injuriar e insultar Jesus. Mas os depoimentos das testemunhas eram tão confusos e contraditórios, que Caifás e todo o Sinédrio ficaram envergonhados e furiosos, porque não podiam encontrar nada que de qualquer modo pudessem provar.
 
Nicodemos e José de Arimatéia foram também convidados a se justificarem de ter Jesus comido a Páscoa no Cenáculo deles, em Sião. Compareceram diante de Caifás e provaram, com antigos documentos, que os galileus podiam comer o cordeiro pascal um dia antes, conforme um direito imemorial; além disso, acrescentaram, foram observados as cerimônias prescritas, pois estiveram presentes homens empregados do Templo. Com essa afirmação ficaram as testemunhas muito embaraçadas e o que vexava os inimigos de Jesus, era ter Nicodemos mandado trazer os rolos de lei e provado com estes o direito dos galileus.
 
Além de diversos motivos para esse direito dos galielus, os quais esqueci, foi alegado que seria impossível, com a afluência do povo, acabar as cerimônias no tempo prescrito pela lei do sábado; também haveria inconveniências na volta, pela multidão do povo nos caminhos. Apesar dos galileus nem sempre usarem desse direito, ficara, porém, perfeitamente provado pelos documentos alegados por Nicodemos.
 
A ira dos fariseus cresceu ainda mais, quando Nicodemos terminou o discurso pela observação de que todo o Sinédrio se devia sentir ultrajado, diante do povo reunido, por um processo feito com tal precipitação e preconceito, na noite de um dia tão santo e com a confusão e contradição tão aberta de todas as testemunhas, com precipitação e imprudência ainda maior.
 
Depois de muitos depoimentos falsos, vis e mentirosos, se apresentaram mais duas testemunhas, dizendo: Jesus disse que queria destruir o Templo feito pelas mãos de homens e construir em três dias outro, que não seria feito por mãos de homens. Mas também esses dois não estavam de acordo; um disse que Jesus queria construir um templo novo; por isso teria celebrado a Páscoa num outro edifício, porque queria destruir o antigo Templo, o outro, porém, disse que aquele edifício também fora construído por mãos de homens e que portanto não se referia a ele.
 
Caifás chegou então ao auge da cólera; pois as crueldades praticadas para com Jesus, as afirmações contraditórias das testemunhas, a inefável paciência e o silêncio do Salvador, causaram impressão desfavorável a muitos dos presentes. Algumas vezes foram as testemunhas até vaiadas. Muitos ficaram inquietos no coração, vendo o silêncio de Jesus e cerca de dez soldados afastaram-se, sob pretexto de se sentirem indispostos. Esses, passando diante de Pedro e João, lhes disseram: “Este silêncio do galileu, num processo tão infame, dói no coração, é como se a terra se fosse abrir e tragar-nos; dizei-nos aonde nos devemos dirigir”.
 
Caifás, furioso pelos depoimentos contraditórios e a confusão das duas últimas testemunhas, levantou-se do assento, desceu alguns degraus, até onde estava Jesus e disse: “Não respondes nada a esta acusação?” Indignou-se, porém, de Jesus não o fitar; os soldados puxaram então, pelos cabelos, a cabeça de Nosso Senhor, para trás e bateram-lhe com os punhos por baixo do queixo. Mas o Senhor não levantou os olhos. Caifás, porém, estendeu com veemência as mãos e disse em tom furioso: “Conjuro-Te pelo Deus vivo, que nos diga se és o Cristo, o Messias, o Filho de Deus e Bendito!”
 
Acalmaram-se a vozeria e seguiu-se um silêncio solene em todo o átrio; Jesus, fortalecido por Deus, disse, com uma voz cheia de inefável majestade, que fazia estremecer a todos, com a voz do Verbo Eterno: “Eu o sou, disseste-o bem. E eu vos digo que em breve vereis o Filho do homem assentado à mão direita da majestade de Deus, vindo sobre as nuvens do céu”.
 
Durante essas palavras vi Jesus como que luminoso e sobre Ele, no céu aberto, Deus Pai Todo-poderoso, numa visão inexprimível; vi os Anjos e as orações dos justos, suplicando e orando em favor de Jesus. Vi, porém, como se a divindade de Jesus falasse simultaneamente do Pai e do Filho: “Se eu pudesse sofrer; mas porque sou misericordioso, aceitei a natureza humana no Filho, para que nela sofresse o Filho do Homem; pois sou justo e ei-Lo que toma sobre si os pecados de todos estes homens, os pecados de todo o mundo”.
 
Por baixo de Caifás, porém, vi aberto todo o inferno, um círculo lúgubre de fogo, cheio de figuras hediondas e ele por cima desse círculo, sustentado apenas como por um crepe fino. Vi-o penetrado pela fúria do inferno. Toda a casa me parecia um inferno agitado por baixo. Quando o Senhor Declarou que era o Filho de Deus, o Cristo foi como se o inferno tremesse diante dEle e fizesse subir a essa casa toda a sua fúria contra o Salvador.
Mas como tudo me é mostrado em imagens e figuras (cuja linguagem é para mim também mais verdadeira, curta e clara do que outras explicações, pois os homens também são formas corporais e sensíveis e não somente palavras abstratas), vi o medo e o ódio do inferno manifestar-se sob inúmeras figuras horríveis, que subiam em muitos lugares, como saindo da terra.
 
Entre outras me lembro ainda de bandos de pequenas figuras escuras, semelhantes a cães, que andavam nas patas traseiras, curtas e com garras compridas, mas não me lembro mais que espécie de vício representavam essas figuras; sabia-o naquele tempo, mas agora só me lembro da forma. Tais figuras horrendas vi entrar na maior parte dos assistentes, ou sentar-se nos ombros ou sobre a cabeça deles. A assembléia estava cheia dessas figuras e a fúria aumentava cada vez mais em todos os maus.
 
Nesse momento vi também muitas figuras hediondas, saindo dos sepulcros, além de Sião; creio que eram espíritos maus. Vi também, perto do Templo, saírem da terra muitas aparições e entre essas, diversas que pareciam arrastar-se com cadeias, como presos; não sei mais se essas últimas aparições eram espíritos maus ou almas condenadas a habitarem certos lugares da terra e que talvez se dirigissem ao limbo, que o Senhor abriu pela sua própria condenação à morte.
 
– Não se podem exprimir exatamente essas coisas, nem quero escandalizar aos que as ignoram, mas ao vê-las, sente-se um arrepio. Esse momento tinha algo de horrível. Creio que também João deve ter visto alguma coisa, pois ouvi-o falar disso mais tarde; pelo menos todos os que não eram ainda inteiramente maus, sentiram, com um medo profundo, o horror desse momento; os maus, porém, sentiram-se numa violenta erupção de ódio.
 
Caifás, como inspirado pelo inferno, apanhou a orla do mando oficial, cortou-a com uma faca e rasgou o manto, com um ruído sibilante, gritando: “Ele blasfemou! Para que precisamos de testemunhas? Vós mesmos ouvistes a blasfêmia; que julgais?” Então se levantaram todos quantos ainda estavam presentes e gritaram, com voz terrível: “É réu de morte. É réu de morte”.
 
A esse grito, a fúria do inferno tornou-se naquela casa verdadeiramente terrível: os inimigos de Jesus estavam como embriagados por Satanás e do mesmo modo os servos aduladores e abjetos. Era como se as trevas proclamassem o seu triunfo sobre a luz. Causou tal horror aos que ainda conservavam um pouco de bom sentimento, que muitos destes saíram furtivamente, envolvidos nos mantos.
 
Também as testemunhas mais notáveis, como não lhes fosse mais necessária a presença, saíram do tribunal, sentindo remorsos da consciência. Outros, mais vis, vadiavam pelo átrio e em redor da fogueira, onde, depois de recebido dinheiro, começaram a comer e beber.
 
O Sumo Sacerdote disse, porém, aos soldados: “Entrego-vos este rei; prestai a este blasfemo a devida honra”. Depois se retirou com os membros do Conselho, à sala circular, situada atrás do tribunal, cujo interior não se podia ver do átrio.
 
João, cheio de profunda tristeza, lembrou-se então da pobre Mãe de Jesus. Receou que a terrível notícia, comunicada por um inimigo, pudesse feri-la ainda mais e por isso lançando mais um olhar ao Santo dos santos, disse no seu coração: “Mestre, bem sabeis porque me vou embora” e saiu apressadamente do tribunal, indo à SS. Virgem, como se fosse enviado por Jesus mesmo. Pedro, porém, todo abalado pela angústia e pela dor e sentido, devido à fadiga, ainda mais o frio penetrante da manhã, ocultava a tristeza e o desespero o mais que podia e aproximou-se timidamente da fogueira no átrio, rodeada pelo populacho, que ali se aquecia. Não sabia o que estava fazendo, mas não podia separar-se do Mestre.
 
Jesus é escarnecido e maltratado em casa de Caifás
 
Quando Caifás saiu, com todo o conselho do tribunal, deixando Jesus entregue aos soldados, lançou-se o bando de todos os malvados patifes aí presentes, como um enxame de vespas irritadas, sobre Nosso Senhor, que até então estava seguro com cordas por dois dos quatro primeiros soldados; os outros tinham se afastado antes do interrogatório, para se revezarem com outros. Já durante a audição os soldados e outros malvados arrancaram tufos inteiros do cabelo e da barba do Senhor. Alguns homens bons apanharam parte do cabelo do chão e afastaram-se furtivamente com ele; mas depois lhes desapareceu.
 
O bando vil dos soldados também já tinham cuspido em Jesus, durante o interrogatório que lhe tinham dado inúmeros murros, batido com paus que terminavam em bulbos munidos de pontas e picado com alfinetes; mas depois descarregaram a raiva de um modo insensato sobre o pobre Jesus. Punham-Lhe na cabeça várias coroas, trançadas de palha e cortiça, de formas ridículas e tiravam-nas novamente, com palavras maldosas e escárnio. Ora diziam: “Ei-Lo, o Filho de Davi, com a coroa de seu Pai!” ora: “Eis aqui está quem é mais do que Salomão!” ou: “Este é o rei que prepara as núpcias do filho” e assim escarneciam nEle toda a verdade eterna que tinha proferido em ensinamentos e parábolas, para a salvação dos homens... Batiam-Lhe com punhos e paus, empurravam-nO, cuspindo nEle de um modo nojento.
 
Trançaram ainda uma coroa de palha grossa de trigo, que ali cultivavam, puseram-Lhe na cabeça um boné alto, parecido com uma mitra de um bispo de hoje e em cima a grinalda de palha; já antes O tinham despido da túnica tecida. Lá estava o pobre Jesus, vestido apenas de tanga e escapulário sobre peito e costas; mas também esse último, ainda lhO arrancaram e não Lhe foi mais restituído.
 
Jogaram-Lhe sobre os ombros um manto velho, esfarrapado, cuja parte anterior nem Lhe cobria os joelhos e em redor do pescoço lhe puseram uma cadeia de ferro, que, como uma estola, lhe pendia sobre o peito, até os joelhos; essa cadeia terminava em duas argolas largas e pesadas, munidas de pontas agudas, que lhe feriam dolorosamente os joelhos, quando andava ou caia.
 
Amarraram-Lhe de novo as mãos sobre o peito, pondo nelas um caniço e cobriram-Lhe o rosto divino com o escarro nojento das suas bocas imundas. O cabelo de Jesus, a barba, o peito e a parte superior do manto estavam cobertas de imundícies nauseabundas; venderam-Lhe com um farrapo sujo os olhos, batiam-Lhe com punhos e bastões, gritando: “Grande profeta! Profetiza, quem te bateu”. Ele, porém, nada dizia: gemia e orava no íntimo do coração por eles, que continuavam a bater-Lhe.
 
Assim maltratado, disfarçado e sujo, arrastaram-nO pela corrente à sala atrás do tribunal. Empurraram-nO diante de si, a pontapés e pauladas, com risadas de escárnio, gritando: “Vamos com o rei de palha; ele deve apresentar-se também ao Conselho, com as honras que Lhe temos prestado”. Entrando na sala, onde ainda se achavam Caifás e muitos membros do Conselho, começaram de novo a escarnecer do Divino Salvador, com vis gracejos e alusões sacrílegas a santos usos e cerimônias.
 
Assim como no átrio, cuspiram-Lhe e sujaram-nO, gritando: “Eis aqui tua unção de profeta e rei!” Aludiram também à unção de Madalena e ao batismo: “Como, gritaram, queres comparecer tão sujo diante do Supremo Conselho? Querias sempre purificar os outros e não estás limpo; mas vamos limpar-Te agora”. Trouxeram então uma bacia com água suja e fétida, na qual havia um farrapo grosso e nojento e entre murros, escárnio e insultos, interrompidos apenas por cumprimentos e inclinações derrisórias, uns mostrando-Lhe a língua, outros virando-lhes as costas em posições indecentes, passaram-Lhe o farrapo sujo pelo rosto e os ombros, fingindo limpá-Lo, mas sujando-O ainda mais; depois Lhe entornaram todo o conteúdo nojento da bacia sobre a cabeça e o rosto, gritando: “Aí tens o teu batismo da piscina de Betsaida”.
 
Com essa última palavra escarnecedora compararam-nO, sem premeditação, ao cordeiro pascal; pois os cordeiros que nesse dia eram imolados, eram antes lavados no tanque perto da Porta das Ovelhas e depois levados à piscina de Betsaida, onde recebiam uma aspersão cerimonial, antes de serem imolados no Templo. Os soldados, porém, aludiam ao doente de 38 anos, que fora curado na piscina de Betsaida; pois vi-o ali batizar ou lavar; digo, batizar ou lavar” porque não tenho recordação clara disso neste momento.
 
Depois arrastaram e empurraram Jesus, com murros e pancadas, por toda a sala, passando em frente dos membros do Conselho, ainda reunidos, que todos O insultavam e escarneciam. Vi tudo cheio de figuras diabólicas; era um movimento sinistro, confuso e horrível. Mas em redor de Jesus maltratado vi muitas vezes um esplendor luminoso, desde que dissera que era o Filho de Deus. Muitos dos presentes pareciam senti-Lo também mais ou menos, vendo com certa inquietação que todos os insultos e maus tratos não Lhe podiam tirar a majestade inexprimível.
 
Os inimigos obcecados pareciam sentir esse esplendor somente pela erupção mais forte de sua ira e de seu ódio; a mim, porém, parecia esse esplendor tão manifesto, que não podia deixar de pensar que velavam o rosto de Jesus, só porque o Sumo Sacerdote, desde que ouvira a palavra: “Eu o sou”, não podia mais suportar o olhar do Salvador.
 
A negação de Pedro
 
Quando Jesus disse, em tom solene: “Eu o sou”, quando Caifás rasgou o próprio manto, quando o grito: “É réu de morte!” interrompeu os insultos e ultraje da gentalha, quando se abriu sobre Jesus o céu da justiça e o inferno desencadeou sua fúria e dos sepulcros saíram os espíritos presos, quando tudo estava cheio de medo e horror; então Pedro e João, que tinham sofrido muito por serem obrigados a ver, em silêncio e inação, o cruel tratamento de Jesus, sem poder manifestar compaixão, não agüentaram mais ficar ali.
 
João saiu, juntamente com muita gente e testemunhas e dirigiu-se apressadamente a Maria, Mãe de Jesus, que se achava com as mulheres piedosas em casa de Marta, perto da Porta do Ângulo, onde Lázaro possuía um grande edifício. Pedro, porém, não podia afastar-se, amava demasiadamente a Jesus. Não podia conter-se; chorava amargamente, esforçando-se por esconder as lágrimas. Não quis ficar, pois sua consternação te-lo-ia traído, nem podia ir a outra parte, sem causar estranheza aos outros. Dirigiu-se por isso ao atiro, ao canto da fogueira, onde se, apinhavam soldados e muitos homens do populacho, que iam e voltavam, para ver escarnecer de Jesus e faziam observações baixas e maliciosas.
 
Pedro conservava-se calado, mas esse silêncio e o ar de tristeza do rosto deviam torná-lo suspeito aos inimigos do Mestre. Aproximou-se então também do fogo a porteira e, como todos falassem de Jesus e o insultassem, também entrou na conversa, à maneira das mulheres impertinentes e, olhando para Pedro, disse: “Tu também és um discípulos do Galileu!” Pedro tornou-se embaraçado e inquieto e, receando que aquela gente grosseira o maltratasse, disse: “Oh, mulher! Eu não O conheço; não sei e nem compreendo o que queres dizer”. Levantou-se e com a intenção de livrar-se deles, saiu do átrio; foi à hora em que o galo, fora da cidade, cantou pela primeira vez; não me lembro de tê-lo ouvido, mas senti que então cantou.
 
Saindo Pedro do átrio, viu-o outra criada e disse a alguns que estavam ali: “Este também tem estado com Jesus” e eles disseram: “Não eras também um dos discípulos do Galileu?” Pedro, assustado e confuso, exclamou, protestando: “Em verdade, não o era, nem conheço esse homem”.
 
Depois se afastou depressa do primeiro pátio para o exterior, afim de prevenir do perigo alguns conhecidos, que vira olharem por cima do muro. Chorou e estava tão cheio de angústia e tristeza, por causa de Jesus, que quase não se lembrava da sua negação. No pátio exterior estava muita gente e também amigos de, Jesus, que não foram admitidos ao pátio interior; mas a Pedro foi permitido sair. Aquela gente trepara no muro, para espiar o que esse passava e Pedro encontrou entre eles muitos dos discípulos de Jesus, os quais a busca de notícias tinham corrido das cavernas dos vale Hinom para lá. Esses se acercaram logo de Pedro, interrogando-o entre lágrimas, a respeito de Jesus; mas ele estava tão abatido e tinha tanto medo de trair-se, que lhes aconselhou retirar-se, por haver ali perigo para eles.
 
 Depois se separou deles, indo tristemente pelos pátios enquanto os outros saíram com pressa da cidade. Estiveram ali cerca de 16 dos primeiros discípulos, entre eles Bartolomeu, Natanael, Saturnino, Judas Barsabas, Simeão, mais tarde bispo de Jerusalém, Zaqueu e Manaem, o profético jovem, cego de nascença e curado por Jesus.
 
Pedro não achou sossego; o amor de Jesus impelia-o ao pátio interior, que cercava a casa; deixaram-no entrar, de novo, porque Nicodemus e José de Arimatéia o mandaram entrar, na primeira vez. Não voltou imediatamente à sala do tribunal, mas dirigiu-se à direita, indo ao longo da casa, para a entrada da sala atrás do tribunal, onde o bando de soldados já estava conduzindo Jesus em redor da sala, com vaias e insultos.
 
Pedro aproximou-se medroso; posto que se sentisse observado como suspeito, impelia-o a ânsia por Jesus a enfiar-se pela porta, ocupada por gente baixa, que estava assistindo àquela cena de escárnio. Nesse momento estavam arrastando Jesus, coroado com a grinalda de palha, em redor da sala. O Senhor lançou a Pedro um olhar sério de repreensão. Pedro ficou como que esmagado pela dor. Mas, lutando com o medo e ouvindo alguns dos circunstantes dizerem: “Quem é este sujeito?”, saiu novamente para o pátio, tão abatido e tão confuso pelo medo, que andava cambaleando a passos lentos.
 
Vendo-se, porém, observado, entrou de novo no átrio, aproximou-se da fogueira, ficando ali bastante tempo sentado, até que diversas pessoas, que fora lhe tinham notado a confusão, entraram, começando de novo a provocá-lo, falando mal de Jesus e de suas obras. Um deles, chamado Cássio e mais tarde Longino, disse então: “É verdade, também és daquela gente; és galileu, tua linguagem prova-o”. Como Pedro quisesse sair com um pretexto, impediu-o um irmão de Malco, dizendo: “O que? Não te vi com eles no horto das Oliveiras? Não feriste a orelha de meu irmão?” Tornou-se Pedro então como insensato, pelo pavor que o dominou e livrando-se deles, começou a praguejar (tinham um gênio violento) e jurar que absolutamente não conhecia esse homem e correu do átrio para o pátio interior. Foi à hora em que o galo cantou de novo; os soldados conduziram Jesus, nesse mesmo momento, da sala circular, pelo pátio para o cárcere que ficava sob a sala.
 
Virou-se, porém, o Senhor e olhou para Pedro com grande dor e tristeza; lembrou-se Pedro então da palavra de Jesus: “Antes do galo cantar duas vezes, negar-me-ás três vezes”, e essa lembrança pesou-lhe com terrível violência sobre o coração. Fatigado pelas angústias e o medo, tinha-se esquecido da promessa presunçosa de querer antes morrer, do que O negar e do aviso profético de Jesus; mas à vista do Mestre, esmagou-o a lembrança do crime que acabaça de cometer.
 
Tinha pecado; pecado contra o Salvador, tão cruelmente tratado, condenado, inocente, sofrendo tão resignado toda a horrível tortura. Como desvairado de contrição, saiu apressadamente pelo pátio exterior, a cabeça velada e chorando amargamente; não temia mais ser interrogado; teria então dito a todos quem era e que pecado lhe pesava na consciência.
 
Quem se atreveria a dizer, que em tais perigos, angústias, em tal pavor e confusão, numa tal luta entre amor e medo, cansado, insone, prestes a perder a razão pela dor de tantos e tão tristes acontecimentos dessa noite horrível, com uma natureza tão simples com ardente, quem se atreveria a dizer que, em iguais condições, teria sido mais forte do que Pedro? O Senhor abandonou-o às próprias forças; tornou-se então tão fraco como o são todos os que esquecem as palavras: “Vigiai e orai, para não cairdes em tentação”.
 
Maria no tribunal de Caifás
 
A SS. Virgem, em contínua e profunda compaixão para com Jesus, sabia e sentia tudo que a Ele faziam. Sofria em contemplação espiritual e, como Ele, continuava em oração pelos carrascos. Mas o coração de mãe também lhe clamava a Deus que não permitisse esses pecados e que afastasse essas torturas do santíssimo Filho; durante todo esse tempo tinha o desejo irresistível de estar com o pobre Filho, tão cruelmente tratado.
 
Quando João, depois do grito: “É réu de morte!”, saiu do átrio de Caifás, vindo a ela, em casa de Lázaro, perto da porta do Ângulo e lhe confirmou com a triste narração e entre lágrimas, todos os terríveis tormentos de Jesus, os quais, em sua compaixão espiritual, já lhe, dilaceravam o coração, Maria pediu-lhe, como também Madalena, quase desvairada de dor e algumas outras mulheres, que as conduzisse ao lugar onde Jesus sofria.
 
João, que deixara Jesus só para consolar aquela que, depois de Jesus, lhe merecia mais amor, saiu da casa com a SS. Virgem, conduzida pelas santas mulheres; Madalena caminhava-lhes ao lado, torcendo as mãos. As ruas estavam iluminadas pelo claro luar e viam-se muitas pessoas, que voltavam para casa. Iam veladas as santas mulheres; mas o andar apressado e as exclamações de dor atraíam sobre elas a atenção de vários grupos de inimigos de Jesus que passavam e muitas palavras insultuosas e cruéis, proferidas de propósito em alta voz contra Jesus, renovavam-lhe a dor.
 
A Mãe de Jesus, sempre unida a Ele, na contemplação espiritual do seu suplício, caiu diversas vezes desmaiada, nos braços das companheiras; conservava tudo no coração, sofrendo em silêncio com Ele e como Ele. Quando desse modo caiu nos braços das mulheres, sob uma porta ou arcada da cidade interior, vieram-lhes ao encontro um grupo de pessoas bem intencionadas, que voltavam do tribunal de Caifás, lamentando a sorte do Mestre. Essas se aproximaram das santas mulheres e, reconhecendo a Mãe de Jesus, demoraram-se algum tempo, cumprimentando-a compadecidamente; “Oh! Mãe infeliz! Oh! Mãe, cheia de tristeza, Oh! Mãe dolorosa do mais Santo de Israel!” Maria, votando a si, agradeceu-lhes e continuaram o triste caminho a passo apressado.
 
Avizinhando-se do tribunal de Caifás, passaram para o caminho do lado oposto da entrada, onde apenas um muro cerca a casa, enquanto que o lado da entrada conduz por dois pátios. Ali sobreveio nova dor amarga à Mãe de Jesus e às companheiras. Tinham de passar em frente a um lugar, um pouco elevado, onde estavam homens, sob uma leve tenda, aparando a Cruz de Jesus Cristo, à luz de lanternas.
 
Logo que Judas saíra para trair Jesus, os inimigos haviam ordenado que se preparasse uma cruz, para que, se Jesus fosse preso, Pilatos não tivesse motivo para atrasar a execução; pois já tinham a intenção de entregar Nosso Senhor de manhã cedo a Pilatos e não esperavam que levasse tanto tempo até a condenação. As cruzes para os dois ladrões, os romanos já as tinham preparado. Os operários amaldiçoavam e insultavam a Jesus, por terem de trabalhar durante a noite por causa dEle; todas as machadadas e todas essas palavras feriam e traspassavam o coração da pobre Mãe; mas ainda assim rezava por esses homens tão horrivelmente cegos, que, com maldições, preparavam o instrumento de sua redenção e do martírio de seu Filho.
 
Tendo passado em volta da casa e chegado ao pátio exterior, Maria entrou, acompanhada das santas mulheres e de João, dirigindo-se à porta do pátio interior, que estava fechada. Tinha a alma cheia de intensa compaixão para com Jesus. Desejava ardentemente que a porta se abrisse e pudesse entrar, por intermédio de João; pois sentia que apenas essa porta a separava do Filho querido, que, ao segundo canto do galo, estava sendo levado do tribunal à cadeia subterrânea.
 
De súbito se abriu a porta e na frente de algumas pessoas saiu Pedro, correndo para eles, cobrindo com as mãos o rosto velado e chorando amargamente. À luz da lua e das lanternas, conheceu logo a João e a SS. Virgem; parecia-lhe que a voz da consciência lhe vinha ao encontro, na pessoa da Mãe de Jesus, depois que o seu Divino Filho a tinha despertado. Ah! Como ressoava a voz de Maria na alma de Pedro, quando ela disse: “Oh! Simão! Que fizeram de Jesus, meu Filho?” Ele não podia enfrentar o olhar de Maria, desviou os olhos para o lado, torcendo as mãos e não pôde proferir palavra. Mas Maria não o deixou, aproximou-se-lhe e perguntou com voz triste: “Simão, filho de Jonas, não me respondes?”
 
Então exclamou Pedro, na sua dor: “Oh, Mãe, não faleis comigo; vosso Filho sofre coisas indizíveis; não me faleis a mim, pois condenaram-nO à morte e eu O neguei vergonhosamente por três vezes”. E como João se aproximasse para falar-lhe, fugiu Pedro, desvairado de tristeza e saindo do pátio e da cidade, retirou-se àquela gruta do monte das Oliveiras, na qual as mãos de Jesus se tinham imprimido na pedra. (v. cap. 3.7 pelo fim). Creio que nessa gruta também nosso primeiro pai Adão fazia penitência, quando veio para a terra amaldiçoada por Deus.
A SS. Virgem, sentindo com veemente compaixão essa nova dor de Jesus, a quem negara o mesmo discípulo que fora o primeiro a reconhecê-Lo como Filho de Deus vivo, caiu, após as palavras de Pedro, sobre a pedra ao lado da porta, onde estava e imprimiram-se-lhe as formas das mãos e dos pés na pedra, a qual ainda existe, mas não me lembro onde; tenho-a visto em qualquer parte.
 
As portas dos pátios estavam abertas, porque a maior parte do povo se retirava, depois que Jesus fora fechado na cadeia. Maria Santíssima, tendo voltado a si, desejava estar mais perto do Filho querido; João levou-a e as santas mulheres até diante da prisão do Senhor. Ah! Bem sentia Maria, a presença de Jesus e Jesus a de sua Mãe, mas a Mãe fiel quis também ouvir com os sentidos exteriores os gemidos do Filho adorado e ouvia-os e também às palavras insultuosas dos guardas.
 
Não podiam demorar-se ali muito sem ser notadas; Madalena, na veemência da dor, manifestava a comoção e embora Maria conservasse nessa extrema dor uma santa calma, que impunha respeito, devia também ouvir nesse curto caminho as palavras amargas e maliciosas: “Não é esta a mãe de Galileu? O filho com certeza há de morrer na cruz, mas naturalmente não antes da festa, a não ser que fosse o homem mais criminoso”. Então ela voltou e impelida pelo coração, foi ainda até à fogueira do átrio, onde havia ainda alguns populares; as companheiras seguiram-na, em dor silenciosa. Nesse lugar de horror, onde Jesus dissera que era Filho de Deus e a raça de Satanás gritara: “É réu de morte!”, Maria perdeu de novo os sentidos. João e as santas mulheres levaram-na dali, parecendo mais morta do que viva. A plebe nada disse, calou-se admirada; foi como se um espírito puro tivesse passado pelo inferno.
 
O caminho conduziu-as de novo ao longo do pátio posterior da casa; passaram outra vez por aquele lugar triste, onde alguns homens estavam ocupados em aprontar a Cruz; os operários achavam tanta dificuldade em terminar a cruz, quanto o tribunal em julgar Jesus; foram obrigados a procurar várias vezes outros madeiros, porque os primeiros não serviam ou se fendiam, até que juntaram os diversos madeiros do modo por que Deus o determinara.
 
Tenho tido várias visões a respeito; vi também Anjos impedirem o trabalho, até que tudo foi feito segundo a vontade de Deus; mas como não me lembro mais claramente disso, deixo de contá-lo.
Jesus no cárcere
 
A cadeia em que estava Jesus, era um lugar pequeno, abobadado, sob o tribunal de Caifás. Vi que ainda existe parte desse lugar. Dos quatro só dois soldados ficavam com Ele; revezavam-se com os outros várias vezes em pouco tempo. Ainda não tinham restituído a roupa a Jesus, que estava vestido apenas daquele manto rasgado, coberto de escarro e com as mãos novamente amarradas.
 
Ao entrar na prisão, Jesus pediu ao Pai Celeste que aceitasse toda a crueldade e escárnio que sofreu e ainda ia sofrer, como sacrifício expiatório igual sofrimento. Também nesse lugar os soldados não deixavam descansar o Senhor. Amarraram-nO a uma coluna baixa, no meio do cárcere e não Lhe permitiam encostar-se, de modo que cambaleava com os pés feridos e inchados pelas quedas e pelas pancadas das cadeias, que Lhe pendiam até os joelhos. Não deixavam de insultar e maltratá-Lo e sempre que os dois estavam cansados, eram revezados por outros, que entrando, começavam a fazer-Lhe novas injúrias.
 
Não me é possível contar todas as baixezas que proferiam contra o mais Puro e Santo de todos os Seres; fiquei doente demais e então quase morri de compaixão. Ai! Que vergonha para nós, que por moleza e nojo nem podemos contar ou escutar as crueldades inumeráveis que o Salvador sofreu por nós! Sentimos um terror semelhante ao do assassino a quem mandam pôr a mão nas feridas do assassinado.
 
Jesus sofria tudo sem abrir a boca: eram os homens, que soltavam a fúria contra seu irmão, seu Redentor, seu Deus. Também sou pecadora, também por minha causa. Ele teve de sofrer. No dia do Juízo há de manifestar-se tudo. Então veremos que parte nos maus tratos do Filho de Deus tivemos, pelos nossos pecados, que continuamente cometemos e pelos quais consentimos e nos unimos as crueldades perpetradas por aquele bando de soldados diabólicos. Ai! Se considerássemos isso, pronunciaríamos muito mais seriamente aquelas palavras contidas nas fórmulas de contrição: “Senhor! Faze-me antes morrer do que vos ofender mais uma vez pelo pecado”.
 
Estando em pé no cárcere, Jesus rezava continuamente pelos carrascos. Quando esses ficaram enfim cansados e mais calmos, vi Jesus encostado ao pilar e rodeado de luz. Amanheceu o dia, o dia de sua imensa Paixão e expiação; o dia da nossa redenção espiava timidamente por um orifício no alto da parede, contemplando o nosso Cordeiro Pascal, tão santo e maltratado, que tomara sobre si todos os pecados do mundo. Jesus levantou as mãos amarradas ao novo dia, rezando alto e distinto uma oração tocante ao Pai Celestial, na qual agradeceu a missão desse dia, que almejava os Patriarcas, pelo qual Ele tanto suspirara, desde a sua vinda ao mundo, como disse: “Devo ser batizado com um batismo e quanto desejo que se realize!” Com que fervor agradeceu o Senhor esse dia, em que devia alcançar o alvo de sua vida, nossa salvação, abrir o Céu, vencer o inferno, abrir para os homens a fonte da graça e cumprir a vontade do Pai Celeste!
 
Rezei com Ele, mas não sei mais repetir a oração, pois eu estava extenuada de compaixão e de chorar, vendo-Lhe os sofrimentos e ouvindo-O ainda agradecer os horríveis tormentos, que tomou sobre si também por minha causa; eu suplicava sem cessar: “Ah! Dai-me as vossas dores; pertencem-me a mim, pois são a expiação das minhas culpas”.
 
Amanheceu o dia e Jesus saudou-o com uma ação de graças tão comovente, que fiquei como aniquilada de amor e compaixão e repeti-Lhe as palavras como uma criança. Era um espetáculo indizivelmente triste, afetuoso, santo e imponente, ver Jesus, depois desse tumulto da noite, amarrado a coluna, no meio do estreito cárcere, rodeado de luz, saudando com palavras de agradecimento os primeiros raios do grande dia de seu sacrifício. Ai! Parecia-me que esse raio Lhe entrou no cárcere, como um juiz vem visitar um condenado a morte, para reconciliar-se com ele antes da execução. E Ele ainda Lhe agradeceu tão docemente!
 
– Os soldados, que de cansaço tinham adormecido um pouco, acordaram surpresos, olhando para Ele, mas não O incomodaram, pois pareciam admirados e assustados. Jesus ficou nesse cárcere pouco mais de uma hora.
 
 Judas aproxima-se da casa do tribunal
 
Judas, tomado de desespero, impelido pelo demônio, vagueara pelo vale Hinom, no lado íngreme, ao sul de Jerusalém, lugar onde se jogava o lixo, ossos e cadáveres; enquanto Jesus estava no cárcere, ele veio aproximar-se da casa do tribunal de Caifás. Rodeava-a, espreitando; ainda lhe pendia, preso ao cinto, o prêmio da traição, as moedas de prata encadeadas num molho.
A noite já se tornara silenciosa e o infeliz perguntou aos guardas, que não o conheciam, o que seria feito do Nazareno. Responderam-lhe: “Foi condenado a morte e será crucificado”. Ainda ouviu outros falarem entre si que Jesus fora tratado tão cruelmente e sofrera tudo com paciência e resignação; ao amanhecer seria levado outra vez perante o Supremo Conselho, para ser condenado solenemente. Enquanto o traidor colhia cá e lá essas notícias, para não ser reconhecido, amanheceu o dia e já se via muito movimento dentro e em redor da casa. Então, para não ser visto, retirou-se Judas para os fundos da casa; pois fugia dos homens como Caim e o desespero tomava-lhe cada vez mais posse da alma.
 
Mas eis o que se lhe apresentou ante os olhos: - Achou-se no lugar onde tinham trabalhado preparando a cruz; lá estavam as várias peças já arrumadas e entre elas, envolvidos nos cobertores, estavam os operários dormindo. Por sobre o monte das Oliveiras cintilava a pálida luz da manhã; parecia tremer de horror, ao ver o instrumento da nossa salvação. Judas, ao deparar essa cena, fugiu, preso de horror: vira o madeiro do suplício, para o qual vendera o Senhor. Escondeu-se, porém, nos arredores, esperando pelo fim do julgamento da madrugada.
 
O julgamento de Jesus na madrugada
 
 Ao romper do dia, quando já clareara, reuniram-se novamente Anás e Caifás, os anciãos e os escribas, na grande sala do tribunal, para uma sessão perfeitamente legal; pois o julgamento feito durante a noite não era válido e era considerado apenas um depoimento preparatório das testemunhas, porque urgia o tempo, por causa da festa iminente. A maior parte dos membros do conselho passaram o resto da noite na casa de Caifás, seja em aposentos contíguos, seja na própria sala do tribunal, onde foram colocados leitos para esse fim. Muitos, entre eles Nicodemos e José de Arimatéia, chegaram ao romper do dia. Foi uma assembléia numerosa e em cuja ação houve muita precipitação.
 
Como os membros do conselho se incitassem uns aos outros a condenar Jesus à morte, levantaram-se Nicodemos, José de Arimatéia e alguns outros contra os inimigos de Jesus, exigindo que a causa fosse adiada até depois da festa, para não provocar tumultos; também porque não se podia basear um julgamento justo sobre as acusações até então proferidas, por serem contraditórios os depoimentos das testemunhas.
Os sumos sacerdotes e seu partido forte irritaram-se com essa oposição e deixaram ver claramente aos adversários que estes também eram suspeitos de favorecerem a doutrina do Galileu e que por isso naturalmente não lhes agradava esse julgamento, porque se dirigia também contra eles mesmos; assim decidiram eliminar do Conselho todos que eram a favor de Jesus; esses, porém, protestaram contra tal processo e, declarando-se alheios a tudo que o Conselho ainda decidisse, retiraram-se da sala do tribunal e dirigiram-se ao Templo. Depois desse fato, nunca mais tomaram parte nas sessões do conselho.
 
Caifás, porém, mandou tirar Jesus do cárcere e conduzi-lo, fraco, maltratado e amarrado, como estava, diante do Conselho e preparar tudo de modo que depois do julgamento, pudessem levá-lo imediatamente a Pilatos. Os soldados correram tumultuosamente ao cárcere, lançaram-se com insultos sobre Jesus, desamarraram-no da coluna e tiraram-lhe o manto esfarrapado dos ombros, obrigaram-no, entre golpes, a vestir sua comprida túnica, ainda coberta de toda a imundície e amarrando-o de novo com as cordas pela cintura, conduziram-no para fora do cárcere. Isso foi feito, como tudo, com grande pressa e horrível brutalidade.
 
 Conduziram-no como um pobre animal de sacrifício, entre insultos e golpes, através das fileiras dos soldados, que já estavam reunidos diante da casa, a sala do tribunal. Quando ele, horrivelmente desfigurado pelos maus tratos, pela extenuação e imundície, vestido apenas da túnica toda suja, apareceu diante do Conselho, o nojo aumentou ainda o ódio desses homens. Nesses corações duros de judeus não, havia lugar para a compaixão.
 
Caifás, porém, cheio de escárnio e raiva de Jesus, que estava em pé diante dele, tão desfigurado, disse-lhe: “Se és o Cristo do Senhor, o Messias, dize-no-lo.” Jesus levantou o rosto e disse, com santa paciência e solene gravidade: “Se vo-lo disser, não acreditareis e se vos perguntar, não me respondereis, nem me dareis a liberdade; de hoje em diante o Filho do homem sentará a direita do poder de Deus.” Entreolharam-se então e com um riso de desprezo, disseram a Jesus: “És então o Filho de Deus:” Jesus respondeu, com a voz da verdade eterna: “Sim, é como dissestes, eu o sou”. A essa palavra de Nosso Senhor gritaram todos: “Que provas precisamos ainda? Ouvimo-lo nós mesmos da sua própria boca.”
Levantaram-se todos, cobrindo Jesus de escárnio e insultos, chamando-o de vagabundo, miserável, de obscuro nascimento, que queria ser o Messias e sentar-se a direita de Deus, deram ordem aos soldados de amarrá-lo de novo, pôr-lhe uma cadeia de ferro em redor do pescoço, como aos condenados a morte, para levá-lo assim ao tribunal de Pilatos. Já antes tinham enviado um mensageiro ao Procurador, avisando-lhe que preparasse tudo para julgar um criminoso, porque deviam apressar-se, por causa da festa.
 
Ainda murmuravam contra o governador romano, por serem obrigados a levar Jesus ao tribunal do mesmo; porque, quando se tratava de coisas estranhas as leis da religião e do Templo, não podiam aplicar a pena de morte; querendo, pois, condenar Jesus com mais aparência de justiça, acusaram-no de crime contra o imperador, mas diante disso competia o julgamento ao governador romano.
 
Os soldados já estavam alinhados no adro e até fora da casa e muitos inimigos de Jesus já se tinham reunido diante da casa, com o populacho. Os sumos sacerdotes e parte do conselho abriam o séqüito, seguia-se depois o nosso pobre Salvador, entre os soldados e cercado da soldadesca e por fim toda a corja da população. Assim desceram do monte Sião a cidade baixa, onde ficava o palácio de Pilatos. Uma parte dos sacerdotes que assistiram ao Conselho, dirigiram-se ao Templo, onde nesse dia tinham muito serviço a fazer.
 
Desespero de Judas.
 
Judas, o traidor, que não se tinha afastado muito, ouviu então o barulho do séqüito, como também as palavras de algumas pessoas, que seguiam de mais, longe; entre outras coisas disseram: “Agora vão levá-lo a Pilatos; o Conselho supremo condenou-o a morte; vai ser crucificado; também não pode mais viver, nesse horrível estado em que O deixaram os maus tratos. Tem uma paciência incrível, não diz nada, apenas que é o Messias e se sentará a direita de Deus; outra coisa não disse e por isso vai morrer na cruz; se não o tivesse dito, não O podiam condenar a morte, mas assim deve morrer. O patife que O vendeu, foi seu discípulo e pouco antes ainda comeu com ele o cordeiro pascal; eu não queria ter parte nesta ação; seja como for, o Galileu pelo menos nunca entregou um amigo a morte por dinheiro.
“Deveras, esse patife de traidor merece também ser enforcado.” Então o arrependimento tardio, a angústia e o desespero começaram a lutar na alma de Judas. O demônio impeliu-o a correr. O molho das trinta moedas de prata, no cinto, sob o manto, era-lhe como uma espora do inferno; segurou-a com a mão, para que não fizesse tanto barulho, batendo-lhe na perna ao correr. Correu a toda a pressa, não atrás do cortejo, para lançar-se aos pés de Jesus, pedindo perdão ao Salvador misericordioso, não para morrer com Ele, nem para confessar a culpa diante de Deus; mas para se limpar diante dos homens da culpa e desfazer-se do prêmio da traição; correu como um insensato ao Templo, aonde diversos membros do supremo conselho como chefes dos sacerdotes em exercício e alguns dos anciãos se tinham dirigido, depois do julgamento de Jesus.
 
Olharam-se mutuamente, admirados e com um sorriso desprezível, dirigiram olhares altivos a Judas que, impelido pelo arrependimento do desespero e fora de si, correu para eles; arrancou o feixe das moedas de prata do cinto e, estendendo-lhes a mão direita com o dinheiro, disse, em tom de violenta angústia: “Tomai aqui o vosso dinheiro, com o qual me seduzistes a entregar-vos o Justo; retomai o vosso dinheiro e soltai Jesus; eu rompo o nosso pacto. Pequei gravemente, traindo sangue inocente.”
 
Mas os sacerdotes mostraram-lhe então todo o seu desprezo; retiraram as mãos do dinheiro que lhes oferecia, como se não quisessem manchar-se com o prêmio da traição, dizendo: “Que nos importa que pecasses? Se julgas ter vendido sangue inocente, é lá contigo; sabemos que o compramos de ti e julgamo-lo réu de morte; é teu dinheiro, não temos nada com isso, etc.”. Disseram-lhe essas palavras no tom que usam os homens que estão muito ocupados e querem livrar-se de um importuno e viraram as costas a Judas. Esse, vendo-se assim tratado, foi tomado de tal raiva e desespero, que ficou como louco; eriçaram-se-lhe os cabelos e rompendo com as duas mãos o molho das moedas de prata, espalhou-as com veemência no templo e fugiu para fora da cidade.
 
Vi-o de novo, correndo como louco, no vale de Hinom e o demônio em figura horrível ao seu lado, segredando-lhe ao ouvido, para levá-lo ao desespero, todas as maldições dos profetas sobre esse vale, onde antigamente os judeus sacrificavam os próprios filhos aos deuses. Parecia lhe que todas essas palavras o indicavam com o dedo, dizendo, por exemplo: “Eles sairão para ver os cadáveres daqueles que contra mim pecaram, cujo verme não morre, cujo fogo não se apaga”. Depois lhe soou aos ouvidos: “Caim, onde está Abel, teu Irmão? Que fizeste? O sangue de teu irmão clama a mim; agora, pois, serás maldito sobre a terra, vagabundo e fugitivo”.
 
Quando chegou a torrente doe Cedron e olhou na direção do monte das Oliveiras, estremeceu e virou os olhos. Então ouviu de novo as palavras: “Amigo para que vieste? Judas, é com um beijo que entregas o Filho do homem:” Então um imenso horror lhe penetrou no fundo da alma, confundiram-se-lhe os sentidos e o inimigo segredou-lhe ao ouvido: “Aqui sobre o Cedron, fugiu também Davi diante de Absalão; Absalão morreu pendurado numa árvore; Davi referia-se também a ti no salmo: “Retribuíram o bem com o mal, ele terá um juiz severo; Satanás estará a sua direita, todo o tribunal o condenará; os seus dias serão poucos; outro lhe receberá o episcopado; o Senhor recordar-se-á sempre da maldade dos seus pais e dos pecados de sua mãe, porque sem misericórdia perseguiu os pobres e matou os aflitos; ele amava a maldição e esta virá sobre ele; revestia-se da maldição como de uma veste, como água lhe entrou ela nos intestinos, como óleo nos ossos; como uma veste o cobre a maldição, como um cinto que o cinge eternamente”. 
 
Entre esses terríveis remorsos da consciência, chegara Judas a um lugar deserto, pantanoso, cheio de lixo e imundície, a sudeste de Jerusalém, ao pé do monte dos Escândalos, onde ninguém o podia ver. Da cidade se ouvia ainda mais forte o tumulto e o demônio disse-lhe: “Agora O conduzem a morte; vendeste-o; sabes o que está escrito na lei? “Quem vender uma lama entre seus irmãos, os filhos de Israel, morrerá. Acaba com isto, miserável, acaba com isto!” Então tomou Judas desesperado o cinto e enforcou-se numa árvore que crescia em vários troncos, numa cavidade daquele lugar. Quando se enforcou, rebentou-se-lhe o ventre e os intestinos caíram-lhe sobre a terra.
Extraído do Livro "Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus - Anna Catharina Emmerich - Ed. MIR
 
 
 

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