"Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor?" (Lucas, 43)
 
       
 
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05/04/2012
JESUS É AÇOITADO, COROADO DE ESPINHOS E CONDENADO À MORTE segundo as visões de Anna Catharina Emmerich (1774 - 1824)
 
JESUS É AÇOITADO, COROADO DE ESPINHOS E CONDENADO À MORTE
 
Extraído do Livro "Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus - Anna Catharina Emmerich - Ed. MIR
 
Jesus reconduzido a Pilatos
 
 Cada vez mais enfurecidos, tornaram os príncipes dos sacerdotes e os inimigos de Jesus a trazê-Lo de novo de Herodes a Pilatos. Estavam envergonhados de não lhe ter conseguido a condenação e ter de voltar novamente para aquele que já O tinha declarado inocente. Por isso tomaram na volta outro caminho, cerca de duas vezes mais longo, para mostrá-Lo naquela humilhação em outra parte da cidade, para poder maltratá-Lo tanto mais pelo caminho e dar tempo aos agentes de concitarem o povo a agir conforme as maquinações tramadas.
 
O caminho pela qual conduziram Jesus era mais áspero e desigual; acompanharam-nO, estimulando os soldados sem cessar a maltratá-Lo. A veste derrisória, o longo saco, impedia o Senhor de andar; arrastava-se na lama, várias vezes caiu, embaraçando-se nele e era levantado cada vez com arrancos nas cordas, pauladas na cabeça e pontapés. Sofreu nesse caminho indizíveis insultos e crueldades, tanto daqueles que o conduziam, como também do povo; mas Ele rezava, pedindo a Deus que não O deixasse morrer, para poder terminar a sua Paixão e nossa Redenção.
 
Eram oito horas e um quarto da manhã, quando o sinistro cortejo chegou, vindo do outro lado, (provavelmente de leste) ao palácio de Pilatos, atravessando o fórum. A multidão do povo era enorme; estavam reunidos em grupos, conforme as regiões e cidades de procedência e os fariseus corriam entre o povo, excitando-o. Pilatos, lembrando-se ainda da revolta dos galileus descontentes, na Páscoa do ano anterior, tinha concentrado cerca de mil homens, que ocuparam o pretório ou posto de guarda, as entradas do fórum e do palácio.
 
A SS. Virgem, sua irmã mais velha, Maria Helí, a filha desta, Maria Cleofé, Madalena e algumas outras mulheres piedosas, cerca de vinte, assistiram aos acontecimentos que se seguiram; ficaram sob as arcadas, de onde podiam ouvir tudo e aproximavam-se furtivamente de vez em quando. João estava a princípio também presente.
 
Jesus, coberto com a veste derrisória, foi conduzido através da multidão, entre os escárnios do populacho; pois a escória e os mais perversos de entre o povo foram colocados na frente dos fariseus, que lhes davam o exemplo, ultrajando Jesus. Um palaciano de Herodes já tinha chegado antes, com a mensagem para Pilatos, de que Herodes lhe ficava muito grato pela atenção, que, porém, no afamado sábio galileu encontrara apenas um bobo mudo; que O tinha tratado como tal e mandara reconduzí-Lo novamente a Pilatos. Este ficou satisfeito de saber que Herodes estava de acordo e não condenara Jesus; mandou levar-lhe de novo cumprimentos e assim se tornaram amigos, de inimigos que eram, desde o desabamento do aqueduto.
 
Jesus foi novamente conduzido pela rua ao palácio de Pilatos; empurraram-nO, para subir a escada que conduzia ao terraço; mas pelos brutais arrancos dos soldados, pisou na longa veste e caiu com tal violência sobre os degraus de mármore, que os salpicou de sangue sagrado. Os inimigos do Mestre, que tinham de novo ocupado os assentos, ao lado do fórum e o populacho romperam na gargalhada por essa queda de Jesus e os soldados empurraram-nO a pontapés pelos últimos degraus.
 
Pilatos estava recostado no seu assento, que se parecia com um pequeno leito de repouso; a pequena mesa estava ao lado; como dantes, estavam também agora com ele alguns oficiais e outros homens, com rolos de pergaminho. Ele se dirigiu ao terraço, do qual falava ao povo e disse aos acusadores de Jesus: “Vós me entregastes este homem como agitador do povo à revolta; interroguei-O diante de vós e não O achei réu do crime de que O acusais. Também Herodes não lhe achou crime algum; pois vos mandei Herodes e vejo que não foi condenado à morte. Portanto mandá-Lo-ei açoitar e depois soltar”.
 
Levantou-se, porém, entre os fariseus violenta murmuração e clamor e a agitação e distribuição de dinheiro entre o povo tomou mais intensidade. Pilatos tratou-os com muito desprezo e expressões satíricas; entre outras, disse essa: “Não vereis por acaso correr bastante sangue inocente ainda hoje, na hora dos sacrifícios?”
 
Jesus é posposto a Barrabás.
 
Ora, era nesse tempo que o povo vinha, antes da festa da Páscoa, pedir, segundo um antigo costume, a liberdade de um preso. Os fariseus tinham enviado, justamente por isso, alguns agentes ao bairro de Acra, a oeste de Templo, para dar dinheiro ao povo, instigando-o a que não pedisse a libertação, mas a crucificação de Jesus. Pilatos, porém, esperava que o povo pedisse a liberdade de Jesus e resolveu dar-lhes a escolher entre Jesus e um terrível facínora, que já fora condenado à morte, para que quase não tivessem que escolher. Esse celerado chamava-se Barrabás e era amaldiçoado por todo o povo; tinha cometido assassinatos durante uma agitação; vi que também tinha feito muitos outros crimes.
 
Houve um movimento entre o povo no fórum; um grupo avançou, com os oradores à frente; esses levantaram a voz e bradaram a Pilatos, que estava no terraço: “Pilatos, fazei-nos o que sempre fizestes, por ocasião da festa! “Pilatos, que só então estava esperando por isso, respondeu-lhes: “Tendes o costume de receber de festas a liberdade de um preso. A quem quereis que solte, Barrabás ou Jesus, o rei dos judeus, que dizem ser o Ungido do Senhor?”
 
Pilatos, todo indeciso, chamava-O “rei dos judeus”, já como romano orgulhoso, que os desprezava, por terem um rei tão miserável, que tivessem de escolher entre Ele e um assassino; já com uma certa convicção de que Jesus pudesse ser de fato esse rei maravilhoso dos judeus, o Messias prometido; mas também esse pressentimento da verdade era em parte fingimento e mencionou esse título do Senhor porque bem sentia que a inveja era o motivo principal do ódio dos príncipes dos sacerdotes contra Jesus, a quem considerava inocente.
Após a pergunta de Pilatos, houve uma curta hesitação e deliberação entre o povo e só poucas vozes gritaram precipitadamente: “Barrabás!” Pilatos, porém, foi chamado por um criado da mulher; retirou-se um instante do terraço e o criado mostrou-lhe o penhor que ele dera da manhã à esposa e disse-lhe: “Cláudia Prócula manda lembrar-vos vossa promessa”. Os fariseus, no entanto, e os príncipes dos sacerdotes estavam em grande agitação; aproximaram-se do povo, ameaçando e instigando-o; mas não precisavam de tanto esforço.
 
Maria, Madalena, João e as outras piedosas mulheres estavam no canto de uma arcada, tremendo e chorando. Embora a Virgem Santíssima soubesse que não havia salvação para os homens senão pela morte de Jesus, entretanto, como Mãe, estava cheia de angústia e desejo de salvar a vida do Filho santíssimo; e assim como Jesus, embora escolhesse de livre vontade tornar-se homem e morrer na cruz, todavia sofria, como qualquer homem, todas as dores e os martírios de um inocente horrivelmente maltratado e conduzido à morte, assim também Maria padecia todos os tormentos e angústias de uma mãe vendo o filho maltratado por um povo ingrato. Ela e as companheiras tremiam, entregues, ora à angustia, ora à esperança.
 
João afastava-se de vez em quando, a pouca distância, para ver se podia colher uma boa noticia. Maria implorava a Deus para que não se cometesse esse imenso crime; rezava como Jesus no monte das Oliveiras: “Se é possível, afaste este cálice”. Assim esperava ainda a mãe no seu amor; pois enquanto as instigações e ameaças dos fariseus ao povo passaram de boca em boca, chegara também a ela o boato de que Pilatos queria soltar Jesus. Viam-se, não longe, grupos de gente de Cafarnaum, entre os quais muitos que Jesus curara e ensinara; fizeram como se não O conhecessem e olhavam furtivamente para João e as infelizes mulheres, envoltas nos véus; mas Maria pensava, como todos, que esses, pelo menos, rejeitariam Barrabás, para salvar o Benfeitor e Salvador. Mas tal não se deu.
 
Pilatos, lembrando-se, à vista do penhor, da súplica da esposa, devolveu-lho, como sinal de que cumpria a promessa. Voltou ao terraço e sentou-se ao lado da mezinha; os sumos sacerdotes também tornaram a ocupar os respectivos assentos e Pilatos exclamou de novo: “Qual dos dois quereis que eu solte?” – Então se levantou um grito geral por todo o fórum e de todos os lados: “Não queremos Este; entregai-nos Barrabás!” Pilatos gritou mais uma vez: “Que farei então de Jesus, que é chamado o Cristo, o rei dos judeus?” – “Crucificai-O, Crucificai-O!” Pilatos perguntou então pela terceira vez: “Mas que mal tem feito? Eu pelo menos não Lhe acho crime de morte. Mas vou mandá-Lo açoitar e depois soltar”. Mas o grito “Crucificai-O, Crucificai-O!” rugia pelo fórum, como uma tempestade infernal e os sumos sacerdotes e fariseus agitavam-se e gritavam como loucos de raiva. Então Pilatos lhes entregou Barrabás, o malfeitor e condenou Jesus à flagelação.
 
A flagelação de Jesus
 
Pilatos, juiz covarde e indeciso, pronunciara várias vezes a palavra: “Não lhe acho crime algum; por isso vou mandá-Lo açoitar e depois soltar”. A gritaria dos judeus, porém, continuava; “Crucificai-O, Crucificai-O!” Contudo queria Pilatos tentar ainda fazer sua vontade e deu ordem de açoitar Jesus à maneira dos romanos. Então entraram os soldados e, batendo e empurrando a Jesus brutalmente, com os curtos bastões, conduziram nosso pobre Salvador, já tão maltratado e ultrajado, através da multidão tumultuosa e furiosa, para o fórum, até a coluna de flagelação, que ficava em frente de uma das arcadas do mercado, ao norte do palácio de Pilatos e não longe do posto da guarda.
 
Os carrascos, jogando os açoites, varas e cordas no chão, ao pé da coluna, vieram ao encontro de Jesus. Eram seis homens de cor parda, mais baixos do que Jesus, de cabelo crespo e eriçado, barba muito rala e curta; vestiam apenas um pano ao redor da cintura, sandálias rotas e uma peça de couro ou outra fazenda ordinária, que lhes cobria peito e costas como um escapulário, aberto dos lados; tinham os braços nus. Eram criminosos comuns, das regiões do Egito, que trabalhavam como escravos ou degredados na construção de canais e edifícios públicos; escolhiam-se os mais ignóbeis e perversos, para tais serviços de carrascos no pretório.
 
Amarrados à mesma coluna, alguns pobres condenados tinham sido açoitados até à morte, por esses homens horríveis, cujo aspecto tinha algo de bruto e diabólico e pareciam meio embriagados. Bateram em Nosso Senhor com os punhos e com cordas, apesar de não lhes opor resistência alguma, arrastaram-nO com brutalidade furiosa, até à coluna da flagelação. É uma coluna isolada, que não serve para sustentar o edifício. É de tamanho tal, que um homem alto, com o braço estendido, lhe pode tocar a extremidade superior, arredondada e munida de uma argola de ferro; na parte de traz, no meio da altura, há também argolas ou ganchos. É impossível descrever a brutalidade bárbara com que esses cães danados maltrataram a Jesus, nesse curto caminho; tiraram-Lhe o manto derrisório de Herodes e quase jogaram nosso Salvador por terra.
 
Jesus trepidava e tremia diante da coluna. Ele mesmo se apressou a despir a roupa, com as mãos inchadas e ensangüentadas pelas cordas, enquanto os carrascos O empurravam e puxavam. Orava de um modo comovente e volveu a cabeça por um momento para a Mãe SS. que, dilacerada de dor, estava com as mulheres piedosas num canto das arcadas do mercado, não longe do lugar de flagelação e disse, voltando-se para a coluna, porque O obrigaram a despir-se também do pano que lhe cingia os rins: “Desvia os teus olhos de mim”. Não sei se pronunciou essas palavras ou as disse só interiormente, mas percebi que Maria as entendeu; pois a vi nesse momento desviar o rosto e cair sem sentidos nos braços das santas mulheres veladas, que a rodeavam.
 
Então abraçou Jesus a coluna e os algozes ataram-Lhe as mãos levantadas à argola de cima, dando-Lhe arrancos brutais e praguejando horrivelmente todo o tempo; puxaram-Lhe assim todo o corpo para cima, de modo que os pés, amarrados em baixo à coluna, quase não tocavam no chão. O Santo dos Santos estava cruelmente estendido sobre a coluna dos malfeitores, em ignominiosa nudez e indizível angústia e dois dos homens furiosos começaram, com crueldade sanguinária, a flagelar-Lhe todo o santo corpo, da cabeça aos pés. Os primeiros açoites ou varas que usaram, pareciam ser de maneira branca e dura; talvez fossem também feixes de tendões secos de boi ou tiras duras de couro branco.
 
Nosso Senhor e Salvador, o Filho de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, contraia-se e torcia-se, como um verme, sob os açoites dos criminosos; ouviam-se-Lhe os gemidos e lamentos, doces e claros, como uma prece afetuosa no meio de dores dilacerantes, entre os sibilar e estalar dos açoites dos carrascos. De vez em quando ressoava a gritaria do povo e dos fariseus, como uma nuvem escura de tempestade, abafando essas queixas dolorosas e santas, cheias de bênçãos. As turbas gritavam: “Deve morrer! Crucificai-O!”, pois Pilatos estava ainda a discutir com o povo.
 
Quando queria fazer-se ouvir, no meio do tumulto da multidão, fazia soar primeiro um toque de trombeta, para impor silêncio. Nesses momentos se ouviam novamente os açoites, os gemidos de Jesus, o praguejar dos carrascos e os balidos dos cordeiros pascais, que eram lavados na piscina das Ovelhas, ao lado da porta das Ovelhas, a leste do fórum. Depois de lavados, eram levados, com a boca amarrada, até o caminho do Templo, para não se sujarem mais, depois eram conduzidos para o lado de fora, a oeste, onde ainda eram submetidos a uma ablução cerimonial. Esses balidos desamparados dos cordeiros tinham algo de indescritivelmente comovente; eram as únicas vozes que se uniam aos gemidos do Salvador.
 
A multidão dos judeus mantinha-se afastada do lugar da flagelação, numa distância, talvez, da largura de uma rua. Soldados romanos estavam postos em diferentes lugares, especialmente pelo lado do posto de guarda; perto da coluna de flagelação havia grupos de populacho, que iam e vinham silenciosos ou zombando; vi alguns que se sentiram comovidos; era como se os tocasse um raio de luz saindo de Jesus.
 
Vi também meninos indignos que, ao lado do pretório, preparavam novas varas e outros que iam buscar ramos de espinheiro. Alguns soldados dos Príncipes dos sacerdotes tinham travado relações com os carrascos e deram-lhes dinheiro; trouxeram-lhes também um grande cântaro, cheio de uma bebida vermelha, grossa, da qual beberam até ficar embriagados e enraivecidos. Ao cabo de um quarto da hora deixaram os dois carrascos de açoitar Jesus; formam juntar-se a dois outros e beberam com eles. O corpo de Jesus estava todo coberto de contusões vermelhas, pardas e roxas e o sangue sagrado corria-Lhe por terra; agitava-se em movimentos convulsivos. De todos os lados se ouviam insultos e motejos.
 
Durante a noite tinha feito muito frio. Desde a madrugada até essa hora, não clareara o céu e, com grande espanto do povo, caíram algumas curtas chuvas de pedra. Pelo meio dia clareou e apareceu o sol.
 
O segundo par de carrascos caiu então com novo furor sobre Jesus; tinham outra espécie de açoites; eram como varas de espinheiro, com nós e esporões. Os violentos golpes rasgaram todas as pisaduras do santo corpo de Jesus; o sangue regou o chão, em redor da coluna e salpicou os braços dos carrascos. Jesus gemia, rezava, torcia-se de dor.
 
Passaram então pelo fórum muitos estrangeiros, montados em camelos; olharam assustados e entristecidos, quando o povo lhes disse o que se estava passando. Eram viajantes, dos quais uns tinham recebido o batismo e outros o sermão da montanha. O tumulto e os gritos continuavam no entanto, diante da casa de Pilatos.
 
Os dois seguintes carrascos bateram em Jesus com flagelos: eram curtas correntes ou correias, fixas num cabo, cuja extremidades estavam munidas de ganchos de ferro, que arrancavam, a cada golpe, pedaços de pele e carne das costas. Oh! Quem pode descrever o aspecto horrível e doloroso deste suplicio?
 
Mas a crueldade dos carrascos ainda não estava satisfeita; desligaram Jesus e amarraram-nO de novo, mas com as costas viradas para a coluna. Como, porém, estivesse tão enfraquecido, que não podia manter-se em pé, passaram-Lhe cordas finas sobre o peito e sob os braços e debaixo dos joelho, amarrando-O assim toda à coluna; também Lhe ataram as mãos atrás da coluna, a meia altura. Todo o corpo sagrado contraia-se-Lhe dolorosamente, as chagas e o sangue cobriam-Lhe a nudez. Como cães raivosos, caíram-Lhe os carrascos em cima, com os açoites; um tinha uma vara mais delgada na mão esquerda, com que Lhe batia no rosto. O corpo de Nosso Senhor formava uma só chaga, não havia mais lugar são. Ele olhava para os carrascos, com os olhos cheios de sangue, que suplicavam misericórdia, mas redobravam os golpes furiosos e Jesus gemia, cada vez mais fracamente: “Ai”
 
A horrível flagelação durara cerca de três quartos de hora, quando um estrangeiro, homem do povo, parente do cego Ctesifon, curado por Jesus, se aproximou precipitadamente da coluna, pelo lado de traz e, com uma faca em forma de foice na mão, gritou indignado: “Parai! Não flageleis este homem inocente até morrer!” Os carrascos, meio embriagados, pararam espantados e o homem cortou rapidamente, como de um único golpe, as cordas de Jesus, que todos estavam seguras num prego de ferro, atrás da coluna; depois o estrangeiro fugiu e perdeu-se na multidão. Jesus, porém, caiu desfalecido, ao pé da coluna, sobre a terra empapada de sangue. Os carrascos deixaram-nO lá e foram beber, depois de chamar os auxiliares do carrasco, que estavam no posto de guarda, ocupados em trançar a coroa de espinhos.
 
Jesus torcia-se ainda de dor, ao pé da coluna, as chagas a sangrar; nesse momento vi passar perto algumas raparigas libertinas, com as vestes imprudentemente arregaçadas; estavam de mãos dadas e pararam diante de Jesus, olhando-O com repugnância melindrosa; com isso sentiu Jesus ainda mais as feridas e levantou para elas o rosto ensangüentado, com um olhar suplicante; então se afastaram, continuando o caminho e os carrascos e soldados dirigiram-lhes, entre gargalhadas, palavras indecentes.
 
Vi varias vezes, durante a flagelação, aparecerem Anjos tristes em redor de Jesus; ouvi a oração que o Senhor dirigia ao Pai eterno, no meio dos tormentos e insultos, oferecendo-se para expiação dos pecados dos homens. Mas nesse momento, quando jazia, banhado em sangue, ao pé da coluna, vi um anjo, que lhe restituía as forças; parecia dar-Lhe um alimento luminoso.
 
Então se aproximaram novamente os carrascos e dando-Lhe pontapés, mandaram-nO levantar-se, dizendo que ainda não tinham acabado com o rei; querendo ainda bater-Lhe, arrastou-se Jesus pelo chão, para alcançar a faixa de pano e cobrir a nudez; mas os perversos celerados empurravam-na com os pés para lá e para cá, rindo-se de ver Jesus em sangrenta nudez arrastar-se penosamente, como um verme esmagado, para alcançar o pano e cobrir o corpo dilacerado.
 
Depois O impeliram, a pontapés e pauladas, a levantar-se sobre as pernas vacilantes; não Lhe deram tempo de vestir a túnica, mas lançaram-lha sobre os ombros e Jesus enxugou nela o sangue do rosto, enquanto O conduziram apressadamente ao corpo da guarda, dando uma volta. Podiam tê-Lo levado por um caminho mais curto, porque as arcadas e edifícios em redor do fórum eram abertos, de modo que se podia enxergar o corredor sob o qual jaziam presos os dois ladrões e Barrabás; mas passaram com Jesus diante dos sumos sacerdotes, que gritavam: “Levai-O à morte! Levai-o à morte!” e viraram a cabeça com nojo. Conduziram-nO para o pátio interior do corpo da guarda. Quando Jesus entrou, não havia lá soldados, mas escravos, soldados e marotos, a escória do povo.
 
Vendo que o povo estava tão agitado, Pilatos mandara vir reforço da cidadela Antônia. Essas forças cercavam em boa ordem o corpo da guarda; podiam falar, rir e insultar a Jesus, mas não sair das fileiras. Pilatos queria com eles manter o povo em respeito. Podia bem haver lá mil homens.
 
Maria Santíssima durante a flagelação.
 
Vi a SS. Virgem, durante a flagelação do Redentor, em continuo êxtase; via e sofria na alma e com indizível amor e tormento, tudo quanto sofria o Divino Filho. Muitas vezes lhe saíram fracos gemidos da boca; os olhos estavam inflamados de tanto chorar. Jazia velada nos braços da irmã mais velha, Maria Helí, que já era muito idosa e se parecia muito com a mãe, Sant’ Ana. Maria, filha de Cléofas e de Maria Helí, estava também presente e segurava sempre o braço se sua mãe. As santas amigas de Maria e Jesus, todas veladas e envolvidas em mantos, rodeavam a SS. Virgem, tremendo de medo e dor, como se esperassem sua própria sentença de morte. Maria vestia uma longa veste azul e sobre essa, um comprido manto branco de lã e um véu branco-amarelo. Madalena estava desnorteada e desolada de dor e lamentação; tinha o cabelo em desalinho, sob o véu.
 
Quando Jesus, depois da flagelação, caíra ao pé da coluna, mandara Cláudia Prócula, a mulher de Pilatos, um fardo de grandes panos à Mãe de Deus. Não sei mais se julgava que Jesus ficaria livre e a Mãe do Senhor lhe devia tratar as feridas com esses panos ou se a pagã compadecida mandou os panos para o fim o qual SS. Virgem os empregou.
 
Maria, voltando a si, viu passar o Divino Filho dilacerado, conduzido pelos soldados; Ele enxugou o sangue dos olhos com a túnica, para fitar a SS. Virgem, que Lhe estendeu as mãos, num transporte de dor e Lhe seguiu com a vista as pegadas sangrentas. Logo depois vi a SS. Virgem e Madalena, quando o povo se dirigia mais para o outro lado, aproximarem-se do lugar da flagelação. Cercadas e ocultas pelas outras santas mulheres e outra gente boa, que se aproximara, prostraram-se por terra, ao pé da coluna da flagelação e apanharam com os panos todo o sangue de Jesus, por toda a parte onde encontraram algum vestígio.
 
Não vi nessa hora João, junto das santas mulheres, que eram cerca de vinte. O filho de Simeão, o de Obed e o de Verônica, como também Aram e Temeni, os sobrinhos de José de Arimatéia, estavam todos ocupados no Templo, cheios de tristeza e angústia.
 
Foi pelas nove horas da manhã que acabou a flagelação.
 
Vi hoje as faces da SS. Virgem pálidas e mortiças, o nariz delgado e comprido, os olhos quase cor de sangue, de tantas lágrimas que derramou; não é possível descrever a impressão que faz a figura de Maria, na sua simplicidade e graça natural. Já desde ontem e durante toda a noite, tem ela vagueado, cheia de angústia e amor, pelo vale de Josafá e pelas ruas de Jerusalém e através do povo e contudo não se lhe vê nenhuma desordem nas vestes; cada prega do vestido da SS. Virgem respira santidade; tudo nela é simples e digno, puro e inocente.
 
Os movimentos, ao olhar em redor de si, são nobres e as pregas do véu, quando vira um pouco a cabeça, são de uma singular beleza e simplicidade. Nos movimentos não se lhe nota agitação e mesmo na mais dilacerante dor, todo o porte se lhe conserva simples e calmo. Tem o manto umedecido pelo orvalho da noite e por inúmeras lágrimas, mas em tudo mais está limpo e bem arrumado. É inefavelmente bela e de uma beleza toda sobrenatural; pois toda sua beleza é também pureza, simplicidade, dignidade e santidade.
 
Madalena, porém, tem um aspecto inteiramente diferente. É mais alta e mais gorda e chama mais a atenção pelas formas e os movimentos; mas toda a beleza lhe foi devastada pelas paixões, pelo arrependimento e excessiva dor; quase sem limite de sua dor. Tem as vestes molhadas e sujas de lama, em desarranjo e rasgadas; o longo cabelo cai-lhe solto e em desalinho, sob o véu molhado e amarrotado. Está toda desfigurada e agitada; não pensa senão em sua dor, e parece quase uma alienada. Há muita gente aqui de Magdala e arredores, que a viu dantes, na vida tão suntuosa e depois tão pecaminosa e em seguida tanto tempo retirada do mundo e agora a apontam com o dedo e a insultam, ao ver-lhe a estranha figura; há também gente baixa de Magdala que, ao passar por ela, lhe atira lama, mas Madalena não o nota, tão absorta está na sua dor.
 
Jesus é coroado de espinhos e escarnecido pelos soldados.
 
 Durante a flagelação falou Pilatos ainda várias vezes ao povo, que uma vez até gritou: “Ele deve morrer, ainda que todos nós também pereçamos”. Quando Jesus foi conduzindo ao corpo da guarda, para ser coroado de espinhos, ainda gritaram: “Morra! Morra!” pois chegavam cada vez novas turbas de judeus, que pelos emissários dos sumos sacerdotes eram incitados a gritar assim.
 
Houve depois uma curta pausa. Pilatos deu ordens aos soldados. Os sumos sacerdotes e os conselheiros, que estavam sentados em bancos, de ambos os lados da rua, à sombra das árvores ou sob lonas estendidas, diante do terraço de Pilatos, mandarem os criados trazer alimentos e bebida. Vi também Pilatos de novo perturbado pela superstição; retirou-se sozinho, para oferecer incenso aos deuses e por certos sinais descobrir-lhes a vontade.
 
Vi que depois da flagelação a SS. Virgem e as amigas, tendo enxugado o sangue de Jesus, se afastaram do fórum. Vi-as com os panos ensangüentados, numa pequena casa encostada a um muro; não era longe do fórum; não me lembro mais de quem era. Não me recordo de ter visto João durante a flagelação.
 
Jesus foi coroado de espinhos e escarnecido no pátio interior do corpo da guarda, construído sobre os cárceres, ao lado do fórum. Esse pátio era cercado de colunas e todas as entradas tinham sido abertas. Havia ali cerca de cinqüenta miseráveis patifes, sequazes dos soldados, servos dos carcereiros, soldados e auxiliares dos carrascos, escravos e os criminosos que flagelaram Nosso Senhor; esses todos tomaram parte ativa nas crueldades praticadas em Jesus. No começo o povo tentou entrar, mas pouco depois cercaram mil soldados romanos o edifício. Permaneciam nas fileiras, mas com as zombarias e risos provocavam ainda o cruel exibicionismo dos carrascos para redobrarem as torturas de Jesus, animando-os com as risadas, como o aplauso anima os atores no palco.
 
Rolaram para o meio do pátio o pedestal de uma velha coluna, no qual havia um buraco, que talvez tivesse servido para nele ajustar a coluna. Nesse pedestal colocaram um escabelo redondo e baixo, que por detrás tinha uma espécie de cabo, para o manejar; por maldade cobriram o escabelo de pedregulho agudo e cacos de louça.
 
Arrancaram de novo toda a roupa do corpo ferido de Jesus e impuseram-Lhe um manto de soldado, curto, vermelho, velho e já roto, que nem lhe chegava até os joelhos. Pendiam dele ainda alguns restos de borlas amarelas; jazia num canto do quarto dos verdugos, que costumavam impô-lo aos que tinham açoitado, seja para enxugar-lhes o sangue, seja para escarnecê-los. Arrastaram a Jesus para a coluna e empurraram-nO brutalmente, com o corpo despido e ferido, sobre o escabelo coberto de pedras e cacos.
 
Depois lhe puseram a coroa de espinhos na cabeça. Essa tinha dois palmos de altura, era muito espessa e trançada com arte; em cima tinha uma borda um pouco saliente. Puseram-Lha em redor da fronte, como uma ligadura e ataram-na atrás com muita força, de modo que formavam uma coroa ou um chapéu. Era artisticamente trançada de três varas de espinheiro, da grossura de um dedo, que tinham crescido alto, através dos espessos arbustos. Os espinhos, pela maior parte, foram propositalmente virados para dentro. Pertenciam a três diferentes espécies de espinheiros, que tinham alguma semelhança com a nossa cambroeira, o abrunheiro e espinheiro branco. Em cima tinham acrescentado uma borda, trançada de um espinheiro semelhante à nossa sarça silvestre e pela qual pegavam e puxavam brutalmente a coroa. Vi o lugar onde os meninos foram buscar esses espinhos.
 
Puseram-Lhe também na mão um grosso caniço, com um tufo na ponta. Fizeram tudo isso com solenidade derrisória, como se O coroassem de fato rei. Tiravam-lhe o caniço da mão e batiam com tanta força a coroa, que os olhos de Nosso Senhor se enchiam de sangue. Curvavam os joelhos diante dEle, mostravam-Lhe a língua, batiam e cuspiam-Lhe no rosto, gritando: “Salve, rei dos judeus!” Depois, entre gargalhadas, fizeram-nO cair no chão, junto com o escabelo e tornaram a colocá-Lo sobre ele aos empurrões.
 
Não posso relatar todas as torturas e ultrajes que os carrascos inventaram, para escarnecer o pobre Salvador. Ai! Jesus sofreu horrível sede; pois em conseqüência das feridas, causadas pela desumana flagelação, estava com febre e tremia; a pele e os músculos dos lados estavam dilacerados o deixavam entrever as costelas em vários lugares; a língua contraíra-se-Lhe espasmodicamente; somente o sangue sagrado que lhe corria da fronte, compadecia-se da boca ardente, que se abria ansiosa. Mas aqueles homens horríveis tomaram-Lhe a boca divina por alvo dos nojentos escarros. Jesus foi assim maltratado por cerca de meia hora e a tropa, cujas fileiras cercavam o pretório, aplaudia com gritos e gargalhadas.
 
Ecce Homo
 
Reconduziram então Jesus ao palácio de Pilatos, a coroa de espinhos sobre a cabeça, o caniço nas mãos amarradas, coberto do manto vermelho. Jesus estava desfigurado, pelos sangue que Lhe enchia os olhos e Lhe escorria na boca e sobre a barba. O corpo, coberto de pisaduras e feridas, parecia-se-Lhe com um pano ensopado de sangue. Andava curvado e cambaleando; o manto era tão curto, que Jesus precisava curvar-se, para cobrir a nudez, porque Lhe tinham arrancado toda a roupa, no ato da coroação de espinhos.
 
Quando o pobre Jesus chegou ao primeiro degrau da escada, diante de Pilatos, até esse homem cruel estremeceu de horror e compaixão. Apoiou-se a um dos oficiais e como o povo e os sacerdotes ainda gritassem e insultassem, exclamou: “Se o demônio dos judeus é tão cruel, então não deve ser bom morar com ele no inferno”. Quando Jesus foi puxado penosamente, escada acima e conduzido ao fundo, Pilatos saiu para a sacada; foi dado um toque de trombeta, para chamar a atenção do povo, a que Pilatos queria falar. Disse, pois, aos príncipes dos sacerdotes e a todos os presentes: “Escutai, vou mandá-Lo conduzir mais uma vez para diante de vós, para que conheçais que não Lhe achei culpa alguma”.
 
Jesus foi então conduzido pelos soldados à sacada, ao lado de Pilatos, de modo que todo o povo reunido no fórum podia vê-Lo. Era um aspecto terrível, pungente, que primeiro causou no povo horror e penoso silêncio. O Filho de Deus ensangüentado dirigiu os olhos cheios de sangue, sob a coroa de espinhos, para o povo e Pilatos, que, ao lado, indicando-O com a mão, gritou aos judeus: “Eis aqui o Homem!”
 
Enquanto Jesus, com o corpo dilacerado, coberto do manto vermelho derrisório, abaixando a cabeça traspassada de espinhos e inundada de sangue, segurando nas mãos atadas o cetro de caniço, curvado para cobrir a nudez com as mãos, aniquilado pela dor e tristeza, mas ainda respirando infinito amor e mansidão, estava diante do palácio de Pilatos, como um aspecto sangrento, exposto aos gritos furiosos dos sacerdotes e do povo, passaram pelo fórum grupos de forasteiros, homens e mulheres, com as vestes arregaçadas, em direção à piscina das Ovelhas, para ajudar a lavar os cordeiros da Páscoa, cujos balidos tristes se misturavam com os clamores sanguinários da multidão, como para dar testemunho em favor da Verdade, que se calava. Somente o verdadeiro cordeiro pascal de Deus, o revelado, mas não conhecido mistério desse santo dia, cumpriu a profecia e curvou-se em silêncio sobre o matadouro.
 
Os sumos sacerdotes e os membros do tribunal ficaram cheios de raiva pelo aspecto de Jesus, espelho horrível de sua consciência e gritaram: “Morra! Crucificai-O!” Pilatos, porém, exclamou: “Ainda não vos basta? Ele foi tão maltratado, que não terá mais desejo de ser rei”. Eles, porém, se tornaram ainda mais furiosos, gritando como dementes e todo o povo repetia: “Deve morrer. Crucificai-O!” Então mandou Pilatos dar outro toque de trombeta e disse: “Pois tomai-O e crucificai-O vós, porque não Lhe acho culpa”. Responderam-lhe alguns dos príncipes dos sacerdotes: “Temos uma lei e segundo essa lei Ele deve morrer, porque declarou ser o Filho de Deus!” Pilatos replicou: “Pois se tendes tais leis, segundo as quais este homem deve morrer, eu não queria ser judeu”.
 
Mas o dito dos judeus: “Ele se declarou Filho de Deus” inquietou Pilatos e suscitou-lhe de novo o pavor supersticioso; mandou, pois, conduzir Jesus a um lugar separado, onde Lhe perguntou: “Donde és?” Jesus, porém, não lhe respondeu. Disse-lhe então Pilatos: “Não me respondes? Por ventura não sabes que tenho o poder de crucificar-Te ou de soltar-Te?” E Jesus respondeu: “Não terias poder sobre mim, se não te fosse dado do Céu; por isso comete pecado mais grave aquele que me entregou em tuas mãos”.
 
Cláudia Prócula, que estava muito angustiada pela hesitação do marido, mandou novamente um mensageiro a Pilatos mostrar-lhe o penhor e lembrar-lhe a promessa; ele, porém, lhe mandou uma resposta muito confusa e supersticiosa, da qual me lembro apenas que se referia aos deuses.
 
Quando os príncipes dos sacerdotes e os fariseus tiveram conhecimento da intervenção da mulher de Pilatos em favor de Jesus, mandaram espalhar entre o povo: “Os partidários de Jesus subornaram a mulher de Pilatos; se Ele ficar livre, unir-se-à aos romanos e nós todos pereceremos”.
 
Pilatos, na indecisão, estava como embriagado; a razão vacilava-lhe de um lado para outro. Disse uma vez aos inimigos de Jesus que não Lhe achava culpa. Mas vendo que esses, com mais vigor ainda, exigiram a morte de Jesus e inquieto pelos seus próprios pensamentos confusos, como pelos sonhos da mulher e as palavras significativas de Jesus, queria ouvir mais uma resposta do Senhor, que o pudesse tirar dessa situação penosa.
 
Voltou portanto à sala do tribunal, onde estava Jesus e ficou a sós com Ele. Com um olhar perscrutador e quase medroso, fitou o Salvador desfigurado e ensangüentado, para quem não podia olhar sem horror e pensou comigo: “Será possível que seja um Deus?” e de repente se Lhe dirigiu com energia, conjurando-O a dizer-lhe se era um deus e não um homem, se era rei, até onde se Lhe estendia o reino, de que espécie era a sua divindade. Se lho dissesse, dar-Lhe-ia a liberdade.
 
– O que Jesus respondeu, posso dizê-lo só pelo sentido, não com as mesmas palavras. O Senhor falou-lhe com terrível severidade. Fez-lhe ver em que sentido era rei e qual o seu reino; mostrou-lhe o que era a verdade, pois disse-lhe a verdade. Nosso Senhor revelou-lhe, com toda a franqueza, os abomináveis crimes que Pilatos ocultava na consciência; predisse-lhe o futuro, a miséria no exílio, o fim horroroso e que Ele um dia viria julgá-lo com toda a justiça.
 
Pilatos, meio assustado, meio irritado pelas palavras de Jesus, saiu para a sacada e exclamou mais uma vez que queria soltar Jesus. Então gritaram: “Se o soltares, não és amigo de César; pois quem se declara rei, é inimigo de César”. Outros gritaram que o acusariam perante o imperador por perturbar-lhes a festa; que devia terminar a causa, porque eram obrigados, sob graves penas, a estar no Templo às dez horas.
 
– O grito: “Morra! Crucificai-O!” levantou-se novamente de todos os lados; subiram até sobre os tetos planos das casas em redor do fórum e gritavam dali.
 
Então viu Pilatos que contra essa fúria não conseguiria nada; os gritos e o tumulto tinham algo de terrível e toda a multidão diante do palácio estava em tal estado de agitação, que era para recear uma rebelião. Pilatos mandou trazer água; o criado derramou-lhe água da bacia sobre as mãos, à vista de todo o povo e Pilatos gritou do pretório à multidão: “Sou inocente do sangue deste justo; vós tendes que responder pela sua morte”. Então se levantou um grito horrível, unânime, do povo reunido, no meio do qual havia gente de todos os lugares da Palestina: “Que o seu sangue caia sobre nós e nossos, filhos!”
 
Reflexão sobre estas visões
 
Todas as vezes que, nas meditações da dolorosa Paixão de Jesus Cristo, ouço esse grito espantoso dos judeus: “Que o seu sangue caia sobre nós e nossos filhos”, o efeito dessa solene maldição me é revelado e tornado sensível, em quadros maravilhosos e terríveis. Vejo acima do povo, que grita, um céu escuro, coberto de nuvens cor de sangue, das quais saem flagelos e espadas de fogo. Vejo como se os raios dessa maldição atravessassem todos até os ossos e neles também os filhos. Vejo o povo como envolvido em trevas e o grito sair-lhes das bocas como um fogo tenebroso e maligno, unir-se por cima das cabeças e cair de novo sobre eles, entrando mais profundo em alguns, pairando sobre outros. Esses últimos eram aqueles que depois da morte de Jesus se converteram. O número destes não era, porém, pequeno; pois vejo Jesus e Maria, durante todos esses terríveis sofrimentos rezarem sempre pela salvação dos carrascos e todos esses horríveis tormentos não lhes causaram nenhum ressentimento.
 
Durante toda a Paixão, no meio das mais cruéis torturas dos insultos mais insolentes e ignominiosos, no meio da fúria sanguinária dos inimigos e dos servos destes, à vista da ingratidão e do abandono de muitos fiéis, que Lhe causaram o mais amargo sofrimento físico e moral, vejo Jesus sempre rezando, amando os inimigos, orando pela sua conversão, até o último suspiro; mas vejo que por essa paciência e esse amor ainda mais se inflama a fúria e raiva dos cruéis inimigos; enfurecem-se porque toda a sua brutalidade e crueldade não conseguem arrancar-Lhe da boca uma palavra de protesto ou de queixa, que possa desculpar-lhes a maldade. Hoje, que na festa da Páscoa matam o cordeiro pascal, não sabem que matam o Cordeiro de Deus.
 
Quando, durante tais visões, dirijo os meus pensamentos para o coração do povo e dos juízes e para as santas almas de Jesus e Maria, tudo que neles se passa me é mostrado em figuras, que as pessoas naquele tempo não viram mas sentiram o que representam. Vejo então inúmeras figuras diabólicas, cada uma diferente, conforme o vício que representa, em terrível ação entre a multidão; vejo-as correr, instigar a raiva, causar confusão dos espíritos, entrar na boca das pessoas; vejo as sair da multidão, reunir-se em grande número e atiçar a raiva do povo contra Jesus, mas à vista do amor e da paciência do Mestre tremem e desaparecem do novo entre o povo.
 
Toda essa atividade tem algo de desesperado, confuso, contraditório; é um movimento confuso e insensato. Acima e em redor de Jesus e Maria e do pequeno número de santos vejo também se moverem muitos Anjos, cujas figuras e vestimentas variam, conforme as respectivas funções e ação; representam consolação, oração, unção, conforto por comida e bebida e outras obras de misericórdia.
 
De modo semelhante vejo freqüentemente vozes consoladoras ou ameaçadoras saírem, como palavras de diferentes cores e luzes, da boca de tais aparições; e se são mensagens, vejo-lhas nas mãos, em forma de tiras escritas. Outras vezes, quando preciso ser instruída a esse respeito, vejo os movimentos d’alma e as paixões dos corações, o sofrimento e o amor, enfim, tudo que é sentimento; vejo-os passar através do peito e de todo o corpo dos homens, em movimentos de diferentes cores, em variações de luz e sombra, de diversas formas, direções e mudanças de forma e cor, de lentidão e rapidez; assim compreendo tudo, mas é impossível exprimi-lo em palavras; pois é um número infinito de coisas e ao mesmo tempo me sinto tão abatida pela dor e tristeza por meus pecados e os de todo o mundo e tão dilacerada pela dolorosa Paixão de Jesus, que até não compreendo como ainda possa juntar o pouco que estou contando.
 
Muitas coisas, especialmente aparições e ações de demônios e Anjos, contadas por outras pessoas, que tiveram visões da Paixão de Nosso Senhor, são fragmentos de tais intuições de movimentos interiores, invisíveis no momento em que se realizaram outrora, as quais variam, segundo o estado d’alma das pessoas videntes e são entremeadas nas narrações. Por isso há tantas contradições, porque esquecem algumas coisas, saltam outras e só uma parte é que contam.
 
Tudo que há de mau no mundo, contribuiu para atormentar Jesus. Tudo que é amor, nEle sofreu. Como Cordeiro de Deus, tomou sobre si os pecados do mundo: - que infinidade de coisas, tanto abomináveis como também santas, se podem ver e contar. Se, portanto, as visões e contemplações de muitas pessoas piedosas não concordam em tudo, é porque não tiveram o mesmo grau de graça para ver, contar e fazer-se compreender.
 
Jesus condenado à more na Cruz
 
Pilatos, que não procurava a verdade, mas apenas uma saída para a dificuldade, estava mais indeciso que nunca. A consciência dizia-lhe: “Jesus é inocente”. A esposa mandara dizer-lhe: “Jesus é santo”. A superstição dizia-lhe: “É um inimigo de teus deuses”. A covardia dizia-lhe: “É um deus e vingar-se-à”.
 
Interroga mais uma vez a Jesus, em tom inquieto e solene e Jesus lhe fala dos seus mais ocultos crimes, prediz-lhe um futuro e uma morte miseráveis e que um dia virá, sentado sobre as nuvens do céu, pronunciar sobre ele um juízo justo, o que deita na falsa balança da justiça de Pilatos um novo peso contra a intenção de soltar Jesus. Ficou furioso por se ver em toda a nudez de sua ignomínia interior diante de Jesus, a quem não podia compreender; sentiu-se indignado daquele que mandara açoitar e que podia mandar crucificar, lhe predizer um fim miserável; dessa boca, quem nunca acusada de mentira, que não proferia uma só palavra em sua própria defesa, ousar, em ocasião extremamente arriscada, citá-lo perante seu justo tribunal, naquele dia futuro.
 
Tudo isso lhe ofendeu profundamente o orgulho; mas como não havia sentimento dominante nesse homem miserável e indeciso, ficou cheio de medo diante da ameaça do Senhor e fez a última tentativa de libertar Jesus. Ouvindo, porém, a ameaça dos judeus de acusá-lo perante o imperador, se soltasse Jesus, foi dominado por outro pavor covarde: o medo do imperador terrestre venceu o receio do rei cujo reino não era deste inundo. O celerado covarde e irresoluto pensava consigo: “Se Ele morrer, morrerá também com Ele o que sabe de mim e o que me predisse”.
 
À ameaça dos judeus de acusá-lo perante o imperador, decidiu-se Pilatos a fazer-lhes a vontade, contrariamente à promessa que fizera à esposa, contrariamente à justiça e à própria convicção. Por medo do imperador, entregou aos judeus o sangue de Jesus, mas para a própria consciência não tinha senão água, que fez derramar sobre as mãos, exclamando: “Sou inocente do sangue deste Justo, respondereis por Ele”.
 
– Não, Pilatos, tu és responsável, pois que O dizes Justo e Lhe derramas o sangue; és o juiz injusto, sem consciência. O mesmo sangue de que queria lavar as mãos e de que não podia lavar a alma, os sanguinários judeus chamaram-nO sobre si e seus filhos, amaldiçoando-se a si mesmos. O sangue de Jesus, que atrai a misericórdia de Deus sobre nós, fizeram-nO chamar a vingança sobre eles, gritando: “Que o seu sangue caia sobre nós e nossos filhos”.
 
Ouvindo esses gritos sanguinários, Pilatos mandou preparar tudo para pronunciar a sentença. Deu ordem para trazer outras vestes solenes e vestiu-as; puseram-lhe na cabeça uma espécie de coroa ou diadema, no qual havia uma pedra preciosa ou outra coisa brilhante; vestiram-no também de outro manto e diante dele levavam um bastão. Foi acompanhado de muitos soldados; oficiais do tribunal iam na frente, transportando uma coisa e seguiam-se escreventes, com rolos de papel e tabuinhas, precedidos por um homem que tocava trombeta.
 
Assim saiu do palácio para o fórum, onde, em frente ao lugar da flagelação, havia um belo assento elevado, construído de pedras, para pronunciar as sentenças; só depois de pronunciadas desse lugar tinham as sentenças vigor legal. Esse tribunal era chamado Gábata e era um estrado circular, para o qual subiam escadas de vários lados; em cima havia um assento para Pilatos e atrás dele um banco, para outros membros do tribunal.
 
Muitos soldados cercavam esse tribunal e em parte ficavam nos degraus das escadas. Muitos dos fariseus já tinham ido do palácio de Pilatos ao Templo. Somente Anás e Caifás, com cerca de vinte e oito outros, se dirigiram ao tribunal no fórum, logo que Pilatos começou a vestir as vestimentas oficiais. Os dois ladrões já haviam sido conduzidos ao tribunal, quando Pilatos apresentou Jesus ao povo, dizendo: Ecce homo! O assento de Pilatos estava coberto de uma manta vermelha e sobre essa havia uma almofada azul, com galões amarelos.
 
Jesus, ainda vestido do rubro manto derrisório, com a coroa de espinhos na cabeça, as mãos atadas, foi então conduzido pelos esbirros e soldados que O cercavam, entre as vaias do povo, para o tribunal, onde O colocaram entre dois ladrões. Pilatos, sentado no tribunal, disse mais uma vez, em voz alta, aos inimigos de Jesus: “Eis aí o vosso rei!” Eles, porém, gritaram: “Fora! Morra! Crucifica-O!” – Pilatos disse: “Devo então crucificar vosso rei?” – Mas os príncipes dos sacerdotes gritaram: “Não temos outro rei senão o César”.
 
Então Pilatos não disse mais palavra em favor de Jesus, nem mais Lhe falou, mas começou a pronunciar a sentença. Os dois ladrões tinham sido condenados, já havia mais tempo, à morte na cruz, mas a execução fora adiada para esse dia, a pedido dos Sumos Sacerdotes, porque queriam ultrajar Jesus, crucificando-O entre assassinos ordinários. As cruzes dos ladrões já estavam ao lado deles, no chão, trazidas pelos ajudantes dos carrascos. A Cruz de Nosso Senhor ainda não estava lá, provavelmente porque a sentença ainda não fora pronunciada.
 
A Santíssima Virgem, que se tinha afastado depois da apresentação de Jesus por Pilatos e da gritaria sanguinária dos judeus, abriu caminho, em companhia de algumas mulheres, por entre a multidão e aproximou-se do tribunal, para ouvir a sentença de morte, proferida contra seu Filho e Deus; Jesus estava nos degraus da escada, diante de Pilatos, rodeado de soldados e os inimigos lançavam-Lhe olhares cheios de ódio e escárnio. Um toque de trombeta ordenou silêncio e Pilatos pronunciou, com a raiva de um covarde, a sentença de morte contra o Salvador.
 
Senti-me sufocada de indignação, diante de tanta baixeza e duplicidade; o aspecto desse celerado arrogante, do triunfo e ódio sanguinário dos príncipes dos sacerdotes, satisfeitos após tantos esforços fatigantes, o estado lastimoso e os sofrimentos do pacientíssimo Salvador, a indizível angústia e os tormentos da Mãe Santíssima e das santas mulheres, a furiosa ansiedade com que os judeus esperavam a morte da presa, o frio orgulho dos soldados e minha visão das horrendas figuras diabólicas entre a multidão do povo, tudo isso me tinha aniquilado completamente. Ai! Percebi que eu devia estar no lugar de Jesus, meu querido esposo; então a sentença seria justa. Eu estava tão dilacerada pela dor, que não me lembro mais da ordem exata das coisas. Vou contar mais ou menos o que me lembro.
 
Pilatos começou por um longo preâmbulo, em que se referiu com os mais pomposos títulos ao imperador Cláudio Tibério. Depois expôs a acusação contra Jesus, que fora condenado à morte pelo Sumos Sacerdotes e cuja crucificação tinha sido unanimemente exigida pelo povo, por ser um rebelde, perturbador da paz pública, violador da lei judaica, por se fazer chamar Filho de Deus e rei dos judeus.
 
Quando, porém, acrescentou ainda que achava essa sentença justa, - ele que por várias horas continuara a declarar Jesus inocente, quase não pude conter-me mais, à vista desse homem infame e mentiroso. Ele disse ainda: “Por isso condeno Jesus Nazareno, rei dos judeus, a ser pregado na Cruz”. Depois deu ordem aos carrascos que fossem buscar a cruz. Também me lembro, mas não tenho plena certeza, que ele quebrou uma vara comprida, cuja metade era visível e lançou os pedaços aos pés de Jesus.
 
A essas palavras a Mãe de Jesus caiu por terra sem sentidos e como morta; agora então estava decidida, era certa a morte de seu santíssimo e amantíssimo Filho e Salvador, morte horrível, dolorosa, ignominiosa. As companheiras e João levaram-na para fora da multidão, para que aqueles homens cegos de coração não pecassem, insultando a dolorosa Mãe do Salvador; mas Maria não podia deixar de seguir o caminho da Paixão de Jesus; as companheiras viram-se obrigadas a levá-la outra vez de lugar em lugar; pois o culto misterioso de unir-se-Lhe nos sofrimentos impelia a Santíssima Mãe à oferecer o sacrifício de suas lágrimas em todos os lugares onde o Redentor, seu Filho, sofrera pelos pecados dos homens, seus irmãos; e assim a Mãe do Senhor consagrou com as lágrimas todos esses santos lugares e tomou posse deles para a futura veneração pela Igreja, Mãe de todos nós, como Jacó erigiu uma pedra e, ungindo-a com óleo, consagrou-a em memória da promissão, que ali recebera.
 
A sentença foi escrita, mesmo no tribunal, por Pilatos e copiada mais de três vezes, por aqueles que lhe estavam atrás. Enviaram vários mensageiros, porque alguns dos documentos precisavam ser assinados por outras pessoas; não me lembro se esses documentos faziam parte da sentença ou se eram outras ordens. Contudo foram também alguns desses documentos levados a lugares distantes.
 
Havia, porém, ainda outra sentença, escrita por Pilatos mesmo e que lhe provava claramente a duplicidade; pois tinha teor totalmente diferente da sentença que pronunciara; vi como a escreveu contra a vontade, com o espírito atormentado e um anjo irado a dirigir-lhe a mão. Esse documento, de cujo conteúdo tenho apenas uma lembrança vaga, dizia mais ou menos o seguinte:
 
“Compelido pelos Sumos Sacerdotes e o Sinédrio e ameaçado por uma iminente insurreição do povo, que acusavam Jesus de Nazaré de agitação contra a autoridade, de blasfêmia e de desprezo da lei judaica, exigindo-Lhe a morte, entreguei-lhes o mesmo Jesus, para ser crucificado, não tanto movido pelas acusações, que em verdade não achei fundo, não tanto movido pelas acusações, que em verdade não achei fundadas, mas para não ser acusado perante o imperador, de favorecer a insurreição e negar justiça aos judeus. Entreguei-O porque exigiram com violência a morte, como transgressor da lei; e com Ele dois ladrões, já antes condenados, cuja execução fora adiada por maquinações dos judeus, porque queriam que fossem executados junto com Jesus”.
 
Nesse documento, pois, escreveu o malvado um relatório totalmente diferente. – Depois escreveu ainda a inscrição da cruz em três linhas, com verniz, sobre uma tabuinha de cor escura. O documento em que Pilatos desculpava a sentença, foi copiado várias vezes e enviando a diversos lugares.
 
Os Sumos Sacerdotes discutiram ainda com Pilatos no tribunal; não estavam contentes com a sentença, queixando-se sobretudo porque tinha escrito que eles haviam exigido o adiamento da execução dos ladrões, para que fossem executados com Jesus; contestaram também o título de Jesus: queriam que escrevesse “que se declarou rei dos judeus” e não simplesmente “rei dos judeus”.
 
Mas Pilatos perdeu a paciência, tratou-os com arrogância, gritando furioso: “O que escrevi, fica escrito”. Ainda insistiram, dizendo que a Cruz de Jesus não devia ficar mais alta que as dos ladrões; era preciso, porém, fazê-la mais alta, porque, por um erro dos operários, ficara mais curta a parte de acima da cabeça, não cabendo o título escrito por Pilatos; esse protesto contra o alongamento da cruz era apenas um subterfúgio, para evitar a inscrição, que lhes parecia injuriosa.
 
Mas Pilatos não cedeu e assim foram obrigados a alongar a cruz, adaptando-lhe uma peça de madeira, à qual se pudesse fixar o título. Assim concorreram várias circunstâncias para dar à cruz aquela forma significativa, que sempre lhe tenho visto, isto é, com os braços um pouco elevados, como os galhos de uma árvore, os quais, ao sair do tronco, se estendem para cima; tinha a forma da letra Y, com a linha do centro alongada por entre os braços. Os dois braços eram mais finos do que o tronco e estavam embutidos nesse, sendo os encaixes reforçados de ambos os lados, por uma cunha fincada por baixo. Como, porém, o tronco acima da cabeça, por um erro, tivesse saído curto demais para se fixar bem visível a inscrição de Pilatos, foi preciso ajustar mais uma peça ao tronco. No lugar dos pés pregaram um pedaço de madeira, para os sustentar.
 
Enquanto Pilatos pronunciava a sentença injusta, vi Cláudia Prócula, sua mulher, remeter-lhe o penhor e separar-se dele Na mesma noite fugiu ocultamente do palácio e foi para junto dos amigos de Jesus, que a levaram a um esconderijo, num subterrâneo da casa de Lázaro, em Jerusalém. Vi também um amigo de Jesus gravar, numa pedra esverdeada atrás do tribunal do Gábata, duas linhas, que diziam respeito a sentença injusta de Pilatos e à separação da mulher do Procurador; ainda me lembro das palavras “judex injustus” e do nome “Cláudia Prócula”.
 
Mas não me recordo se foi no mesmo dia ou alguns dias mais tarde; lembro-me apenas que nesse lugar do fórum estava um numeroso grupo de homens conversando, enquanto o outro homem, encoberto por eles, gravou aquelas linhas, sem ser visto. Vi que aquela pedra ainda está, desconhecida embora, em Jerusalém, nos alicerces duma casa ou duma Igreja, situada onde antigamente era o Gábata. Cláudia Prócula tornou-se cristã e depois de se ter encontrado com S. Paulo, tornou-se-lhe amiga dedicada.
 
Pronunciada a sentença, enquanto Pilatos escrevia e discutia com os Sumos Sacerdotes, era Jesus entregue aos carrascos; antes houvera ainda algum respeito ao tribunal, mas depois estava o Divino Mestre inteiramente à mercê desses homens abomináveis. Trouxeram-Lhe a roupa, que Lhe tinham tirado para escarnecê-Lo em casa de Caifás; força guardada e parece-me que também fora lavada por gente compassiva, pois estava limpa.
 
Creio também que era costume entre os romanos levar os condenados à execução, vestidos de sua própria roupa. Despiram de novo Jesus: desataram-Lhe as mãos, para poder revesti-Lo, arrancaram-Lhe o manto vermelho do corpo chagado, abrindo-Lhe assim muitas feridas. Ele mesmo vestiu, com mãos trêmulas, a faixa em torno da cintura e os carrascos lançaram-Lhe o escapulário sobre os ombros.
 
Como, porém, a coroa de espinhos fosse muito larga para deixar passar-Lhe pela cabeça a túnica sem costura, que Lhe fizera a Virgem Santíssima, arrancaram-Lhe a coroa e todas as feridas começaram a sangrar, com indizíveis dores. Depois de Lhe porem a túnica sobre as feridas do corpo, vestiram-nO da veste larga de Lã branca, que cingiram com a faixa larga e puseram-Lhe finalmente o manto. Feito isso, amarraram-nO novamente com o cinturão, munido de pontas de ferro, no qual estavam presas as cordas para conduzi-Lo. Durante todo esse tempo batiam e empurravam-nO, tratando-O com atroz crueldade.
 
Os dois ladrões estavam um ao lado direito, outro ao lado esquerdo de Jesus; tinham as mãos amarradas e pendia-lhes, como a Jesus diante do tribunal, uma cadeia de ferro do pescoço. Vestiam apenas um pano na cintura e um gibão semelhante a um escapulário, de fazenda ordinária, sem mangas e aberto nos lados; na cabeça tinham bonés, tecidos de palha, que se pareciam com barretinhas estofadas de crianças. A pele dos ladrões era de um pardo sujo, coberta de cicatrizes, causadas pela flagelação passada. Aquele que se converteu depois, já estava calmo e pensativo; o outro, porém, irritado e impertinente, unindo-se aos carrascos para insultar e amaldiçoar Jesus, que os olhava a ambos com olhos cheios de caridade e desejo de salvá-los, oferecendo também por eles todos os seus sofrimentos.
 
Os carrascos estavam ocupados em juntar todas as ferramentas; preparavam-se para a triste e terrível marcha, em que o nosso amado e doloroso Salvador quis carregar o peso dos pecados de nós todos, homens ingratos e para os expiar, ai derramar o santíssimo Sangue do cálice de seu Corpo, transpassado pelos homens mais abomináveis.
 
Anás e Caifás terminaram afinal a discussão acalorada com Pilatos; receberam algumas tiras compridas ou rolos de pergaminho, com cópias dos documentos e dirigiram-se apressadamente ao Templo; e só por pouco não chegaram tarde.
 
Então se separaram os Sumos Sacerdotes do verdadeiro Cordeiro pascal; correram ao Templo de pedra, para imolar e comer o cordeiro simbólico e a realização do símbolo, o verdadeiro Cordeiro de Deus, fizeram-nO conduzir por vis carrascos ao altar da cruz. Separaram-se ali os dois caminhos, dos quais um conduzia ao símbolo e outro à realização do Sacrifício; abandonaram o Cordeiro de Deus, a pura Vítima expiatória, que tentaram macular exteriormente e insultar com todo o horror da perversidade, entregaram-nO a carrascos ímpios e desumanos e correram ao Templo de pedra, para imolar cordeiros lavados, purificados e bentos.
 
Haviam tomado todo o cuidado para não se sujarem exteriormente e tinham as almas todas sujas, transbordantes de ódio, inveja e ultrajes. – “Que o seu sangue caia sobre nós e nossos filhos”, tinham exclamado e com essas palavras cumpriram a cerimônia, impuseram a mão de sacrificador sobre a cabeça da vítima. Separaram-se ali os dois caminhos, que conduziam ao altar da lei e ao altar da graça.
 
Jesus leva, a Cruz ao Gólgota
 
Jesus toma a cruz aos ombros
 
Quando Pilatos desceu do tribunal do Gábata, seguiram-no uma parte dos soldados e foram diante do palácio, para acompanhar o séqüito. Um pequeno destacamento ficou com os condenados. Vinte e oito fariseus armados, entre os quais os seis inimigos furiosos de Jesus que estavam presentes quando foi preso no horto das Oliveiras, vieram a cavalo ao fórum, para acompanhar o séqüito.
 
Os carrascos conduziram Jesus ao meio do fórum; alguns escravos entraram pela porta ocidental, trazendo o patíbulo da cruz e jogaram-no ruidosamente aos pés do Salvador. Os dois braços da cruz, mais finos, estavam amarrados com cordas ao tronco largo e pesado; as cunhas, o cepo para sustentar os pés e a peça ajustada ao tronco para a inscrição, junto com outras ferramentas eram carregados por alguns meninos a serviço dos carrascos.
 
Quando jogaram a cruz no chão, aos pés de Jesus, Ele se ajoelhou junto à mesma, e abraçando-a, beijou-a três vezes, dirigindo ao Pai celestial, em voz baixa, uma oração comovente de ação de graças pela redenção do gênero humano, a qual ia realizar. Como os sacerdotes, entre os pagãos, abraçam um altar novo, assim abraçou Jesus a cruz, o eterno altar do sacrifício cruento de expiação. Os carrascos, porém, com um arranco nas cordas, fizeram Jesus ficar ereto, de joelhos, obrigando-o a carregar penosamente o pesado madeiro ao ombro direito e com o braço direito segurá-lo, com pouco e cruel auxílio dos carrascos. Vi anjos ajudando-o invisivelmente, pois sozinho não teria conseguido suspendê-lo; ajoelhava-se, curvado sob o pesado fardo.
 
Enquanto Jesus estava rezando, outros carrascos puseram sobre os pescoços dos ladrões os madeiros transversais das respectivas cruzes, amarrando-lhes os braços erguidos de ambos os lados. Essas travessas não eram inteiramente retas, mas um pouco curvas e na hora da crucifixão eram ajustadas na extremidade superior dos troncos, que eram transportados atrás deles por escravos, junto com outros utensílios.
 
Ressoou um toque de trombeta da cavalaria de Pilatos e um dos fariseus a cavalo aproximou-se de Jesus, que estava de joelhos, sob o fardo e disse-lhe: “Acabou agora o tempo dos belos discursos”; e aos carrascos: “Apressai-vos, para que fiquemos livres dele. Vamos avante! Fizeram-no levantar-se então aos arrancos e caiu-lhe assim sobre o ombro todo o peso da cruz, que nós devemos também carregar para segui-lo, segundo as suas santas palavras, que são a verdade eterna. Então começou a marcha triunfal do Rei dos reis, tão ignominiosa na terra, tão gloriosa no Céu.
 
Tinham atado duas cordas à extremidade posterior da cruz e dois carrascos levantaram-na por meio delas, de modo que ficava suspensa e não se arrastava pelo chão. Um pouco afastados de Jesus seguiam quatro carrascos, segurando as quatro cordas que saiam do cinturão novo, com que o tinham cingido. O manto, arregaçado, fora-lhe atado em redor do peito. Jesus carregando ao ombro os madeiros da cruz, ligados num feixe, lembrava-me vivamente Isaac, levando a lenha para a sua própria imolação ao monte Mória.
 
O trombeteiro de Pilatos deu então o sinal de partir, porque Pilatos também queria sair com um destacamento de soldados, para impedir qualquer movimento revoltoso na cidade. Estava a cavalo, vestido da armadura e rodeado de oficiais e de um destacamento de cavalaria; seguia depois um batalhão de infantaria, de cerca de 300 soldados, todos oriundos da fronteira da Itália e Suíça.
 
Em frente do cortejo em que ia Jesus, seguia um corneteiro, que tocava nas esquinas das ruas, proclamando a sentença e a execução. Alguns passos atrás marchava um grupo de meninos e homens das camadas mais baixas do povo, transportando bebidas, cordas, pregos, cunhas e cestos, com diversas ferramentas, escravos mais robustos carregavam as estacas, escadas e os troncos das cruzes dos ladrões. As escadas constavam apenas de um pau comprido, com buracos, nos quais fincavam cavilhas. Seguiam-se depois alguns fariseus a cavalo e atrás deles um rapazinho, segurando sobre os ombros, suspensa numa vara, a coroa de espinhos, que não puseram na cabeça de Jesus, porque parecia impedi-lo de carregar a cruz. Esse rapazinho não era muito ruim.
 
Seguia então Nosso Senhor e Salvador, curvado sob o pesado fardo da cruz, cambaleando sobre os pés descalços e feridos, dilacerado e contundido pela flagelação e as outras brutalidades, exausto de forças, por estar sem comer, sem beber, nem dormir desde a Ceia, na véspera, enfraquecido pela perda de sangue, pela febre e sede, atormentado por indizíveis angústias e sofrimentos da alma.
 
Com a mão segurava o pesado lenho sobre o ombro direito; a esquerda procurava penosamente levantar a larga e longa veste, para desembaraçar os passos, já pouco seguros. Tinha as mãos inchadas e feridas pelas cordas, com que haviam estados antes fortemente amarradas. O rosto estava coberto de pisaduras e sangue; cabelo e barba em desalinho e colados pelo sangue; o pesado fardo e o cinturão apertavam-lhe a roupa pesada de lã de encontro ao corpo ferido e a lã pegava-se-lhe às feridas reabertas. Em redor só havia ódio e insultos.
 
Mas também nessa imensa miséria e em todos esses martírios se manifestava o amor do Divino Mártir: a boca movia-se-lhe em oração e o olhar suplicante e humilde prometia perdão. Os dois carrascos que suspendiam a cruz, pelas cordas fixadas na extremidade posterior, aumentavam ainda o martírio de Jesus, deslocando o pesado farto, que alternadamente levantavam e deixavam cair.
 
Em ambos os lados do cortejo marchavam vários soldados, armados de lanças. Depois de Jesus, vinham os dois ladrões, cada um conduzido por dois carrascos, que lhes seguravam as cordas, presas ao cinturão; transportavam sobre a nuca os madeiros transversais das respectivas cruzes, separados do tronco; tinham os braços amarrados as extremidades dos madeiros. Andavam meio embriagados por uma bebida que lhes tinham dado. Contudo o bom ladrão estava muito calmo; o mau, porém, impertinente, praguejava furioso.
 
Os carrascos eram homens baixos, mas robustos, de pele morena, cabelo preto, crespo e eriçado; tinham a barba rala, aqui e acolá uns tufinhos de pelos. Não tinham fisionomia judaica; pertenciam a uma tribo de escravos do Egito, que trabalhavam na construção de canais; vestiam somente a tanga e um escapulário de couro, sem mangas. Eram verdadeiros brutos. Atrás dos ladrões vinham a metade dos fariseus, fechando o cortejo. Esses cavaleiros cavalgavam durante todo o caminho, separados, ao longo do séqüito, apressando a marcha ou conservando a ordem. Entre a gentalha que ia na frente do cortejo, transportando as ferramentas e outros objetos, achavam-se também alguns meninos perversos, filhos de judeus, que se lhe tinham juntado voluntariamente.
 
Depois de um considerável espaço seguia o séqüito de Pilatos; na frente um trombeteiro a cavalo, atrás dele cavalgava Pilatos, vestido da armadura de guerra, entre os oficiais e cercado de um grupo de cavaleiros; em seguida marchavam os trezentos soldados de infantaria. O séqüito atravessou o fórum, mas entrou depois numa rua larga.
 
O cortejo que conduzia Jesus, passou por uma rua muito estreita, pelos fundos da casa, para deixar livre o caminho para o povo, que se dirigia ao Templo, como também para não por obstáculos ao séqüito de Pilatos.
 
 A maior parte da multidão já se pusera a caminho, logo depois de pronunciada a sentença; os demais judeus dirigiram-se as respectivas casas ou ao Templo; pois haviam perdido muito tempo durante a manhã e apressavam-se em continuar os preparativos para a imolação do cordeiro pascal. Contudo era ainda muito numerosa a multidão, composta de gente de todas as classes: forasteiros, escravos, operários, meninos, mulheres e a ralé da cidade; corriam pelas ruas laterais e por atalhos para frente, para ver mais uma ou outra vez o triste séqüito. O destacamento de soldados romanos que seguia, impedia o povo de juntar-se atrás do séqüito, assim era preciso correr sempre à frente, pelas ruas laterais. A maior parte da multidão dirigiu-se diretamente ao Gólgota.
 
A rua estreita pela qual Jesus foi conduzido primeiro, tinha apenas a largura de alguns passos, e passava pelos fundos das casas, onde havia muita imundície. Jesus teve que sofrer muito ali; os carrascos andavam mais perto dele; das janelas e dos buracos dos muros o vaiava a gentalha; escravos que lá trabalhavam, atiravam-lhe lama e restos imundos da cozinha; patifes perversos derramavam-lhe em cima água suja e fétida dos esgotos; até crianças, instigadas pelos velhos, juntavam pedras nas roupinhas e saindo das casas e atravessando o séqüito a correr, jogavam-nas no caminho, aos pés de Jesus. Assim foi Jesus tratado pelas crianças, que tanto amava, abençoava e chamava de bem-aventuradas.
 
A primeira queda de Jesus sob a cruz
 
A rua estreita dirige-se no fim para a esquerda, torna-se mais larga e começa a subir. Passa ali um aqueduto subterrâneo, que vem do Monte Sião; creio que passa ao longo do fórum, onde há também, sob a terra, canais abobadados e desemboca na piscina das ovelhas, perto da porta das ovelhas. Eu ouvia o murmúrio e o correr das águas nos canos. Naquele ponto, antes de subir a rua, há um lugar mais fundo, onde, por ocasião das chuvas, se junta água e lama e há lá uma pedra saliente, que facilita a passagem, como em muitas outras ruas de Jerusalém, as quais, em grande parte, são bastante toscas.
 
Quando Jesus, carregado do pesado fardo, chegou a esse lugar, não tinha mais força para ir adiante; os carrascos arrastavam e empurravam-no sem piedade; então Jesus, nosso Deus, tropeçando sobre a pedra, caiu por terra e a cruz tombou-lhe ao lado. Os carrascos praguejaram, puxaram-no pelas cordas, deram-lhe pontapés; o séqüito parou, formou-se um grupo tumultuoso em redor do Divino Mestre.
 
Debalde estendia a mão, para que alguém o ajudasse a levantar-se. “Ai!” exclamou, “dentro em pouco estará tudo acabado”, e os lábios moviam-se-lhe em oração. Os fariseus gritaram: “Vamos! Fazei-o levantar-se, senão nos morre nas mãos!” Aqui e acolá, dos lados da rua, se viam mulheres a chorar, com crianças, que também choramingavam assustadas.
 
Com auxílio sobrenatural, conseguiu Jesus afinal levantar a cabeça e esses homens abomináveis e diabólicos, em vez de o ajudarem e aliviarem, ainda lhe impuseram novamente a coroa de espinhos. Levantaram-no depois brutalmente e puseram-lhe a cruz de novo no ombro. Com isso era obrigado a pender para o outro lado a cabeça, torturada pelos espinhos, para assim poder carregar o pesado patíbulo. Com novo e maior martírio subiu então pela rua, que dali em diante se tornava mais larga.
 
O encontro de Jesus com a Santíssima Mãe. Segunda queda de Jesus debaixo da cruz.
 
A Mãe de Jesus, transpassada de dor, tinha se retirado do fórum, com João e algumas mulheres, depois de ouvir a sentença que lhe condenara injustamente o Filho. Tinham visitado muitos dos lugares sagrados pela Paixão de Jesus, mas quando o correr do povo e o toque dos clarins e o séqüito de Pilatos, com os soldados, anunciaram a partida para o Calvário, Maria não pode conter-se mais: o amor impelia-a a ver o divino Filho, no seu sofrimento e pediu a João que a conduzisse a um lugar onde Jesus tivesse de passar.
 
Eles tinham vindo dos lados de Sião; passaram ao lado do tribunal donde Jesus, havia pouco, fora levado por portas e alamedas que noutros tempo estavam fechadas, mas nessa ocasião abertas, para dar passagem à multidão. Passaram depois pela parte ocidental de um palácio, que do outro lado dá, por um portão, para a rua larga, na qual o séqüito entrou depois da primeira queda de Jesus. Não sei mais com certeza se esse palácio era uma ala da casa de Pilatos, com a qual parece estar ligada por pátios e alamedas ou se é, com me lembro agora, a própria habitação do Sumo Sacerdote Caifás; pois a casa em Sião era apenas o tribunal.
 
– João conseguiu de um criado ou porteiro compassivo a licença de passar, com Maria e as companheiras, para o outro lado e o mesmo empregado abriu-lhes o portão para a rua larga. – Estava com eles um sobrinho do José de Arimatéia; Suzana, Joana Chusa e Salomé de Jerusalém seguira a Santíssima Virgem.
 
Quando vi a dolorosa Mãe de Deus, pálida, olhos vermelhos de chorar, tremendo e gemendo, envolta da cabeça aos pés num manto azul cinzento, passando com as companheiras por aquela casa, senti-me presa de dor e susto. Já se ouviam por sobre as casas o tumulto e os gritos do séqüito, que se aproximava, o toque da trombeta e a voz do arauto, anunciando nas esquinas das ruas a execução de um condenado a cruz.
 
O criado abriu o portão; o ruído tornou-se mais distinto e assustador. Maria rezava e disse a João: “Que devo fazer, ficar para vê-lo ou fugir? Como poderei suportar vê-lo neste estado?” João disse: “Se não ficardes, arrepender-vos-eis amargamente toda a vida”. Então saíram da casa, ficando a espera, sob a arcada do portão; olhavam para a direita, rua abaixo, que até lá subia, mas continuava plana, do lugar onde estava Maria.
 
Ai! Como o som da trombeta lhe penetrou no coração! O séqüito aproximava-se, ainda estaria distante uns 80 passos, quando saíram do portão. Ali o povo não andava na frente, mas aos lados e atrás havia alguns grupos: grande parte da gentalha, que saíra por último do tribunal, corria por atalhos para a frente, para ocupar outros lugares, donde pudesse ver passar o séqüito.
 
Quando os servos dos carrascos, que transportavam os instrumentos do suplício, se aproximaram, impertinentes e triunfantes, começou a Mãe de Jesus a tremer e chorar e torcer as mãos de aflição. Um dos miseráveis perguntou aos que iam ao lado: “Quem é essa mulher, que está ali lamentando?” Um deles respondeu: “É a mãe do Galileu.” Ouvindo isso os perversos insultaram-na com palavras de zombaria, apontaram-na com os dedos e um desses homens perversos tomou os cravos, com os quais Jesus devia ser pregado na cruz e mostrou-o a Santíssima Virgem, com ar de escárnio. Ela, porém, torcendo as mãos, olhava na direção de seu Filho e esmagada pela dor, encostou-se ao pilar do portão. Tinha a palidez de um cadáver e os lábios roxos.
 
Passaram os fariseus a cavalo; depois veio o menino, com o título da cruz e, ai! Alguns passos atrás, Jesus, o Filho de Deus, seu próprio Filho querido, o Santo, o Redentor: lá ia cambaleando e curvado, afastando penosamente a cabeça, com a coroa de espinhos, do pesado fardo da cruz. Os carrascos arrastavam-no pelas cordas para a frente; tinha o rosto pálido, coberto de sangue e pisaduras, a barba toda junta e colada sob o queixo pelo sangue.
 
Os olhos encovados e sangrentos do Salvador, sob o horrível enredo da coroa de espinhos, lançaram um olhar grave e cheio de piedade a Mãe dolorosa e depois, tropeçando, ele caiu pela segunda vez, sob o peso da cruz, sobre os joelhos e as mãos. A mãe, na veemência da dor, não via mais nem os soldados nem os carrascos, via só o Filho querido em estado tão lastimoso e tão maltratado. Estendendo os braços, correu os poucos passos do portão até Jesus, através dos carrascos e abraçando-o, caiu-lhe ao lado de joelhos. Ouvi as palavras: “Meu Filho!” – “Minha Mãe!” – não sei se foram pronunciadas pelos lábios ou só no coração.
 
Houve um tumulto: João e as mulheres tentavam afastar Maria, os carrascos praguejavam e insultavam-na; um deles gritou: “Mulher, que queres aqui? Se o tivesse educado melhor, não estaria agora em nossas mãos.” Vi que alguns dos soldados estavam comovidos; eles afastaram a Santíssima Virgem, nenhum, porém, a tocou. João e as mulheres levaram-na e ela caiu de joelhos, como morta de dor, sobre a pedra angular do portão, a qual suportava o muro; estavam de costas viradas para o séqüito, apoiando-se com as mãos na parte superior da pedra inclinada, sobre a qual caíra. Era uma pedra com veias verdes; onde os joelhos de Nossa Senhora tocaram, ficaram cavidades e onde as mãos se lhe apoiaram, deixaram marcas menos profundas. Eram impressões chatas, com contornos pouco claros, semelhantes a impressões causadas por uma pancada sobre massa de farinha. Era uma pedra muito dura. Vi que no tempo do bispo Tiago o Menor essa pedra foi colocada na primeira Igreja Católica, que foi construída ao lado da piscina de Betesda.
 
Já o tenho dito várias vezes e digo-o mais uma vez, que vi em diversas ocasiões tais impressões causadas pelo contado de pessoas santas em acontecimentos de grande importância. Isso é tão certo, que há até a expressão: “Uma pedra sentir-se-ia comovida”, ou a outra: “Isso faz impresso”. A eterna Sabedoria não tinha precisão da arte da imprensa, para transmitir a posteridade testemunhos dos santos.
 
Como os soldados, armados de lanças, que marchavam aos lados do séqüito, impeliam o povo para diante, os dois discípulos que estavam com a Mãe de Jesus, reconduziram-na pelo portão, que foi fechado atrás deles.
Os carrascos tinha, no entanto, levantado Jesus aos arrancos e puseram-lhe a cruz de novo ao ombro, mas de outra maneira. Os braços da cruz, amarrados ao tronco haviam ficado um pouco soltos e um deles descera um pouco ao lado do tronco; foi esse que Jesus abraçou então, de modo que o tronco da cruz pendia atrás, mais no chão.
 
Terceira queda de Jesus sob a cruz. Simão de Cirene
 
O séqüito continuou nessa rua larga, até chegar a porta de um antigo muro da cidade interior. Diante dessa porta há uma praça, em que desembocam três ruas. Ali Jesus tinha de passar sobre outra pedra grande, mas tropeçou e caiu. A cruz tombou para o lado e Jesus, apoiando-se sobre a pedra, caiu por terra e tão enfraquecido estava, que não pode levantar-se mais. Passaram grupos de gente bem vestida, que iam ao Templo e vendo-o, exclamaram: “Coitado, o pobre homem morre!” Deu–se um tumulto; não conseguiram mais levantar Jesus e os fariseus que conduziam o cortejo, disseram aos soldados: “Não chegamos lá com ele vivo; deveis procurar um homem que lhe ajude a levar a cruz.”
 
Vinha justamente descendo pela rua do meio Simão de Cirene, um pagão, acompanhado pelos três filhinhos; transportava um feixe de ramos secos debaixo do braço. Era jardineiro e vinha dos jardins situados perto do muro oriental da cidade, onde trabalhava. Todos os anos vinha, com mulher e filhos, para a festa em Jerusalém, como muitos outros da mesma profissão, para podar as sebes. Não pode sair do caminho, porque a multidão se apinhava na rua. Os soldados, que pela roupa viam que era pagão e pobre jardineiro, apoderaram-se dele e, levando-o para onde estava Jesus, mandaram-lhe que ajudasse o Galileu a transportar a cruz.
 
Simão resistiu e mostrou muita repugnância, mas obrigaram-no a força. Os filhinhos choravam alto e algumas mulheres que conheciam o homem, levaram-nos consigo. Simão sentiu muito nojo e repugnância, vendo Jesus tão miserável e desfigurado e com a roupa tão suja e cheia de imundície. Mas Jesus, com os olhos cheios de lágrimas, olhou para Simão com olhar tão desamparado, que causava dó. Simão foi obrigado a ajudá-lo a levantar-se; os carrascos amarraram o braço da cruz mais para trás e penduraram-no, com uma volta da corda, sobre o ombro de Simão, que andava muito perto, atrás de Jesus, que deste modo não tinha mais que carregar tanto peso. Finalmente o lúgubre séqüito se pôs em movimento.
 
Simão era homem robusto, de 40 anos. Andava com a cabeça descoberta; vestia uma túnica curta, apertada e na cintura uma faixa de pano roto; as sandálias, atadas aos pés e pernas com correias, terminavam na frente em bico agudo. Os filhos vestiam túnicas listadas de várias cores; dois já eram quase moços, chamavam-se Rufo e Alexandre e juntaram-se mais tarde aos discípulos. O terceiro era ainda pequeno; vi-o ainda menino, em companhia de Santo Estevão. Simão ainda não tinha seguido muito tempo Jesus, carregando o patíbulo e já se sentia profundamente comovido.
 
Verônica e o Sudário.
 
A rua em que se movia nessa hora o séqüito, era longa, com uma leve curva para a esquerda e nela desembocavam várias ruas laterais. De todos os lados vinha gente bem vestida, que se dirigia ao Templo; ao ver os séqüito, uns se afastavam, com o receio farisaico de se contaminarem, outros manifestavam certa compaixão. Havia cerca de duzentos passos que Simão ajudava Jesus a carregar a cruz, quando uma mulher de figura lata e imponente, segurando uma menina pela mão, saiu de uma casa bonita, ao lado esquerdo da rua e que tinha um átrio cercado de muros e de um belo gradil brilhante, onde se penetrava por um terraço, com escadaria. Ela correu com a menina, ao encontro do cortejo.
 
Era Seráfia, mulher de Sirac, membro do Conselho do Templo, a qual, pela boa ação praticada nesse dia, recebeu o nome de Verônica (de vera icon: verdadeira imagem).
 
Seráfia tinha preparado em casa um delicioso vinho aromático, com o piedoso desejo de oferecê-lo como refresco a Jesus, no caminho doloroso para o suplício. Já tinha ido uma vez ao encontro do séqüito, em expectativa dolorosa; vi-a velada, segurando pela mão uma mocinha que adotara, passar ao lado do séqüito, quando Jesus se encontrou com a Santíssima Virgem. Mas, com o tumulto, não achou ocasião de aproximar-se e voltou as pressas para casa, para lá esperar o Senhor.
 
Saiu, pois, velada de casa para a rua; um pano pendia-lhe do ombro; a menina, que podia ter nove anos, estava-lhe ao lado, ocultando sob o manto o cântaro com o vinho, quando o séqüito se aproximou. Os que o precediam, tentaram em vão retê-la; ela esta fora de si de amor e compaixão. Com a menina, que se lhe segurava, pegando-lhe o vestido, atravessou a gentalha, que ia dos lados e por entre os soldados e carrascos, avançou para a frente de Jesus e, caindo de joelhos, levantou para Ele o pano, estendido de um lado, suplicando: “Permiti-me enxugar o rosto de meu Senhor.”
 
Jesus tomou o pano com a mão esquerda e apertou-o, com a palma da mão de encontro ao rosto ensangüentado; movendo depois a mão esquerda, com o pano, para junto da mão direita, que segurava a cruz, apertou-o entre as duas mãos e restituiu-lho, agradecendo; ela o beijou, escondendo-o sobre o coração, debaixo do manto e levantou-se.
 
Então a menina ofereceu timidamente o cântaro com o vinho; mas os soldados e carrascos, praguejando, impediram-na de confortar Jesus. A audácia e rapidez dessa ação provocou um ajuntamento curioso do povo e causou assim uma pausa de dois minutos apenas na marcha, o que permitiu a Seráfia oferecer o sudário a Jesus. Os fariseus a cavalo e os carrascos irritaram-se com essa demora e mais ainda com a veneração pública manifestada ao Senhor e começaram a maltratá-lo e empurrá-lo. Verônica, porém, fugiu com a menina para dentro de casa.
 
Apenas entrara no aposento, estendeu o sudário sobre a mesa e caiu por terra desmaiada; a menina, com o cântaro de vinho, ajoelhou-se-lhe ao lado, chorando. Assim as encontrou um amigo da casa, que entrara para visitar e a viu como morta, sem sentidos, ao lado do sudário estendido, no qual o rosto ensangüentado do Senhor estava impresso de um modo maravilhosamente distinto, mas também horrível. Muito assustado, fe-la voltar a si e mostrou-lhe o rosto do Senhor. Cheia de dor, mas também de consolação, Seráfia ajoelhou-se diante do sudário, exclamando: “Agora vou abandonar tudo, o Senhor deu-me uma lembrança”.
 
Esse sudário era de lã fina, cerca de três vezes mais longo do que largo. Costumava-se usar em volta do pescoço; as vezes usavam ainda outro em torno dos ombros. Era uso ir ao encontro de pessoas aflitas, cansadas, tristes ou doentes e enxugar-lhes o rosto; era sinal de luto e compaixão; nas regiões quentes também usavam dá-lo de presente. Verônica guardava esse sudário sempre a cabeceira da cama. Depois de sua morte veio ter, por intermédio das santas mulheres, as mãos da Santíssima Mãe de Deus e dos Apóstolos e depois a Igreja.
 
A quarta e quinta queda de Jesus sob a cruz. As compassivas filhas de Jerusalém
 
O séqüito estava ainda a boa distância da porta; a rua descia um pouco até lá. A porta era uma construção extensa e fortificada; passava-se primeiro por uma arcada abobadada, depois sobre uma ponte e finalmente por outra arcada. A porta ficava em direção sudoeste; ao sair dela, se via o muro da cidade estender-se para o sul, a uma distância como, por exemplo, de minha casa até a Matriz, (cerca de dois minutos de caminho); depois virava, a uma boa distância, para oeste e voltava novamente a direção do sul, fazendo a volta do Monte Sião. A direita se estendia o muro para o norte, até a porta do ângulo, dirigindo-se depois ao longo da parte setentrional de Jerusalém, para leste.
 
Quando o séqüito se aproximou da porta, impeliam-no os carrascos com mais violência. Justamente diante da porta, havia no caminho desigual e arruinado uma grande poça: os carrascos arrastavam Jesus para frente, apertavam-se uns aos outros; Simão Cireneu procurou passar ao lado da poça, pelo caminho mais cômodo; com isso deslocou-se a cruz e Jesus caiu pela quarta vez sob a cruz e tão duramente, no meio do lodaçal, que Simão quase não pode segurar a cruz, Jesus exclamou em voz fina, fraca e contudo alto: “Ai de ti! Ai de ti! Jerusalém” Quando te tenho amado! Como uma galinha, que esconde os pintinhos sob as asas, assim queria reunir os teus filhos e tu me arrastas tão cruelmente para fora de tuas portas.”
 
– O Senhor disse essas palavras com profunda tristeza, mas os fariseus, virando-se para ele, insultaram-no, dizendo: “Este perturbador do sossego público ainda não acabou; ainda tem a língua solta?” e outras zombarias semelhantes. Espancaram e empurraram Jesus, arrastando-o para fora do lodaçal, para o levantar. Simão Cireneu ficou tão indignado com as crueldades dos carrascos, que gritou: “Se não acabardes com esta infâmia, jogarei a cruz no chão e não a carregarei mais, mesmo que me mateis também.”
 
Logo depois de passar a porta, separa-se da estrada, do lado direito, um caminho estreito e áspero que, dirigindo-se para o norte, conduz em poucos minutos ao monte Calvário. A estrada grande ramifica-se, a pouca distância dali, em três direções: a esquerda, para sudoeste, pelo vale Gihon, em direção a Belém; para oeste, em direção a Emaús e Jope e para noroeste, rodeando o monte Calvário, em direção a porta Angular, que conduz a Betur.
 
Olhando da porta pela qual Jesus saiu, a esquerda, para sudoeste, pode-se ver a porta de Belém. Essas duas portas são, entre as porta de Jerusalém, as menos distantes. No meio da estrada, fora da porta, donde parte o caminho para o monte Calvário, havia uma estaca, com uma tabuleta pregada, na qual estavam escritas as sentenças de morte proferidas contra Jesus e os ladrões, escritas em letras brancas salientes, que pareciam coladas sobre a tabuleta.
 
Não longe daí, na esquina do caminho de Gólgota, estava um numeroso grupo de mulheres, a chorar e lamentar. Em parte eram moças e mulheres pobres, com crianças, vindas de Jerusalém, que se tinham adiantado ao séqüito; em parte mulheres vindas de Belém, Hebron e outros lugares circunvizinhos, que tinham chegado para a festa e se juntaram aquelas mulheres.
 
Jesus não caiu ali inteiramente por terra; ia caindo como quem desmaia, de modo que Simão por a extremidade da cruz no chão e, aproximando-se de Jesus, segurou-o. O Senhor encostou-se em Simão. Essa foi a quinta queda do Salvador sob a cruz. As mulheres e moças, ao verem Jesus tão desfigurado e ensangüentado, começaram a chorar e lamentar alto, oferecendo-lhe os sudários, segundo o costume entre os judeus, para que enxugasse o rosto. Jesus virou-se-lhes e disse: “Filhas de Jerusalém, (isso significa também: filhas de Jerusalém e cidades vizinhas), não choreis por mim, mas chorai por vós e vossos filhos; porque sabei que virá tempo e quem se dirá: “Ditosas as que são estéreis e ditosos os ventres que não geraram e ditosos os peitos que não deram de mamar”.
 
– Então começarão os homens a dizer aos montes: “Caí sobre nós!” e aos outeiros: “Cobri-nos”. Porque, se isto se faz no lenho verde, que se fará no seco?” ainda lhes disse outras belas palavras, as quais, porém, esqueci; entre outras disse que aquelas lágrimas lhes seriam recompensadas, que doravante deviam seguir outros caminhos, etc.
 
Houve ali uma pausa, pois o séqüito parou por algum tempo. Aqueles que levavam os instrumentos do suplício, continuaram o caminho para o Calvário; seguiam-se depois cem soldados do destacamento de Pilatos, o qual tinha acompanhado o cortejo até ali, mas chegado a porta da cidade, voltara para o palácio.
 
Jesus no Monte Gólgota. Sexta e sétima queda de Jesus e seu encarceramento
 
O séqüito pôs-se novamente em caminho. Jesus, curvado sob a cruz, impelido a empurrões e golpes, arrastado pelas cordas, subiu penosamente o áspero caminho que segue para o norte, entre o monte Calvário e os muros da cidade; depois, no alto, se volta o caminho tortuoso outra vez para o sul. Lá caiu Jesus, tão enfraquecido, pela sexta vez, foi uma queda dura e a cruz, ao cair, ainda mais o feriu. Os carrascos, porém, espancaram e impeliram-no com mais brutalidade do que antes, até que Jesus chegou ao cume, no penedo do Gólgota e ali caiu novamente com a cruz por terra, pela sétima vez.
 
Simão Cirineu, também maltratado e cansado, estava cheio de indignação e compaixão; quis ajudar Jesus a levantar-se, mas os carrascos, aos empurrões e insultos, fizeram-no voltar pelo caminho, morro abaixo; pouco depois se associou aos discípulos do Mestre Divino. Também os outros que trouxeram os instrumentos ou seguiram o cortejo e de que os carrascos não precisavam mais, foram enxotados do cume. Os fariseus a cavalo subiram o monte Calvário por outros caminhos, mais cômodos, do lado oeste. Do cume se avistam justamente os muros da cidade.
 
A face superior, o lugar do suplício, tem a forma circular e caberia bem no largo diante da nossa Matriz; é do tamanho de um bom picadeiro e cercado de um aterro baixo, cortado por cinco caminhos. Essa disposição de cinco caminhos encontra-se em quase todos os lugares do país, em lugares de banhos públicos ou de batismo, como na piscina Betesda; muitas cidades também têm cinco portas. Essa disposição acha-se em todas as construções dos tempos antigos e também em mais modernos e assim foram feitas em atenção as antigas tradições. Como em todas as coisas da Terra Santa, há também nisso um profundo sentido profético, cumprido nesse dia, em que se abriram os cinco caminhos de toda a salvação, as cinco sagradas Chagas de Jesus.
 
Os fariseus a cavalo pararam fora do círculo, no lado oriental do monte, onde o declive é mais suave; o lado que dá para a cidade e por onde eram conduzidos os condenados, é escarpado e íngreme. Estavam ali também cem soldados romanos, nativos das fronteiras entre a Itália e a Suíça, que estavam distribuídos em parte em vários lugares da execução. Alguns ficaram com os dois ladrões, que, por falta de lugar no cume, não tinham levado para cima, mas fizeram deitar de costas, com os braços amarrados aos madeiros transversais das cruzes, na encostas do monte, um pouco abaixo do cume, onde o caminho vira para o sul.
 
Muita gente, na maior parte das classes baixas, estrangeiros, servos, escravos, pagãos e muitas mulheres, gente que não se importava de contaminar-se, juntavam-se em redor do largo do cume ou formavam grupos, cada vez mais numerosos, nas alturas circunvizinhas, acrescidos de gente que se dirigia a cidade. Para oeste, ao pé do monte Gihon, havia um grande acampamento de forasteiros, vindos para a festa da Páscoa; muitos ficavam olhando de longe, outros se aproximavam pouco a pouco.
 
Eram cerca de onze horas e três quartos, quando Jesus arrastado com a cruz para o lugar do suplício, caiu por terra e Simão foi expulso de lá. Os carrascos levantaram o Salvador aos arrancos das cordas e desligaram os madeiros da cruz, jogando-os no chão, um em cima do outro. Ai! Que aspecto terrível apresentava Jesus, em pé no lugar do suplício, abatido, triste, coberto de feridas, ensangüentado, pálido. Os carrascos deitaram-no brutalmente por terra, dizendo em tom de mofa (gozação): “Ó rei dos judeus, devemos tomar medida de teu trono?”
 
Mas Jesus deitou-se de livre vontade sobre a cruz e se a fraqueza lho tivesse permitido, os carrascos não teriam tido necessidade de jogá-lo por terra. Estenderam-no sobre a cruz e marcaram nesta os lugares das mãos e dos pés, enquanto os fariseus em redor riam e insultavam o Divino Salvador.
 
Levantando-o novamente, conduziram-no amarrado uns setenta passos ao norte, descendo a encosta do monte Calvário, a uma fossa cavada na rocha, que parecia uma cisterna ou adega; levantando o alçapão, empurraram-no para dentro tão brutalmente, que se não fosse por auxílio divino, teria chegado ao fundo duro da rocha com os joelhos esmagados. Ouvi-lhes os gemidos altos e agudos.
 
Fecharam o alçapão e deixaram uma guarda. Segui-o nesses setenta passos; parece-me lembrar ainda de uma revelação sobrenatural de que os anjos o socorreram, para que não esmagasse os joelhos; mas a pobre vítima gemia e chorava de modo que cortava o coração. A rocha amoleceu, ao contado dos joelhos sagrados do Redentor.
 
 
Os carrascos começaram então os preparativos. Havia no centro do largo do suplício uma elevação circular, de talvez dois pés de altura, para a qual se tinham de subir alguns degraus: era o ponto mais alto do penedo do Calvário. Nesse cume estavam cavando a cinzel os buracos nos quais as três cruzes deviam ser plantadas; já tinham tomado medida para isso na extremidade inferior das cruzes.
 
Colocaram os troncos das cruzes dos ladrões à direita e a esquerda, sobre essa elevação; esses lenhos eram toscamente aparados e mais baixos do que a cruz de Jesus; em cima haviam sido cortados obliquamente. Os madeiros transversais, aos quais os ladrões ainda estavam amarrados, foram depois ajustados um pouco abaixo da extremidade superior dos troncos.
 
Os carrascos colocaram então a cruz de Nosso Senhor no lugar onde o queriam pregar, de modo que a pudessem comodamente levantar e fazer entrar na escavação. Encaixaram os dois braços da cruz no tronco, pregaram a peça de madeira para os pés, abriram com uma verruma os furos para os cravos e para o prego do título, fincaram a martelo as cunhas sob os braços da cruz e fizeram cá e lá algumas cavidades no tronco da cruz, para dar espaço para a coroa de espinhos e as costas, de modo que o corpo ficasse mais suportado pelos pés do que pendurado pelas mãos, que podiam rasgar-se com o peso do corpo e para que Jesus sofresse o martírio.
 
Ainda fincaram em cima por um madeiro transversal, para servir de apoio as cordas, com as quais queriam puxar e elevar a cruz e fizeram ainda outros preparativos semelhantes.
 
Maria e as amigas vão ao Calvário.
 
Depois do doloroso encontro da SS. Virgem com o Divino Filho, carregando a cruz, quando Maria caiu sem sentidos sobre a pedra angular, Joana Chusa, Suzana e Salomé de Jerusalém, com auxílio de João e do sobrinho de José de Arimatéia, conduziram-na para dentro da casa, impelidos pelos soldados e o portão foi fechado, separando-a do Filho bem-amado, carregado do peso da cruz e cruelmente maltratado.
 
O amor e o ardente desejo de estar com o Filho, de sofrer tudo com ele e de não o abandonar até o fim, davam-lhe uma força sobrenatural. As companheiras foram com ele a casa de Lázaro, na proximidade da porta Angular, onde estavam reunidas as outras santas mulheres, com Madalena e Marta, chorando e lamentando-se; com elas estavam também algumas crianças. De lá saíram em número de 17, seguindo o caminho doloroso de Jesus.
 
Vi-as todas, sérias e decididas; não se importavam com os insultos da gentalha, mas impunham respeito pela sua tristeza; passaram pelo fórum, a cabeça coberta pelos véus; no ponto onde Jesus tomara ao ombro a cruz, beijaram a terra; depois seguiram todo o caminho da Paixão de Jesus, venerando todos os lugares onde ele mais sofrera.
 
Maria e as que eram mais inspiradas, procuravam seguir as pegadas de Jesus e a SS. Virgem, sentindo e vendo-lhes tudo na alma, guiava-as onde deviam parar e quando deviam prosseguir nessa via sacra. Todos esses lugares se lhe imprimiram vivamente na alma; ela contava até os passos e mostrava as companheiras os santos lugares.
 
Desse modo a primeira e mais tocante devoção da Igreja foi escrita no coração amoroso de Maria, Mãe de Deus; escrita pela espada profetizada por Simeão; os santos lábios da Virgem transmitiram-na aos companheiros do sofrimento e por esses a nós. Esta é a santa tradição vinda de Deus ao coração da Mãe Santíssima e do coração da Mãe aos corações dos filhos; assim continua sempre a tradição na Igreja.
 
Quando se vem as coisas como as vejo, parece este modo de transmissão mais vivo e mais santo. Os judeus de todos os tempos sempre veneraram os lugares consagrados por uma ação santa ou por um acontecimento de saudosa memória. Eles não esquecem um lugar onde se deu uma coisa sobrenatural: marcam-no com monumento de pedras e vão em peregrinação para rezar. Assim também nasceu a devoção da Via Sacra, não por uma intenção premeditada, mas da natureza dos homens e das intenções de Deus para com seu povo, do fiel amor de uma mãe, e, por assim dizer, sob os pés de Jesus, que foi o primeiro que a trilhou.
 
Chegou então esse piedoso grupo á casa de Verônica, onde entraram, porque Pilatos com os cavaleiros e os duzentos soldados, voltando da porta da cidade, lhes vinham ao encontro. Ali Maria e os companheiros viram o sudário, com a imagem do rosto de Jesus e entre lágrimas e suspiros, exaltaram a misericórdia de Jesus para com sua fiel amiga.
 
Levaram o cântaro com o vinho aromático, com que Verônica não conseguira confortar Jesus e dirigiram-se todos, com Verônica, à porta do Gólgota. No caminho se lhes juntaram ainda muitas pessoas bem intencionadas e outras comovidas pelos acontecimentos, entre as quais também certo número de homens, formando um cortejo que, pela ordem e serenidade com que passou pelas ruas, me fez uma singular impressão. Esse cortejo era quase maior do que aquele que conduziu a Jesus, não contando o povo que o acompanhou.
 
As angústias e dores aflitivas de Maria nesse caminho, ao ver o lugar do suplício, com as cruzes no alto, não se podem exprimir em palavras; a alma amantíssima da Virgem sentia os sofrimentos de Jesus e era ainda torturada pelo sentimento de não poder segui-Lo na morte. Madalena, toda transtornada e como embriagada de dor, andava cambaleando, como que arremessada de angústia em angústia; passava do silêncio ás lamentações, do estupor ao desespero, das lamentações às ameaças. Os companheiros eram obrigados a sustê-la, a protegê-la, a exortá-la e a escondê-la da vista dos curiosos.
 
Subiram o monte Calvário pelo lado mais suave, ao oeste e aproximaram-se em três grupos do aterro circular do cume, a certa distância, um atrás do outro. A Mãe de Jesus, a sobrinha desta, Maria de Cléofas, Salomé e João avançaram até o lugar do suplicio; Marta, Maria Helí, Verônica, Joana Chusa, Suzana e Maria, mãe de Marcos, ficaram um pouco afastadas, rodeando Maria Madalena, que não podia conter a dor. Um pouco mais atrás estavam ainda sete pessoas e entre os três grupos havia gente boa, que mantinha uma certa comunicação entre eles. Os fariseus a cavalo estavam em diversos lugares em redor do local do suplicio, enquanto os soldados romanos ocupavam as cinco entradas.
 
Que espetáculo doloroso para Maria: o lugar do suplicio, o cume com as cruzes, a terrível cruz do Filho adorado e diante dela, no chão, os martelos, as cordas, os horrendos pregos e os repelentes carrascos, meio uns, quase embriagados, fazendo o horroroso trabalho entre imprecações. Os troncos das cruzes dos ladrões já estavam arvorados, munidos de paus encaixados para subir. A ausência de Jesus ainda prolongava o martírio da Mãe Santíssima; ela sabia que ainda estava vivo; desejava vê-lo, tremia ao pensar em que estado O veria; ia vê-Lo em indizíveis tormentos.
 
Desde a madrugada até as dez horas, quando foi pronunciada a sentença, caíra várias vezes chuva de pedra; durante o caminho de Jesus ao Calvário clareou o céu e brilhava o sol; mas pelas doze horas começou uma neblina avermelhada a velar o sol.
 
Crucificação e morte de Jesus.
 
Os carrascos despem Jesus para a crucificação e oferecem-Lhe vinagre.
 
Dirigiram-se então quatro carrascos à masmorra subterrânea, situada a setenta passos ao norte; Jesus rezava todo o tempo a Deus, pedindo força e paciência e oferecendo-se mais uma vez em sacrifício expiatório, pelos pecados dos inimigos. Os carrascos arrancaram-nO para fora e, empurrando, batendo e insultando-O, levaram-nO para o suplício. O povo olhava e insultava; os soldados, frios e altivos, mantinham a ordem, dando-se ares de importância; os carrascos, cheios de raiva sanguinária, arrastaram Jesus brutalmente para o largo do suplício.
 
Quando as santas mulheres viram Jesus chegar, deram dinheiro a um homem, que o devia levar, junto com vinho aromático, aos carrascos, para que esses o descem a Jesus a beber. Mas esses criminosos não Lho deram, mas beberam-no depois. Tinham lá dois vasos de cor parda, dos quais um continha vinagre misturado com fel e o outro uma espécie de vinagre, que afirmavam ser vinho, com mirra e absinto; dessa bebida ofereceram um copo pardo, a Jesus, que apenas o provou, tocando-o com os lábios, mas não bebeu.
 
Estavam no lugar do suplício dezoito carrascos; os seis que O tinham açoitado, quatro que O conduziram, dois que suspenderam a extremidade da cruz pelas cordas e seis que O deviam crucificar. Parte deles estavam ocupados com Jesus, outros com os ladrões, trabalhando e bebendo alternadamente. Eram homens baixos, robustos, sujos e meio nus, de feições estranhas, cabelo eriçado, barba rala: homens abomináveis e bestiais. Serviam a judeus e romanos por dinheiro.
 
O aspecto de tudo isso era mais terrível ainda, porque eu vi o mal, em figuras visíveis para mim e invisíveis para os outros. Via grandes e hediondas figuras de demônios, agindo entre todos esses homens cruéis; era como se auxiliassem em tudo, aconselhando, passando as ferramentas; havia inúmeras aparições de figuras pequenas e medonhas, de sapos, serpentes e dragões de muitas garras, vi todas as espécies de insetos venenosos voarem em redor e escurecerem o ar.
 
Entravam na boca e no coração dos assistentes ou pousavam-lhes nos ombros; eram homens cujos corações estavam cheios de pensamentos de ódio e maldade ou que proferiam palavras de maldição e escárnio. Acima do Senhor, porém, vi várias vezes, durante a crucifixão, aparecerem grandes figuras angélicas, que choravam e aparições luminosas, nas quais distingui apenas pequenos rostos. Vi aparecer tais Anjos de compaixão e consolo também sobre a Santíssima Virgem e todos os bons, confortando e animando-os.
 
Os carrascos tiraram então o manto do Senhor, que lhe tinha antes enrolado em redor do peito; tiraram-Lhe o cinturão, com as cordas e o próprio cinto. Despiram-nO da longa veste de lã branca, passando-a pela cabeça, pois estava aberta no peito, ligada com correias. Depois lhe tiraram a longa faixa estreita, que caia do pescoço sobre os ombros e como não Lhe podiam tirar a túnica sem costuras, por causa da coroa de espinhos, arrancaram-Lhe a coroa da cabeça, reabrindo assim todas as feridas; arregaçando depois a túnica, puxaram-lha, com vis gracejos, pela cabeça ferida e sangrenta.
 
Lá estava o Filho do Homem, coberto de sangue, de contusões, de feridas fechadas ou outras ainda sangrentas, de pisaduras e manchas escuras. Estava apenas vestido ainda do curto escapulário de lã sobre o peito e costas e da faixa que cingia os rins. O escapulário de lã aderira às feridas secas e estava colado com sangue na nova ferida profunda, que o peso da cruz Lhe fizera no ombro e que Lhe causava um sofrimento indizível.
 
Os carrascos arrancaram-lhe o escapulário impiedosamente do peito e assim ficou Jesus em sangrenta nudez, horrivelmente dilacerado e inchado, coberto de chagas. No ombro e nas costas se Lhe viam os osso, através das feridas e a lã branca do escapulário ainda estava colada em algumas feridas e no sangue ressecado do peito.
 
Arrancaram-Lhe então a última faixa de pano da cintura e eis que ficou de todo nu e curvou-se, cheio de confusão e vergonha; e como estava a ponto de cair, sob as mãos dos carrascos, sentaram-nO sobre uma pedra, pondo-Lhe novamente a coroa de espinhos sobre a cabeça e ofereceram-Lhe a beber do outro vaso, que continha vinagre com fel; mas Jesus desviou a cabeça em silêncio.
 
Quando, porém, os carrascos O pegaram pelos braços, com que cobria a nudez e O levantaram, para estendê-Lo sobre a cruz, ouviram-se gritos de indignação e descontentamento e os lamentos dos amigos por essa vergonha e ignomínia.
 
 A Mãe Santíssima suplicou a Deus com ardor; já estava a ponto de tirar o véu da cabeça e, abrindo caminho por entre os carrascos, oferecê-lo ao Divino Filho. Mas Deus ouvira-lhe a oração; pois nesse momento um homem, vindo da porta e correndo todo o caminho com as vestes arregaçadas, atravessou o povo e precipitou-se ofegante entre os carrascos e entregou um pano a Jesus que, agradecendo-lhe, o aceitou e cobriu a nudez, cingindo-O à moda dos orientais, passando a parte mais comprida por entre as pernas e ligando-a com a outra em redor da cintura.Esse benfeitor do Divino Redentor, enviado para atender à súplica da SS. Virgem, tinha na sua impetuosidade algo de imperioso; ameaçou os carrascos com o punho e disse apenas: “Tomem cuidado de não impedir este homem de cobrir-se”. Não falou com ninguém mais e retirou-se tão rapidamente como tinha vindo.
 
Era Jonadab, sobrinho de São José, da região de Belém, filho daquele irmão a quem José, depois do nascimento de Jesus, empenhara o jumento. Não era amigo declarado de Jesus; também nesse dia se tinha mantido afastado e limitara-se observar tudo de longe. Já quando ouvira contar que Jesus fora despido na flagelação, ficara muito indignado; depois, quando se aproximou a hora da crucificação, estava no Templo e sentia uma indizível angústia.
 
Quando a Mãe de Jesus, no Gólgota, dirigiu o grito da alma a Deus, sentiu Jonadab de repente um impulso irresistível de correr do Tempo ao Calvário para cobrir a nudez do Senhor. Sentia na alma uma viva indignação contra o ato ignominioso de Cam, que rira da nudez de Noé, embriagado pelo vinho e sentiu-se impelido a correr, como um novo Sem, para cobrir a nudez do lagareiro. Os crucificadores eram os Camitas e Jesus pisava as uvas no lagar, para o vinho novo, quando Jonadab veio cobri-lo. Essa ação foi mais tarde recompensada, como vi e hei de contar.
 
Jesus é pregado na cruz.
 
Jesus, imagem viva da dor, foi estendido pelos carrascos sobre a cruz; Ele próprio se sentou sobre ela e eles brutalmente O deitaram de costas. Colocaram-Lhe a mão direita sobre o orifício do prego, no braço direito da cruz e aí lhe amarraram o braço. Um deles se ajoelhou sobre o santo peito, enquanto outro lhe segurava a mão, que se estava contraindo e um terceiro colocou o cravo grosso e comprido, com a ponta limada, sobre essa mão cheia de bênção e cravou-o nela, com violentas pancadas de um martelo de ferro. Doces, e claros gemidos ouviram-se da boca do Senhor; o sangue sagrado salpicou os braços dos carrascos; rasgaram-Lhe os tendões da mão, os quais foram arrastados, com o prego triangular, para dentro do estreito orifício. Contei as marteladas, mas esqueci, na minha dor, esse número. A Santíssima Virgem gemia baixinho e parecia estar sem sentidos exteriormente; Madalena estava desnorteada.
 
As verrumas eram grandes peças de ferro, da foram de um T; não havia nela nada de madeira. Também os pesados martelos eram, como os cabos, de ferro e todos de uma peça inteiriça; tinham quase a forma dos martelos de pau que os marceneiros usam entre nós, trabalhando com formão.
 
Os cravos, cujo aspecto fizera tremer Jesus, eram de tal tamanho que, seguros pelo punho, excediam em baixo e em cima cerca de uma polegada. Tinham cabeça chata, da largura de uma moeda de cobre, com uma elevação cônica no meio. Tinham três gumes; na parte superior tinham a grossura de um polegar e na parte inferior a de um dedo pequeno; a ponta fora aguçada com uma lima; cravados na cruz, vi-lhes a ponta sair um pouco do outro lado dos braços da cruz.
 
Depois de terem pregado a mão direita de Nosso Senhor, viram os crucificadores que a mão esquerda, que tinham também amarrado ao braço da cruz, não chegava até o orifício do cravo, que tinham perfurado a duas polegadas distante das pontas dos dedos. Por isso ataram uma corda ao braço esquerdo do Salvador e, apoiando os pés sobre a cruz, puxaram a toda força, até que a mão chegou ao orifício do cravo. Jesus dava gemidos tocantes; pois deslocaram-Lhe inteiramente os braços das articulações; os ombros, violentamente distendidos, formavam grandes cavidades axilares, nos cotovelos se viam as junturas dos ossos.
 
O peito levantou-se-Lhe e as pernas encolheram-se sobre o corpo. Os carrascos ajoelharam-se sobre os braços e o peito, amarram-lhe fortemente os braços e cravaram-Lhe então cruelmente o segundo prego na mão esquerda; jorrou alto o sangue e ouviram-se os agudos gemidos de Jesus, por entre as pancadas do pesado martelo. Os braços do Senhor estavam tão distendidos, que formavam uma linha reta e não cobriam mais os braços da cruz, que subiam em linha obliqua; ficava um espaço livre entre esses e as axilas do Divino Mártir.
 
A SS. Virgem sentiu todas essas torturas com Jesus; estava de uma palidez cadavérica e fracos gemidos saiam-lhe da boca. Os fariseus dirigiram insultos e zombarias para o lado onde ela estava; por isso os amigos conduziram-na para junto das outras santas mulheres, que estavam um pouco mais afastadas do lugar do suplício. Madalena estava como louca; feria o rosto de modo que tinha as faces e os olhos cheios de sangue.
 
Havia na cruz, em baixo, talvez a um terço da respectiva altura, uma peça de madeira, fixa por um prego muito grande, destinada a suportar os pés de Jesus, afim de que ficasse mais em pé do que suspenso; de outro modo as mãos teriam sido rasgadas pelo peso do corpo e os pés não poderiam ser pregados sem quebrá-los. Nessa peça de madeira tinham perfurado o orifício para o cravo. Tinham também feito uma cavidade para os calcanhares, como também havia outras, em vários pontos da cruz, para que o Mártir pudesse ficar suspenso mais tempo e o peso do corpo não Lhe rasgasse as mãos, fazendo-O cair.
 
Todo o corpo de nosso Salvador tinha-se contraído para o alto da cruz, pela violenta extensão dos braços e os joelhos tinham-se-Lhe dobrado. Os carrascos lançaram-se então sobre esses e, por meio de cordas, amarraram-nos ao tronco da cruz; mas pela posição errada dos orifícios dos cravos, os pés ficavam longe da peça de madeira que os devia suportar. Então começaram os carrascos a praguejar e insultar. Alguns julgavam que se deviam furar outros orifícios para os pregos das mãos; pois mudar o suporte dos pés era difícil. Outros fizeram horrível troça de Jesus: “Ele não quer estender-se, disseram, mas nós Lhe ajudaremos”.
Atando cordas à perna direita, puxaram-na com horrível violência, até o pé tocar no suporte e amarraram-na à cruz. Foi uma deslocação tão horrível, que se ouvia estalar o peito de Jesus, que gemia alto: “Ó meu Deus! Meu Deus!” Tinham-Lhe amarrado também o peito e os braços, para os pregos não rasgarem as mãos; o ventre encolheu-se-Lhe inteiramente, as costelas pareciam a ponto de destacar-se do esterno. Foi uma tortura horrorosa.
 
Amarraram depois o pé esquerdo com a mesma brutal violência, colocando-o sobre o pé direito e como os pés não repousavam com bastante firmeza sobre o suporte, para serem pregados juntos, perfuraram primeiro o peito do pé esquerdo com um prego mais fino e de cabeça mais chata do que os cravos, como se fura a sovela. Feito isso, tomaram o cravo mais comprido que o das mãos, o mais horrível de todos e, passando-o brutalmente pelo furo feito no pé esquerdo, atravessaram-lhe a marteladas o direito, cujos ossos estalavam, até o cravo entrar no orifício do suporte e, através desse, no tronco da cruz. Olhando de lado a cruz, vi como o prego atravessou os dois pés.
 
Essa tortura era a mais dolorosa de todas, por causa da distensão de todo o corpo. Contei 36 golpes de martelo, no meio dos gemidos claros e penetrantes do pobre Salvador; as vozes em redor, que proferiam insultos e maldições, pareciam-me sombrias e sinistras.
 
A Santíssima Virgem tinha voltado ao lugar do suplício; a deslocação do corpo do Filho adorado, o som das marteladas e os gemidos de Jesus, causaram-lhe tão veemente dor e compaixão, que caiu novamente nos braços das companheiras, o que provocou um ajuntamento de povo.
 
Então acorreram alguns fariseus a cavalo, insultando-as e os amigos afastaram-na outra vez a alguma distância. Durante a crucifixão e a elevação da cruz, que se lhe seguiu, se ouviam, especialmente entre as mulheres, gritos de compaixão, como: “Porque a terra não traga esses miseráveis? Porque não cai fogo do céu, para os devorar?” - A essas manifestações de amor respondiam os carrascos com insultos e escárnio.
 
Os gemidos que a dor arrancava de Jesus, misturavam-se com contínua oração; recitava trechos dos salmos e dos profetas, cujas predições nessa hora cumpria; em todo o caminho da cruz, até à morte, não cessava de rezar assim e de cumprir as profecias. Ouvi e rezei com Ele todas essas passagens e às vezes me lembro delas, quando rezo os salmos; mas fiquei tão acabrunhada com o martírio de meu Esposo celeste, que não sei mais juntá-las. – Durante esse horrível suplício, vi Anjos a chorar aparecerem acima de Jesus.
 
O comandante da guarda romana fizera pregar no alto da cruz a tábua, como título que Pilatos escrevera. Os fariseus estavam indignados porque os romanos se riam alto do título “Rei dos judeus”. Por isso voltaram alguns fariseus à cidade, depois de ter tomado medida para uma outra inscrição, para pedir a Pilatos novamente outro título.
 
Enquanto Jesus era pregado à cruz, estavam ainda alguns homens a trabalhar na escavação em que a cruz devia ser colocada; pois era estreita a cova e a rocha muito dura. Alguns dos carrascos, em vez de dar a Jesus para beber o vinho aromático trazido pelas santas mulheres, beberam-no eles mesmos e ficaram embriagados; queimava-lhe as entranhas e causava-lhes tanta dor nos intestinos, que ficaram desvairados; insultavam a Jesus, chamando-O de feiticeiro e enfureciam-se à vista da paciência do Divino Mestre; desceram várias vezes o Calvário, a correr, para beber leite de jumenta. Havia lá perto algumas mulheres, que pertenciam a um acampamento de peregrinos, vindos para a festa da Páscoa, as quais tinham jumentas, cujo leite vendiam.
 
Pela posição do sol era cerca de doze horas e um quarto, quando Jesus foi crucificado. No momento em que elevaram a cruz, ouviu-se do Templo o soar de muitas trombetas: Era a hora em que imolavam o cordeiro pascal.
 
Elevação da cruz.
 
Depois de terem pregado Nosso Senhor à cruz, ataram cordas na parte superior da mesma, por meio de argolas, lançaram as cordas sobre o cavalete antes erigido no lado oposto e puxaram a cruz pelas cordas, de modo que a parte superior se lhe ergueu; alguns dirigiram-se com paus munidos de ganchos, que fincaram no tronco e fizeram o pé da cruz entrar na cova. Quando o madeiro chegou à posição vertical, entrou na escavação com todo o peso e tocou no fundo com um terrível choque. A cruz tremeu do abalo e Jesus soltou um grito de dor; pelo peso vertical desceu-lhe o corpo, as feridas alargaram-se-Lhe, o sangue corria mais abundantemente e os ossos deslocados entrechocaram-se. Os carrascos ainda sacudiram a cruz, para a por mais firme e fincaram cinco cunhas na nova, em redor da cruz: uma na frente, uma do lado direito, outra do lado esquerdo e duas atrás, onde o madeiro estava um pouco arredondado.
 
Foi uma impressão terrível e ao mesmo tempo comovedora, quando, sob os gritos insultuosos dos carrascos e dos fariseus, como também de muitos homens do povo, mais afastados, a cruz se elevou, balançando e entrou estremecendo na escavação; ouviram-se também vozes piedosas de compaixão, as vozes mais santas da terra: a da Mãe Santíssima, de João, das amigas e de todos que tinham um coração puro, saudaram com expressão dolorosa o Verbo eterno, feito carne e elevado sobre a cruz. Estenderam as mãos ansiosamente como para o segurar, quando o Santo dos santos, o Esposo de todas as Almas, pregado vivo na cruz, foi elevado pelas mãos dos pecadores enfurecidos.
 
Quando, porém, o madeiro erguido com estrondo, entrou na respectiva cova, houve um momento de silêncio solene; todo o mundo parecia experimentar uma sensação nova, nunca até então sentida. O próprio inferno sentiu assustado o choque do lenho sobre a rocha e levantou-se contra ele, redobrando nos seus instrumentos humanos o seu furor e os insultos. Nas almas do purgatório e do limbo, porém, causou alegria e esperança: soava-lhes como o bater do triunfador às portas da Redenção. A santa Cruz estava pela primeira vez plantada no meio da terra, como aquela árvore da vida no Paraíso e das chagas dilatadas do Cristo corriam quatro rios santos sobre a terra, para expiar a maldição, que pesava sobre ela e para fertilizar e a tornar um paraíso do novo Adão.
 
Quando o nosso Salvador foi elevado na cruz e os gritos de insulto foram interrompidos por alguns minutos de silencioso espanto, ouvia-se do Templo o som de muitas trombetas, que anunciavam o começo da imolação do cordeiro pascal, do símbolo, interrompendo de um modo solene e significativo os gritos de furor e de dor, em redor do verdadeiro Cordeiro de Deus, imolado na cruz. Muitos corações endurecidos foram abalados e pensaram nas palavras do precursor, João Batista: “Eis aí o Cordeiro de Deus, que tomou sobre si os pecados do mundo”.
 
O lugar onde fora plantada a cruz, estava elevado cerca de dois pés acima do terreno em redor. Quando a cruz ainda se achava fora da cova, estavam os pés de Jesus à altura de um homem, mas depois de introduzida na respectiva escavação, podiam os amigos chegar aos pés do Mestre, para os abraçar e beijar. Havia um caminho para essa elevação. O rosto de Jesus estava virado para nordeste.
 
A crucificação dos ladrões.
 
Durante a crucifixão do Senhor jaziam os ladrões, de costas, com as mãos ainda amarradas aos madeiros transversais das cruzes, que tinham sobre a nuca, ao lado do caminho, na encosta oriental do Calvário; estava com eles na guarda. Suspeitos de terem assassinado uma mulher judaica, com os filhos, no caminho de Jerusalém a Jope, foram presos num castelo daquela região, onde morava às vezes Pilatos, por ocasião das manobras do exército e onde se apresentaram como ricos negociantes. Tinham estado muito tempo no cárcere, antes do julgamento e da condenação. Esqueci os pormenores. O ladrão do lado esquerdo era o mais velho e grande criminoso, o sedutor e mestre do outro. Geralmente são chamados Dimas e Gesmas; esqueci-lhes os nomes verdadeiros; vou chamar, por isso, ao bom Dimas e ao mau Gesmas.
 
Ambos pertenciam à quadrilha de salteadores que, nas fronteiras do Egito, tinham dado agasalho à Sagrada Família, com o menino Jesus, na fuga para o Egito. Dimas fora o menino morfético que, a conselho de Maria, fora lavado pela mãe na água em que o menino Jesus se tinha banhado e que ficara curado no mesmo instante. A caridade e a proteção que a mãe proporcionara à Sagrada Família, fora recompensada naquela ocasião pela cura simbólica, que se realizou na cruz, quando foi limpo pelo sangue de Jesus. Dimas caíra em muitos crimes, mas não era perverso; não conhecia Jesus, a paciência do Senhor comoveu-o.
 
Enquanto jaziam por terra, falava sem cessar de Jesus com o companheiro: “Maltratam horrivelmente este Galileu, dizia, o que Ele fez, pregando a nova doutrina, deve se pior do que os nossos crimes; mas Ele tem grande paciência e poder sobre todos os homens”. – Gesmas respondeu: “Que poder tem? Se fosse tão poderoso, como dizem, podia salvar-nos todos”. Desse modo continuavam a falar e quando a cruz do Senhor foi elevada, vieram carrascos dizer-lhes: “Agora é a vossa vez” e arrastaram-nos para o lugar do suplício. Desamarraram-nos dos madeiros transversais a toda a pressa, pois o sol já se escurecia e havia um movimento na natureza: como se uma tempestade se aproximasse.
 
Os carrascos encostaram escadas às árvores das cruzes e ajustaram os lenhos transversais em cima, com cavilhas. No entanto deram a beber aos ladrões vinagre misturado com mirra e vestiram-lhe o gibão já roto, ataram-lhes cordas nos braços e lançando-as sobre os braços da cruz, puxaram-nos para cima, obrigando-os, a pancadas e pauladas, a subir pelos paus que estavam fincados no tronco das cruzes. Nos madeiros transversais e nos troncos já estavam amarradas as cordas, que pareciam ser feitas de cortiça torcida.
 
Os braços dos condenados foram amarrados aos madeiros transversais; ataram-lhes os pulsos e cotovelos, como também os joelhos e os pés à cruz e apertaram-nos com tanta violência, torcendo as cordas por meio de paus, que os ossos estalavam e o sangue lhes esguichou dos músculos. Os infelizes soltaram gritos horríveis e Deimas, o bom ladrão, disse: “Se nos tivésseis tratado como a este Galileu, não teríeis mais o trabalho de puxar-nos aqui para cima”.
 
Os carrascos tiram à sorte as vestes de Jesus.
 
Os carrascos juntaram as vestes de Jesus no lugar onde tinham jazido os ladrões e fizeram delas vários lotes, para tirar à sorte. O manto era mais largo em baixo do quem em cima e tinha várias pregas; sobre o peito estava dobrado e formava assim bolsos. Rasgaram-no em várias tiras, como também a longa veste branca, aberta no peito, onde havia correias para atá-la e distribuíram-nas pelos lotes; assim fizeram também várias partes da faixa de pano que vestia em volta do pescoço, do cinto, do escapulário e do pano com que cobria o corpo; todas estas vestes estavam ensopadas do sangue do Nosso Senhor.
 
Como, porém, não chegaram a um acordo a respeito da túnica sem costuras, que, rasgada em partes, não serviria mais para nada, tomaram uma tabuleta com algarismos e dados em forma de favas, com marcas, que trouxeram consigo e jogando esses dados, tiraram à sorte a túnica. Viu-lhes, porém, um mensageiro de Nicodemos e José de Arimatéia, dizendo-lhe que ao pé do Calvário havia quem quisesse comprar as vestes de Jesus; juntaram então depressa todas as vestes e, correndo para baixo, venderam-nas; assim ficaram essas relíquias com os cristãos.
 
Jesus crucificado e os ladrões.
 
Depois do violento choque da cruz, a cabeça de Jesus, coroada de espinhos, foi fortemente abalada e derramou grande abundância de sangue; também das chagas das mãos e dos pés correu o sangue em torrentes. Os carrascos subiram então pelas escadas e desataram as cordas com que tinham amarrado o santo corpo, para que o abalo não o fizesse cair. O sangue, cuja circulação fora quase impedida pela forte pressão das cordas e pela posição horizontal, afluiu-Lhe então de novo por todo o corpo e as chagas, renovando todas as dores e causando-Lhe um forte atordoamento. Jesus deixou cair a cabeça sobre o peito e ficou suspenso como morto, cerca de sete minutos.
 
Houve um momento de calma. Os carrascos estavam ocupados em repartir as vestes de Jesus; o som das trombetas perdia-se no ar, todos os assistentes estavam exaustos de raiva ou de dor. Olhei, cheia de susto e compaixão, para meu Jesus, meu Salvador, a Salvação do mundo; vi-O imóvel, desfalecido de dor, como morto e eu também estava à morte; pensava antes morrer do que viver.
 
Minha alma estava cheia de amargura, de amor e dor; minha cabeça, que eu sentia cercada de uma rede de espinhos, fazia-me quase endoidecer de dor; minhas mãos e meus pés eram como fornalhas ardentes; dores indizíveis passavam-me, como milhares de raios, pelas veias e nervos, encontrando-se e lutando em todos os membros interiores e exteriores de meu corpo, tornando-se uma nova fonte de sofrimentos. E todos esses terríveis tormentos não eram senão amor e todo esse fogo penetrante de dores era contudo uma noite, em que não vi senão meu Esposo, o Esposo de todas as almas, pregado à cruz e contemplava-O com muita tristeza e muita consolação.
 
A cabeça de Jesus, com a horrível coroa, com o sangue que Lhe enchia os olhos, os cabelos, a barba e a boca ardente, meio entreaberta, tinha caído sobre o peito e também mais tarde só podia levantar-se com indizível tortura, por causa da larga coroa de espinhos. O peito do Divino Mártir estava violentamente dilatado e alçado; os ombros, os cotovelos e os pulsos distendidos até saírem fora das articulações; o sangue corria-Lhe das largas feridas das mãos sobre os braços; o peito levantado deixava em baixo uma cavidade profunda; o ventre estava encolhido e diminuído; como os braços, estavam também as coxas e pernas horrivelmente deslocadas.
 
Os membros estavam tão horrivelmente distendidos e os músculos e a pele a tal ponto esticados, que se podiam contar os ossos. O sangue escorria-Lhe em redor do enorme prego que Lhe traspassava os pés sagrados, regando a árvore da cruz. o santo corpo estava todo coberto de chagas, pisaduras vermelhas, manchas amarelas, pardas e roxas, inchaços e lugares escoriados. As feridas reabriram-se, pela violenta distensão dos músculos e sangravam em vários lugares; o sangue que corria, era a princípio ainda vermelho, mas pouco a pouco se tornou pálido e aquoso e o santo corpo cada vez mais branco; por fim, tomou a cor da carne em sangue.
 
Mas, apesar de toda essa cruel desfiguração, o corpo de Nosso Senhor na cruz tinha um aspecto extremamente nobre e comovedor; na verdade, o Filho de Deus, o Amor Eterno, que se sacrificou no tempo, permaneceu belo, puro e santo nesse corpo do Cordeiro pascal moribundo, esmagado pelo peso dos pecados de toda a humanidade.
 
A pele da Santíssima Virgem, como a de N. Senhor, tinha por natureza, uma bela cor ligeiramente amarelada, mesclada de um vermelho transparente. As fadigas e as viagens do Mestre nos anos anteriores, lhe tinham tornado as faces, sob os olhos e a cana do nariz um pouco tostadas pelo sol. Jesus tinha um peito largo e forte, branco e sem pêlo, enquanto o de João Batista estava todo coberto de pelo ruivo. Tinha ombros largos e os músculos dos braços bem desenvolvidos; as coxas eram nervosas e musculosas, os joelhos fortes e robustos, como os de um homem que tem andado muito e rezado muito de joelhos.
 
Tinha as pernas compridas e a barriga das pernas fortes, de muito viajar em terras montanhosas. Os pés eram belos e bem desenvolvidos, a planta dos pés tinha-se tornado calosa, porque geralmente andava descalço por caminhos rudes. As mãos eram de bela forma, com os dedos longos e delgados, não delicados demais, mas também não como as de um homem que as emprega em trabalhos pesados. Não tinha o pescoço curto, mas forte e musculoso. A cabeça tinha boas proporções, não grande demais; a testa era alta e larga e todo o rosto de um belo e puro oval. O cabelo, de um castanho avermelhado, não muito grosso, singelamente repartido no alto da cabeça, caia-Lhe sobre os ombros; a barba não era comprida, mas aparada em ponta e repartida sob o queixo.
 
Agora, porém, o cabelo fora arrancado em grande parte, o resto colado com sangue; o corpo era uma só chaga, o peito estava como que despedaçado, o ventre escavado e encolhido; em vários lugares se viam as costelas, através da pele lacerada; todo o corpo estava de tal modo distendido e alongado, que não cobria mais inteiramente o tronco da cruz.
 
O madeiro era um pouco arredondado do lado posterior, na frente liso, com várias escavações; a largura igualava-lhe mais ou menos a grossura. As diversas partes da cruz eram de madeira de diferentes cores, umas pardas, outras amarelas; o tronco era mais escuro, como madeira que tem estado muito tempo na água.
 
As cruzes dos ladrões, trabalhadas mais grosseiramente, foram instaladas ao lado direito e esquerdo do cume, a tal distância da cruz de Jesus, que um homem podia passar a cavalo entre elas; estavam um pouco mais baixo e colocadas de modo que olhavam um para o outro. Um dos ladrões rezava, o outro insultava Jesus que, olhando para baixo, disse uma coisa a Dinas.
 
O aspecto dos ladrões na cruz era horrendo, especialmente o do que ficava à esquerda, criminoso enraivecido, embriagado, de cuja boca só saiam insultos e maldições. Os corpos, pendentes da cruz, estavam horrivelmente deslocados, inchados e cruelmente amarrados. Os rostos tornaram-se-lhes roxos e pardos, os lábios escuros, tanto da bebida, como da pressão do sangue; os olhos inchados e vermelhos, quase a sair das órbitas. Soltavam gritos e uivos de dor, que lhes causavam as cordas; Gesmas praguejava e blasfemava.
 
Os pregos com que os madeiros transversais foram ajustados ao tronco, forçavam-nos a curvar a cabeça, moviam-se e torciam-se convulsivamente na tortura e apesar das pernas estarem fortemente amarradas, um deles conseguiu puxar um pé para cima, de modo que o joelho dobrado se lhe ergueu um pouco.
 
Primeira palavra de Jesus na cruz.
 
Depois de crucificar os ladrões e de repartir as vestes do Senhor, juntaram os carrascos todos os instrumentos e ferramentas e, insultado e escarnecendo mais uma vez a Jesus, foram-se embora. Também os fariseus, que ainda estavam, montaram nos cavalos e passando diante de Jesus, dirigiram-lhe muitas palavras insultuosas e seguiram para a cidade. Os cem soldados romanos, com os respectivos comandantes, puseram-se também em mancha, pois veio outro destacamento de cinqüenta soldados romanos, ocupar-lhes o lugar.
 
Esse destacamento era comandado por Abenadar, árabe de nascimento, que mais tarde, no batismo, recebeu o nome de Ctesifon. O oficial subalterno que estava com essa tropa, chamava-se Cassius; era também muitas vezes encarregado por Pilatos de levar mensagens; recebeu depois o nome de Longinus.
 
Vieram também a cavalo doze escribas e alguns anciãos do povo, entre os quais os que foram pedir mais uma vez outra inscrição para o título da cruz; Pilatos nem os tinha deixado entrar. Cheios de raiva, andaram a cavalo em redor do lugar do suplício e expulsaram dali a Santíssima Virgem, chamando-a de mulher perdida. João levou-a para junto das outras mulheres, que estavam mais afastadas; Madalena e Marta ampararam-na nos braços.
 
Quando, fazendo a volta da cruz, chegaram diante de Jesus, balançaram a cabeça, dizendo: “Arre! Impostor! Como é que destróis o Templo e o reedificas em três dias? Queria sempre socorrer os outros e agora não se pode salvar a si mesmo. – Se és o Filho de Deus, desce da cruz. Se é o rei de Israel, então desça da cruz e creremos nEle. Sempre confiava em Deus, que Ele venha salvá-Lo agora”. Os soldados também zombavam, dizendo: “Se és o rei dos judeus, salva-te agora”.
 
Quando Jesus ainda pendia desmaiado, disse Gesmas, o ladrão à esquerda: “O demônio abandonou-O”. Um soldado fincou então uma esponja embebida em vinagre sobre a ponta de uma vara e chegou-a aos lábios de Jesus, que pareceu chupar um pouco. As zombarias continuavam. O soldado disse: “Se és o rei dos judeus, salva-te.” Tudo isso se deu enquanto o destacamento anterior era substituído pelo de Abenadar.
 
Jesus levantou um pouco a cabeça e disse: “Meu Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem”; depois continuou a rezar em silêncio. Então gritou Gesmas: “Se és o Cristo, salva-te a ti e a nós”. Escarneciam-nO sem cessar; mas Dimas, o ladrão da direita, ficou muito comovido, ouvindo Jesus rezar pelos inimigos. Quando Maria ouviu a voz de seu Filho, ninguém mais pôde retê-la: penetrou no círculo do suplício: João, Salomé e Maria, filha de Cléofas, seguiram-na. O centurião não as expulsou.
 
Dimas, o bom ladrão, obteve pela oração de Jesus uma iluminação Interior, no momento em que a Santíssima Virgem se aproximou. Reconheceu em Jesus e em Maria as pessoas que o tinham curado, quando era criança e exclamou em voz forte e distinta: “O que? É possível que insulteis Àquele que reza por vós? Ele se cala, sofre com paciência, reza por vós e vós o cobris de escárnio? Ele é um profeta, é nosso rei, é o Filho de Deus”. A essa inesperada repreensão da boca de um miserável assassino, suspenso na cruz, deu-se um tumulto entre os escarnecedores; apanhando pedras, quiseram apedrejá-lo ali mesmo. Mas o centurião Abenadar não o permitiu; mandou dispersa-los e restabeleceu a ordem.
 
Durante esse tempo a Santíssima Virgem se sentia confortada pela oração de Jesus. Dimas, porém, disse a Gesmas, que gritara a Jesus: “Se és o Cristo, salva-te a ti e a nós” – “Também tu não temes de Deus, apesar de sofreres o mesmo suplício que Ele? Quanto a nós, é muito justo, pois recebemos o castigo de nossos crimes; este, porém, não fez mal algum. Pensa nisto, nesta última hora e converte-te de coração”. Essas palavras e outras mais disse a Gesmas, pois estava todo comovido e iluminado pela graça; confessou suas faltas a Jesus e disse: “Senhor, se me condenardes, será muito justo; mas tende misericórdia de mim”. Respondeu Jesus: “Experimentáras a Minha misericórdia”. Dimas recebeu, por um quarto da hora, a graça de um profundo arrependimento.
 
Tudo que acabo de contar agora, se deu pela maior parte ao mesmo tempo ou sucessivamente, entre as doze horas e doze e meia, pelo sol, alguns minutos depois da exaltação da cruz. Mas dai a pouco mudaram rapidamente os sentimentos nos corações da maior parte do assistentes; pois enquanto o bom ladrão ainda estava falando, eis que se deu na natureza um fenômeno extraordinário, que encheu de pavor todos os corações.
 
Eclipse do sol. Segunda e terceira palavra de Jesus na cruz.
 
Até pelas 10 horas, quando Pilatos pronunciou a sentença, caíra várias vezes chuva de pedra; depois, até às 12 horas, o céu estava claro e havia sol; mas depois do meio dia, apareceu uma neblina vermelha, sombria, diante do sol. Pela sexta hora, porém, ou como vi pelo sol, mais ou menos às doze e meia, (a maneira dos judeus de contar as horas é diferente da nossa) houve um eclipse milagroso do sol. Vi como isso se deu, mas infelizmente não pude guardá-lo na memória e não tenho palavras para o exprimir.
 
A princípio fui transportada como para fora da terra; vi muitas divisões no firmamento e os caminhos dos astros, que se cruzavam de modo maravilhoso. Vi a lua do outro lado da terra; vi-a voar rapidamente ou dar um salto, como um globo de fogo; depois me achei novamente em Jerusalém e vi a lua aparecer sobre o monte das Oliveiras, cheia e pálida, - o sol estava velado pelo nevoeiro, - e ela se moveu rapidamente do oriente, para se colocar diante do sol.
 
No começo, vi no lado oriental do sol, uma lista escura, que tomou em pouco tempo a forma de uma montanha, cobrindo-o depois inteiramente. O disco do sol parecia cinzento escuro, rodeado de um círculo vermelho, como uma argola de ferro em brasa. O céu tornou-se escuro; as estrelas tinham um brilho vermelho.
 
Um pavor geral aponderou-se dos homens e dos animais, o gado fugiu mugindo, as aves procuravam um esconderijo e caiam em bandos sobre as colinas em redor do Calvário; podiam-se apanhá-las com as mãos. Os zombadores começaram a calar-se; os fariseus tentavam explicar tudo como fenômeno natural, mas não conseguiram acalmar o povo e eles mesmos ficaram interiormente apavorados. Todo o mundo olhava para o céu; muitos batiam no peito e, torcendo as mãos. Exclamavam: “Que o seu sangue caia sobre os seus assassinos”. Muitos, de perto e de longe, caíram de joelhos, pedindo perdão a Jesus, que no meio das dores volvia os olhos para eles. 
 
A escuridão aumentava, todos olhavam para o céu e o Calvário estava deserto; ali permaneciam apenas a Mãe de Jesus e os mais íntimos amigos; Dimas, que estivera mergulhado em profundo arrependimento, levantou com humilde esperança o rosto para o Salvador e disse: “Senhor, fazei-me entrar num lugar onde me possais salvar; lembrai-vos de mim, quando estiverdes no vosso reino”. Jesus respondeu-lhe: “Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso”.
 
A Mãe de Jesus, Madalena, Maria de Cléofas, Maria Helí e João estavam entre as cruzes dos ladrões, em redor da cruz de Jesus, olhando para Nosso Senhor. A Santíssima Virgem, em seu amor de mãe, suplicava interiormente a Jesus que a deixasse morrer com Ele. Então olhou o Senhor com inefável ternura para a Mãe querida e, volvendo os olhos para João, disse a Maria: “Mulher, eis aí o teu filho; será mais teu filho do que se tivesse nascido de ti”. Elogiou ainda João, dizendo: “Ele teve sempre uma fé sincera e nunca se escandalizou, a não ser quando a mãe quis que fosse elevado acima dos outros”. A João, porém, disse: “Eis aí tua Mãe!”
 
João abraçou com muito respeito, como um filho piedoso, a Mãe de Jesus, que tinha tornado também sua Mãe, sob a cruz do Redentor moribundo. A SS. Virgem ficou tão abalada de dor, após essas solenes disposições do Filho moribundo, que, caindo nos braços das santas mulheres, perdeu os sentidos exteriormente; levaram-na para o aterro em frente à cruz, onde a sentaram por algum tempo e depois a conduziram para fora do círculo, para junto das outras amigas.
 
 
Não sei se Jesus pronunciou alto todas essas palavras; percebi-as interiormente, quando, antes de morrer, entregou Maria Santíssima, como Mãe, ao Apóstolo querido e este, como filho, a sua Mãe. Em tais contemplações se percebem muitas coisas, que não foram escritas; é pouco apenas o que pode exprimir a língua humana. O que lá é tão claro, que se julga compreender por si mesmo, não se sabe explicar com palavras.
 
Assim não é de admirar que Jesus, dirigindo-se à Santíssima Virgem, não dissesse: “Mãe”, mas mulher”; pois que ela ali estava na sua dignidade de mulher que devia esmagar a cabeça da serpente, naquela hora em que aquela promessa se realizava, pelo sacrifício do Filho do Homem, seu próprio filho. Não era admirar lá que Jesus desse João por filho àquela a quem o Anjo saudava: “Ave Maria, cheia de graça”, porque o nome de João significa “graça”; pois todos são o que os respectivos nomes significam e João tornara-se filho de Deus e Jesus Cristo vivia nele.
 
Percebia-se que Jesus, naquele momento, dava com aquelas palavras uma mãe, Maria, a todos que, como João, O recebem e, crendo nEle, se tornam filhos de Deus, que não foram nascidos do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas do próprio Deus. Sentia-se que a mais pura, a mais humilde, a mais obediente de todas as mulheres, que se tornara a Mãe do Verbo feito de carne, respondendo ao Anjo: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra!”, agora, ouvindo do Filho moribundo que se devia tornar Mãe espiritual de outro filho, dizia, obediente e humilde, as mesmas palavras, no íntimo do coração, dilacerado das dores da separação: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra”, aceitando assim por filhos todos os filhos de Deus, todos os irmãos de Jesus, Tudo isso parece lá tão simples e necessário, mas aqui é tão diferente, que é mais fácil senti-lo, pela graça de Deus, do que o exprimir em palavras.
 
Estado da cidade e do Templo durante o eclipse do sol.
 
Eram mais ou menos duas horas e meia, quando fui condizuda à cidade, para ver o que lá se passava. Encontrei-a cheia de pavor e consternação; as ruas em trevas, cobertas de nevoeiro; os homens erram cá e lá, às apalpadelas; muitos estavam prostrados por terra, nos cantos, com a cabeça coberta, batendo no peito; outros olhavam para o céu ou estavam sobre os telhados, lamentando-se.
 
Os animais mugiam e escondiam-se, os pássaros voavam baixo e caiam. Vi que Pilatos fizera uma visita a Herodes e que estavam consternados, no mesmo terraço do qual Herodes, de manhã, assistira ao escárnio de que Jesus fora alvo. “Isto não é natural”, disseram, “excederam-se nos maus tratos infligidos ao Nazareno”. Vi-os depois irem juntos ao palácio de Pilatos, atravessando o fórum; ambos estavam muito assustados, indo a passos apressados e cercados de soldados. Pilatos não ousou olhar para o lado do Gálbata, o tribunal donde tinha pronunciado a sentença contra Jesus. O fórum estava deserto; aqui e acolá alguns homens voltavam apressadamente para casa, outros passavam chorando.
 
Juntavam-se também alguns grupos de povo nas praças públicas. Pilatos mandou chamar os anciãos do povo ao palácio e perguntou-lhes o que significavam aquelas trevas; disse-lhes que as tomava por um sinal de desgraça iminente; o Deus dos judeus parecia estar irado porque haviam exigido à força a morte do galileu, que certamente era profeta e rei dos judeus; enquanto ele, Pilatos, não tinha culpa, lavara, as mãos, etc.
 
Os judeus, porém, ficaram endurecidos, queriam explicar tudo como fenômeno comum e não se converteram. Converteu-se, contudo, muita gente, entre outros também todos os soldados que, na véspera, tinham caído por terra e se levantando, quando prenderam Jesus no monte das Oliveiras.
No entanto juntou-se uma multidão de povo diante do palácio de Pilatos e onde de manhã tinham gritado: “Crucifica-o! crucifica-o!”, gritavam agora: “Fora o juiz injusto! Que o sangue do Crucificado caia sobre os seus assassinos!” Pilatos viu-se obrigado a rodear-se de guardas. Zodóc, que, de manhã, quando Jesus fora conduzido ao pretório, lhe proclamava alto a inocência, agitou-se e falou com tal energia diante do palácio, que Pilatos esteve a ponto de mandá-lo prender.
 
Pilatos, o miserável desalmado, atribuiu toda a culpa aos judeus: disse que não tinha nada com isso, que Jesus era o rei, o profeta, o Santo dos judeus, a quem estes tinham levado à morte e nada tinha com Ele, nem lhe cabia culpa; os próprios judeus é que lhe tinham exigido a morte, etc.
 
No Templo reinava extremo susto e terror. Estavam ocupados na imolação do cordeiro pascal, quando veio de repente a escuridão. Tudo estava em confusão e aqui e acolá se ouviam gritos angustiantes. Os príncipes dos sacerdotes fizeram tudo para conservar a calma e a ordem: fizeram acender todas as lâmpadas, apesar de ser meio dia, mas a confusão crescia cada vez mais. Vi Anás preso de susto e terror; corria de um canto a outro, para se esconder. Quando tornei a sair da cidade, ouvi as grades das janelas das casas tremerem, sem haver tempestade. A escuridão crescia cada vez mais. Na parte exterior da cidade, ao noroeste, perto do muro, onde havia muitos jardins e sepulturas, desabaram algumas entradas de sepulcros, como se houvesse um tremor de terra.
 
Abandono de Jesus. A quarta palavra de Jesus na cruz.
 
Sobre o Gólgota fizeram as trevas uma impressão terrível. A horrorosa fúria dos carrascos, os gritos e maldições na elevação da cruz, os uivos dos ladrões ao serem amarrados ao madeiro, os insultos dos fariseus a cavalo, a revezar dos soldados, a barulhenta partida dos carrascos embriagados, tudo isso diminuíra a princípio um pouco o efeito das trevas.
 
Seguiram-se depois as repreensões do ladrão penitente, Dimas e a raiva dos fariseus contra ele. Mas à medida que crescia a escuridão, tornavam-se mais pensativos os espectadores, afastando-se da cruz. Foi então que Jesus recomendou sua Mãe a João e que Maria foi conduzida a alguma distância do lugar do suplício. Houve um momento se solene silêncio; o povo estava assustado com as trevas; a maior parte olhava para o céu; em muitos corações se levantou a voz da consciência; muitos se arrependeram e, olhando para a cruz, bateram no peito; pouco a pouco se formaram grupos de pessoas que sentiam essas mesmas impressões.
 
Os fariseus, ocultando o terror, ainda procuravam explicar tudo pelas leis naturais, mas baixavam cada vez mais a voz e afinal quase não ousavam mais falar; de vez em quando ainda proferiam uma palavra insolente, mas soava um tanto forçada. O disco do sol estava meio escuro, como uma montanha ao luar; estava rodeado de um anel vermelho. As estrelas tinham um brilho rubro; os pássaros caiam sobre o Calvário e nas vinhas vizinhas entre os homens e deixavam-se pegar com a mão; os animais dos arredores mugiam e tremiam; os cavalos e jumentos dos fariseus apertavam-se uns de encontro aos outros, baixando as cabeças. O nevoeiro úmido envolvia tudo.
 
Em redor da cruz reinava silêncio; todos se tinham afastado, muitos fugiram para a cidade. O Salvador, naquele infinito martírio, mergulhado no mais profundo abandono, dirigindo-se ao Pai celestial, rezava pelos inimigos, impelido pelo amor. Rezava, como durante toda a Paixão, recitando versos de salmos que nEle se cumpriam. Vi figuras de Anjos em redor dEle. quando, porém, a escuridão cresceu e o terror pesava sobre todas as consciências e todo o povo estava em sombrio silêncio, ficou Jesus abandonado de todos e privado de toda a consolação.
 
Sofria tudo quanto sofre um pobre homem, aflito e esmagado pelo absoluto abandono, sem consolação divina ou humana, quando a fé, a esperança e a caridade, privadas de iluminação e consolo, de visível assistência, ficam sozinhas no deserto da provação, vivendo de si mesmas, num infinito martírio. Tal sofrimento não se pode exprimir. Nessa tortura moral, Jesus nos alcançou a força de resistirmos na extrema miséria do abandono, quando se rompem todos os laços e relações com a existência e a vida terrena com o mundo e a natureza em que vivemos, quando se desfazem também as perspectivas que esta vida em si nos abre, para outra existência; nessa provação venceremos, se unirmos nosso abandono com os merecimentos do abandono de Jesus na cruz.
 
O Salvador conquistou-nos os méritos da perseverança, na extrema luta do absoluto abandono e ofereceu por nós, pecadores, a miséria, a pobreza, o martírio, o abandono, que sofreu na cruz, de modo que o homem, unido a Jesus no seio da Igreja, não deve mais desesperar na hora extrema, quando tudo se escurece e toda a luz e consolação acaba. Não temos mais de descer nesse deserto da noite interior, sozinhos e sem proteção. Jesus lançou no abismo desse mar de amargura, o abandono exterior e interior que padeceu na cruz e assim não mais deixou os cristãos desamparados no abandono da morte, quando desaparece toda a consolação. Não há mais para o cristão nem deserto, nem solidão, nem abandono, nem desespero, na hora da morte, no último combate; pois o Salvador, a luz, o caminho e a verdade, também andou por esse caminho tenebroso, derramando bênçãos e vencendo todos os terrores e erigiu sua cruz também nesse deserto.
 
Jesus, inteiramente desamparado e abandonado, ofereceu-se, como faz o amor, a si mesmo por nós, fez até do abandono um riquíssimo tesouro; pois se ofereceu, como toda sua vida, seus trabalhos, amor e sofrimento e a dolorosa experiência de nossa ingratidão, ao Pai Celestial, por nossa fraqueza e pobreza. Fez testamento diante de Deus e ofereceu todos os seus merecimentos à Igreja e aos pecadores. Pensou em todos; naquele abandono estava com todos, até o fim dos séculos; e assim rezou também por aqueles hereges que afirmam que sendo Deus, não sentiu as dores da Paixão e não sofreu ou sofreu menos do que um homem comum em igual martírio.
 
– Participando dessa oração e sentindo com Ele as angústias, parecia-me ouvi-Lo dizer, que: “se devia ensinar o contrário, isto é, que Ele sentiu esse sofrimento do abandono com mais amargura do que um homem comum, porque estava intimamente unido à Divindade, porque era verdadeiro Deus e verdadeiro homem e no sentimento da humanidade abandonado por Deus, bebeu, como Deus-Homem, até o fundo o cálice do abandono completo”.
 
E testemunhou por um grito a dor do abandono, dando assim a todos os aflitos, que reconhecem a Deus por Pai, a liberdade de uma queixa cheia de confiança filial. Pelas três horas, Jesus exclamou em alta voz: “Eli, Eli, lama Sabachtani!”, o que quer dizer: ”Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?”
 
Quando esse grito de Nosso Senhor interrompeu o angustiante silêncio que reinava em redor da cruz, os escarnecedores se voltaram novamente para Ele e um deles disse: “Ele chama Elias”, e outro: “Vamos ver, se Elias vem ajudá-Lo a descer da cruz”. Quando, porém, Maria ouviu a voz do Filho, nada mais pôde retê-la; voltou para junto da cruz, seguida por João, Maria, filha de Cleofas, Madalena e Salomé.
 
Enquanto o povo tremia e gemia, vinha passando perto um grupo de cerca de trinta homens a cavalo, notáveis da Judéia e da região de Jope, que tinham vindo para a festa; e quando viram Jesus tão horrivelmente tratado e os sinais ameaçadores que se mostravam na natureza, exprimiram em alta voz o horror que sentiam, exclamando: “Ai! desta cidade abominável! Se nela não estivesse o Templo, devia-se destruí-la a fogo, por se ter tomado culpada de tanta iniqüidade”.
 
As palavras desses distintos estrangeiros foram como um ponto de apoio para o povo, que rompeu em murmuração e altos lamentos; os que tinham os mesmos sentimentos, juntaram-se em grupos. Todos os presentes formaram dois partidos: uns murmuravam e lamentavam-se, os outros proferiam insultos e maldições.
 
Os fariseus, porém, ficavam cada vez menos arrogantes; temendo um levantamento do povo, porque também o povo de Jerusalém estava sobressaltado, aconselharam-se com o centurião de Abenadar; deram-se ordens para fechar a porta da cidade que dava para o Calvário, cortando assim toda a comunicação; mandaram também um mensageiro a Pilatos, para pedir 500 soldados e de Herodes a guarda real, para impedir uma insurreição. No entanto conseguiu o centurião Abenadar, pela energia, restabelecer a ordem e calma, proibindo qualquer insulto a Jesus, para não irritar o povo.
 
Logo depois das três horas, o céu começou a clarear-se; a lua afastou-se gradualmente do sol, para o lado oposto àquele de que viera. O sol reapareceu, sem brilho, ainda vedado pelo nevoeiro vermelho e a lua ia descendo rapidamente para o outro lado, como se caísse. Pouco a pouco o sol readquiriu mais claridade e as estrelas desapareceram; contudo o dia ainda permanecia sombrio. A medida que reaparecia a luz, tornavam-se os inimigos escarnecedores mais arrogantes; foi nessa ocasião que disseram: “Ele chama Elias”. Abenadar, porém, impôs-lhes silêncio e manteve a ordem.
 
Quinta, Sexta e Sétima palavras de Jesus na cruz. Morte de Jesus.
 
Quando a luz voltou, surgiu o corpo de Nosso Senhor, pálido, extenuado, como que inteiramente desfalecido, mais branco do que antes, por causa da grande perda de sangue. Jesus disse ainda, não sei se o percebi só interiormente ou se Ele o disse a meia voz: “Sou espremido como as uvas, que foram pisadas aqui pela primeira vez; devo dar todo o meu sangue, até sair água e o bagaço ficar branco; mas não se fará mais vinho neste lugar”.
 
Mais tarde vi, numa visão a respeito dessas palavras, que foi nesse lugar que Jafé pela primeira vez pisou as uvas, para fazer vinho, como hei de contar mais tarde.
 
Jesus consumia-se de sede e disse com a língua seca: “Tenho sede”. E como os amigos o olhassem com tristeza, disse-lhes: “Não me podíeis dar um gole de água?” Queria dizer que durante a escuridão ninguém os teria impedido. João, muito incomodado, respondeu: “Senhor, esquecemo-lo mesmo”. Jesus disse ainda algumas palavras, cujo sentido era: “Também os amigos mais íntimos deviam esquecer-se e não me dar a beber, para que se cumprisse a Escritura”. Mas esse esquecimento Lhe doeu amargamente.
 
Ofereceram então dinheiro aos soldados, para Lhe dar um pouco de água; eles recusaram, mas um deles tomou uma esponja em forma de pera, embebedou-a em vinagre, que havia lá num pequeno barril de casca de árvore e ainda lhe misturou fel. Mas o centurião Abenadar, compadecido de Jesus, tomou a esponja do soldado, espremeu-a e embebeu-a de vinagre puro. Ajustou depois um lado da esponja num pedaço curto de uma haste de hissope, que servia de boquilha para chupar, fincou-o na ponta da lança e levantou-a à altura do rosto de Jesus, aproximando-Lhe dos lábios a esponja.
 
Nosso Senhor ainda disse: “Quando minha voz não se fizer mais ouvir, falará a boca dos mortos”; ao que alguns gritaram: “Ainda continua blasfemando”. Abenadar, porém, os mandou calar.
 
Tendo chegado a hora da agonia, Nosso Senhor lutou com a morte e um suor frio cobriu-lhe os membros. João estava sob a cruz e enxugou-Lhe os pés com o sudário. Madalena, esmagada pela dor, encostava-se à cruz no lado de trás. A Santíssima Virgem estava entre a cruz do bom ladrão e a de Jesus, amparada pelos braços de Maria de Cléofas e Salomé, olhando para o Filho, que lutava com a morte. Então disse Jesus: “Tudo está consumado!” e, levantado a cabeça, exclamou em alta voz: “Meu Pai, Em vossas mãos entrego o meu espírito”. Foi um grito doce e forte, que penetrou o Céu e a terra; depois inclinou a cabeça e expirou. Vi a alma de Jesus, em forma luminosa, entrar na terra, ao pé da cruz e descer ao Limbo. João e as santas mulheres prostraram-se com a face na terra.     
 
O centurião Abenadar, árabe de nascimento, depois, como discípulo, batizado com o nome de Ctesifon, desde que oferecera o vinagre a Jesus, ficara a cavalo junto à elevação onde estavam erigidas as cruzes, de modo que o cavalo tinha as patas dianteiras mais no alto. Profundamente abalado, entregue a séries reflexões, contemplava incessantemente o semblante de Nosso Senhor, coroado de espinhos.
 
O cavalo baixara assustado a cabeça e Abenadar, cujo orgulho estava domado, não puxava mais as rédeas. Nesse momento pronunciou o Senhor as últimas palavras, em voz alta e forte e morreu dando um grito, que penetrou o Céu, a terra e o inferno. A terra tremeu e o rochedo fendeu-se, deixando uma larga abertura entre a cruz do Senhor e a do ladrão à esquerda. O testemunho que Deus deu de seu Filho, abalou com susto e terror a natureza enlutada. Estava consumado!
 
A alma de Nosso Senhor separou-se do corpo e ao grito de morte do Redentor moribundo estremeceram todos que O ouviram, junto com a terra que, tremendo, reconheceu o Salvador; os corações amigos, porém, foram transpassados pela espada da dor. Foi então que a graça desceu à alma de Abenadar; estremeceu emocionado, cederam-lhe as paixões e o coração orgulhoso e duro, fendeu-se-lhe como o rochedo do Calvário. Lançou longe de si a lança, bateu no peito com força e exclamou alto, com a voz de um homem novo: “Louvado seja Deus, Todo-poderoso, o Deus de Abraão e Jacó! Este era um homem justo; em verdade, Ele é o Filho de Deus!” E muitos dos soldados, tocados pela palavra do centurião, fizeram o mesmo.
 
Abenadar, tornado novo homem, salvo pela graça e tendo rendido publicamente homenagem ao Filho de Deus, não quis ficar mais tempo a serviço dos inimigos de Cristo, Dirigiu-se a cavalo ao oficial subalterno, Cássio, também chamado Longinus, apeou-se, apanhou a lança e entregou-lha; disse algumas palavras aos soldados e a Cássio, que então montou a cavalo e tomou o comando. Abendar desceu do Calvário e, atravessando a vele de Gihon, dirigiu-se às cavernas do vale de Hinom, onde estavam escondidos os discípulos; anunciou-lhes a morte do Senhor e voltou de lá à cidade, ao palácio de Pilatos.
 
Grande espanto apoderou-se dos assistentes, ante o grito de morte de Jesus, quando a terra tremeu e o rochedo do Calvário se fendeu. – Esse terror fez-se sentir em toda a natureza; pois rasgou-se o véu do Templo, muitos mortos saíram das sepulturas, desabaram algumas paredes do Templo, ruíram muitos edifícios e desmoronaram montes em muitas regiões da terra.
 
Abenadar deu testemunho em alta voz, muitos soldados testemunharam com ele, grande parte do povo presente e também alguns dos fariseus, chegados no fim, se converteram. Muitos bateram no peito e, descendo do monte, voltaram chorando pelo vale para casa; outros rasgaram as vestes e lançaram pó sobre a cabeça. Todo o mundo estava cheio de medo e terror.
 
João levantou-se e algumas das santas mulheres, que até então tinham ficado afastadas, aproximaram-se da cruz; levantaram a Mãe de Jesus e as amigas, conduziram-nas a alguma distância da cruz, para as confortar.
 
Quando Jesus, cheio de amor, Senhor de toda vida, pagou pelos pecadores a dolorosa dívida da morte; quando entregou, como homem, a alma a Deus seu Pai e abandonou o corpo, tomou esse santo vaso esmagado a fria e pálida cor da morte; o corpo tremeu-Lhe convulsivamente nas últimas dores e tornou-se lívido e os vestígios do sangue derramado das chagas ficaram mais escuros e distintos. O rosto alongou-se, as faces encolheram-se, o nariz ficou mais delgado e pontiagudo, o queixo caiu, os olhos, cheios de sangue e fechados, abriram-se, meio envidraçados.
 
O Senhor levantou pela última vez e por poucos momentos a cabeça, coroada de espinhos e deixou-a depois cair sobre o peito, sob o peso dos sofrimentos. Os lábios lívidos e contraídos entreabriram-se, deixando ver a língua ensangüentada. As mãos, antes fechadas sobre a cabeça dos cravos, abriram-se; estenderam-se os braços, as costas entesaram-se ao longo da cruz e todo o peso do santo corpo desceu sobre os pés. Os joelhos curvaram-se, tornando para um lado e os pés viraram-se um pouco em redor do prego que os trespassara.
Então se entesaram as mãos da Mãe Dolorosa, a vista escureceu-se-lhe, palidez de morte cobriu-lhe o rosto, os ouvidos deixaram de escutar, os pés vacilaram e ela caiu por terra; também Madalena, João e os outros se prostraram, com a cabeça velada, entregues à dor.
 
Quando ergueram a mais amorosa, a mais desolada das mães, dirigindo os olhos à cruz, ela viu o corpo do Filho adorado, concebido na virgindade, por obra e graça do Espírito Santo, carne de sua carne, osso de seus ossos, coração de seu coração, vaso sagrado formado no seu seio pela virtude divina, agora privado de toda a beleza e formosura, separado da alma Santíssima, entregue às leis da natureza que Ele próprio criara e de que os homens tinham abusado pelo pecado, desfigurado-a; viu o corpo do Filho Unigênito esmagado, maltratado, desfigurado, morto pelas mãos daqueles que viera salvar e vivificar.
 
Ai! O vaso de toda beleza e verdade, de todo amor, pendia da cruz, entre dois assassinos, vazio, rejeitado, desprezado, insultado, semelhante a um leproso. Quem pode compreender toda a dor da Mãe de Jesus, rainha de todos os mártires?
 
A luz do sol ainda era sombria e nebulosa. O tremor de terra foi acompanhado de calor sufocante; mas seguiu-se-lhe depois um frio sensível. O corpo de Nosso Senhor morto, na cruz, causava um sentimento de respeito e estranha comoção. Os ladrões pendiam em horríveis contorções, como embriagados, ambos estavam no fim calados; Dimas rezava.
 
Era pouco depois de três horas, quando Jesus expirou. Passando o primeiro terror causado pelo tremor de terra, alguns dos fariseus recobraram a anterior arrogância. Aproximando-se da fenda no rochedo do Calvário, jogaram-lhe pedras e atando várias cordas, amarraram uma pedra fizeram-na entrar na fenda, para medir-lhe a profundidade; quando, porém, não tocaram no fundo, tornaram-se mais pensativos. Também se sentiam inquietos com os lamentos do povo, que batia no peito; e por isso, montando a cavalo, retiraram-se; alguns se sentiam mudados interiormente.
 
O povo também se retirou em pouco tempo, indo pelo vale para a cidade, cheio de medo e terror. Muitos se tinham convertido. Uma parte dos 50 soldados romanos foi reforçar a guarda da porta, até a chegada dos 500, requeridos por Pilatos. A porta tinha sido fechada; alguns soldados ocuparam outros pontos da vizinhança, para impedir ajuntamento e tumulto. Cássio (Longino) e cerca de cinco soldados ficaram no lugar do suplício. Os parentes de Jesus estavam em redor da cruz ou sentados em frente, chorando. Algumas santas mulheres tinham voltado à cidade. Silêncio e tristeza reinavam em volta do lenho sagrado. De longe, no vale e nas alturas afastadas, se via de vez em quando um ou outro dos discípulos, olhando com curiosidade e receio para a cruz, mas retirando-se timidamente, ao aproximar-se alguém.
 
O tremor de terra, aparição de mortos em Jerusalém.
 
Quando Jesus, com um grito forte, entregou o espírito nas mãos do Pai celestial, a alma do Salvador, qual forma luminosa, acompanhada de brilhante cortejo de Anjos, entrou na terra, ao pé da cruz; entre os Anjos estava também S. Gabriel. Vi esses Anjos expulsarem grande número de espíritos maus da terra para o abismo. Jesus, porém, mandou muitas almas do limbo para que, retomando os corpos, assustassem os impenitentes, os exortassem a converter-se e dessem testemunho dEle.
 
O tremor de terra, na hora da morte do Redentor, quando o rochedo do Calvário se fendeu, causou muitos desmoronamentos e desabamentos em todo o mundo, especialmente na Palestina e em Jerusalém. Mal o povo na cidade e no Templo sossegara um pouco, ao desaparecer a escuridão, eis que os abalos do solo e o estrondo do desabamento dos edifícios, em muitos lugares, espalharam um terror geral e ainda maior do que dantes. O pavor chegou ao extremo, quando apareceram os mortos ressuscitados, andando pelas ruas e admoestando com voz rouca o povo, que fugia, chorando, em todas as direções.
 
No Templo, os príncipes dos sacerdotes acabavam justamente de restabelecer a ordem e recomeçar os sacrifícios, suspensos pelo terror das trevas e triunfavam com a volta da luz, quando de repente tremeu o solo, ouvindo-se um estrondo de muros a desabar, acompanhado de ruído sibilante do véu do Templo, que se rasgou de alto a baixo, causando um momento de mudo terror na imensa multidão, interrompido em diversos lugares por gritos e lamentos.
 
Mas a multidão estava tão habituada à ordem do Templo, o imenso edifício tão repleto de gente, a ida e vinda dos que ofereciam sacrifícios estava tão bem regulada, as cerimônias da imolação dos cordeiros e da aspersão do altar como sangue se desenrolavam tão regularmente, através das longas fileiras dos sacerdotes, acompanhadas de canto e do alto som das trombetas, que o susto não produziu logo no principio uma confusão e desordem geral.
 
Assim, pois, continuavam os sacrifícios em algumas partes do imenso edifício do Templo, com as inúmeras passagens e salas, quando em outra parte já reinava o espanto e terror e em outros lugares os sacerdotes já conseguiam acalmar o povo; mas ao aparecimento dos mortos, em várias partes do Templo, todo o povo se dispersou e o sacrifício foi interrompido, como se o Templo fosse profanado. Contudo nem isso se deu repentinamente, de modo que a multidão se tivesse precipitado pelos degraus abaixo, empurrando e esmagando-se uns aos outros; mas dissolveu-se gradualmente, saindo em grupos, enquanto outros eram ainda contidos pelos sacerdotes ou estavam em partes separadas do Templo. Todavia, manifestava-se o medo e o terror em toda parte, em diversos graus, de um modo incrível.
 
Pode-se fazer uma idéia da desordem e confusão que reinava, imaginando um grande formigueiro, de tranqüilo movimento, em que se jogam pedras ou se remexe com um pau; enquanto reina confusão num ponto, em outro ainda continua o movimento e a atividade toda regular e mesmo no lugar onde houve desarranjo, logo começa a restabelecer-se a ordem.
 
O sumo sacerdote Caifás e seu partido, com audácia desesperada, não perderam a cabeça. Como um hábil governador de uma cidade revoltada, afastou a confusão, ameaçando aqui, exortando ali, desunindo os partidos, atraindo outros com muitas promessas. Devido ao seu endurecimento diabólico e aparente calma, conseguiu impedir uma perigosa perturbação geral, fazendo com que a massa do povo não visse nesses acontecimentos assustadores um testemunho da morte inocente de Jesus. A guarnição do forte Antônia também fez tudo para conservar a ordem; deste modo era o terror e a confusão grande, é verdade, mas cessou a celebração da festa, sem que houvesse tumulto. O povo dispersou-se, ficando ainda com um oculto pavor, que também foi pouco a pouco abafado pela ação dos fariseus.
 
Essa era a situação geral da cidade; seguem-se agora alguns incidentes particulares, de que ainda me lembro: As duas grandes colunas situadas à entrada do Santuário do Templo e entre as quais estava suspensa a magnífica cortina, afastaram-se no alto, a da esquerda para o sul, a da direita para o norte; a verga que suportavam, abaixou-se e a grande cortina partiu-se em duas, de alto e baixo, com um som sibilante e, caindo as duas partes para os lados, abriu-se o santuário. Essa cortina era vermelha, azul, branca e amarela; trazia o desenho de muitas constelações dos astros e também figuras, como, por exemplo, a da serpente de bronze.
 
O santuário estava aberto a todos os olhares. Perto da cela onde Simeão costumava rezar, no muro ao norte, ao lado do santuário, tombou uma pedra grande e a abóbada da cela desabou; em várias salas se afundou o solo, umbrais deslocaram-se a colunas cederam para os lados.
 
No santuário apareceu, proferindo palavras de ameaça, o Sumo Sacerdote Zacarias, que fora assassinado entre o Templo e o altar; falou também da morte do outro Zacarias e de João Batista, como em geral da morte dos profetas.
 
Ele saiu pela abertura que ficara, onde caiu a pedra na cela de Simeão e falou aos sacerdotes que estavam no Santo. Dois filhos do piedoso Sumo Sacerdote Simão o Justo, bisavô do velho sacerdote Simeão que profetizara na apresentação de Jesus no Templo, apareceram como espíritos grandes, perto da grande cátedra (cadeira dos doutores), proferindo palavras severas sobre a morte dos profetas e sobre o sacrifício que ia cessar; exortaram a todos a que seguissem a doutrina de Jesus crucificado.
 
Perto do altar apareceu o profeta Jeremias, proclamando em voz ameaçadora o fim do sacrifício antigo e o começo do novo. Essas aparições e palavras, em lugares onde só Caifás e os sacerdotes as ouviram, foram negadas ou ocultadas e foi proibido falar nisso, sob pena de grande excomunhão. Mas ouvi-se ainda um grande ruído; abriram-se as portas do santo e uma voz gritou: “Saiamos daqui!” Vi então Anjos, que se retiraram do Templo. O altar do incenso tremeu e caiu um dos vasos de incenso; o armário que continha os rolos da Escritura, tombou e os rolos caíram fora, em desordem; a confusão aumentou, não sabiam mais que hora do dia era.
 
Nicodemos, José de Arimatéia e muitos outros abandonaram o Templo e foram-se embora. Jaziam corpos de mortos, em vários lugares; outros mortos ressuscitados andavam no meio do povo, exortando-o com palavras severas; à voz dos Anjos que se afastaram do Templo, também eles voltaram às sepulturas. A grande cátedra, no átrio do Templo, caiu. Vários dos 32 fariseus que tinham ido ao Calvário, mais tarde voltaram, durante essa confusão e, como se tinham convertido ao pé da cruz, ficaram ainda mais comovidos com esses sinais, de modo que censuraram com grande energia a Anás e Caifás, retirando-se depois do Templo.
 
Anás, o verdadeiro chefe dos inimigos de Jesus, que desde muito tempo dirigira todas as intrigas secretas contra o Salvador e os discípulos e que também instruíra os acusadores, estava quase doido de terror; fugia de um canto para outro das salas secretas do Templo; vi-o gritando e torcendo-se em convulsões; levaram-no a um quarto secreto, rodeado de alguns dos partidários. Caifás deu-lhe uma vez um forte abraço, para a reanimar; mas em vão; a aparição dos mortos tinha-o levado ao desespero.
 
Caifás, apesar de estar também cheio de pavor, estava de tal modo possesso do demônio do orgulho e da obstinação, que não deixava perceber nada do susto que sentia. Cheio de raiva e orgulho, ocultava o medo e mostrava uma testa de bronze aos sinais ameaçadores da cólera divina. Quando, porém, apesar de todos os esforços, não pôde mais fazer as cerimônias da festa, deu ordem de guardar silêncio sobre os prodígios e aparições de que o povo não tinha conhecimento. Disse e mandou outros sacerdotes também dizerem que esses sinais de cólera divina eram provocados pelos partidários do galileu crucificado, que entraram no Templo sem se terem purificado; que somente os inimigos da santa lei, a qual Jesus também quisera derrubar, tinham causado esse terror. Muito se devia também à feitiçaria do galileu que, como em vida, assim também na morte, perturbava a paz do Templo”. Desse modo conseguiu acalmar muitos e intimidar outros com ameaças; muitos, porém, estavam profundamente abalados e ocultavam os sentimentos. A festa foi adiada, até a purificação do Templo. Muitos cordeiros foram imolados; o povo dispersou-se pouco a pouco.
 
O túmulo de Zacarias, sob o muro do Templo, desabara, arrastando consigo as pedras do muro; Zacarias saiu do túmulo, mas não voltou mais para lá, não sei onde depositou de novo os restos mortais. Os filhos ressuscitados de Simeão o Justo, depositaram os corpos novamente, no túmulo, ao pé do monte do Templo, na hora em que o corpo de Jesus foi preparado para a sepultura.
 
Enquanto tudo isso se passava no Templo, reinava o mesmo espanto em muitas partes de Jerusalém. Logo depois das três horas, ruíram muitos túmulos, particularmente na região dos jardins, ao noroeste, dentro da cidade. Vi lá, nos túmulos, mortos ainda envoltos em panos; em outros jaziam esqueletos, com farrapos apodrecidos, de muitos saia um mau cheiro insuportável.
 
No tribunal de Caifás desabaram as escadas em que Jesus fora escarnecido, também parte do fogão do átrio, onde Pedro começara a negar Jesus. A destruição era tal, que era preciso procurar outra entrada. Ali apareceu o corpo do Sumo Sacerdote Simão o Justo, a cuja descendência pertencia Simeão, que proferiu a profecia, na apresentação do Menino Jesus no Templo. Esse falou algumas palavras ameaçadoras, a respeito do julgamento injusto que se fizera ali.
 
Estavam reunidos alguns membros do Sinédrio. Os criados que no dia anterior deixaram entrar Pedro e João, converteram-se e fugiram para as cavernas onde estavam escondidos os discípulos. No palácio de Pilatos se fendeu a pedra e afundou-se o solo onde Jesus fora apresentado ao povo por Pilatos. Todo o edifício tremeu e vacilou; no pátio do tribunal vizinho se afundou todo o lugar onde estavam sepultados os corpos das inocentes crianças que Herodes mandara assassinar. Em vários outros lugares da cidade se fenderam muros, caíram paredes; mas nenhum edifício foi totalmente destruído.
 
Pilatos, supersticioso e confuso, estava preso de terror e incapaz de desempenhar o cargo; o terremoto abalou-lhe o palácio, o solo tremia-lhe debaixo dos pés, fugia de uma sala para outra. Os mortos mostravam-se-lhe no átrio do palácio, lançando-lhe em rosto o julgamento iníquo e a sentença contraditória. Julgando que fossem os deuses do profeta Jesus, encerrou-se num quarto secreto do palácio, onde ofereceu incenso e sacrifícios aos deus pagãos, fazendo promessas, para que os ídolos impedissem os deuses do Galileu de fazer-lhe mal. Herodes estava no palácio, desvairado de pavor e mandara fechar todas as portas.
 
Foram cerca de cem os mortos, de todas as épocas, que em Jerusalém e arredores se levantaram dos sepulcros destruídos e na maior parte se dirigiram, dois a dois, a diversos pontos da cidade, apresentando-se ao povo, que fugia em todas as direções e dando, em algumas palavras, severo testemunho de Jesus. A maior parte dos túmulos estavam situados na solidão do vales, fora da cidade; mas havia-os também nos novos bairros da cidade, especialmente na região dos jardins, ao noroeste, entre a porta angular e a do Calvário; também em redor e debaixo do Templo havia muitos túmulos ocultos ou esquecidos.
 
Nem todos os mortos que pela destruição dos túmulos ficaram à vista, ressuscitaram; havia muitos que se tornavam vivíveis só porque estavam numa sepultura comum com os outros. Muitos, porém, cujas almas Jesus mandara do Limbo à terra, se levantaram, descobriram o rosto e andavam, como pairando, pelas ruas, iam às casas dos parentes, entravam nas casas dos descendentes, censurando-os com palavras ameaçadoras, por terem tomado parte na morte de Jesus.
 
Vi as aparições procurarem juntar-se, conforme as antigas amizades e andar duas a duas pelas ruas da cidade. Não vi o movimento dos pés sob as longas túnicas mortuárias, pareciam pairar sobre o solo, sem o tocar; as mãos ou estavam envoltas em largas faixas de linho, ou escondidas nas largas mangas pendentes e ligadas em redor dos braços; os véus do rosto estavam levantados e postos sobre a cabeça; as faces pálidas, amareladas e secas, destacavam-se das longas barbas; as vozes tinham um som estranho e incomum. Essas vozes eram a única manifestação dos corpos, que passavam de lugar em lugar, sem parar e sem se importar com o que encontravam no caminho; parecia que eram só vozes.
 
Estavam diversamente vestidos, conforme a época da morte e segundo a classe e a idade. Nas encruzilhadas, onde fora promulgada a sentença de morte contra Jesus, paravam, proclamando a glória de Jesus e a maldição dos assassinos. Os homens ficavam longe, escutando-os a tremer e fugiam quando eles continuavam o caminho. No fórum, diante do palácio de Pilatos, ouvi-os proferir palavras ameaçadoras; lembro-me da palavra: “Juiz sanguinário!”
 
– Todo o povo se ocultou nos cantos mais escondidos das casas; havia grande medo e susto na cidade. Pelas quatro horas da tarde voltaram os mortos para os túmulos. Mas depois da ressurreição de Jesus Cristo ainda apareceram muitos espíritos, em vários lugares. O sacrifício foi interrompido; era uma confusão geral; só uma pequena parte do povo comeu o cordeiro pascal à noite.
 
Outras aparições depois da morte de Jesus.
 
Entre os muitos mortos ressuscitados, que dentro e em redor de Jerusalém se contavam cerca de cem, não havia nenhum parente de Jesus. Os túmulos ao noroeste estavam antigamente fora da cidade, mas pelo alargamento da mesma, ficaram depois dentro dos muros. Tive também visões de diversos mortos, que em vários lugares da Terra Santa ressuscitaram, aparecendo aos parentes e dando testemunho de Jesus e da missão que viera cumprir na terra.
 
Assim vi Zaboc, homem muito piedoso, que tinha dado todos os bens aos pobres e ao Templo e fundado a comunidade dos Essenos, perto de Hebron; foi um dos últimos profetas antes de Cristo e esperava e anelava pela vinda do Messias, de quem tinha muitas revelações; tinha também relações com os antepassados da Sagrada Família. Vi esse Zadoc, que viveu uns cem anos antes de Jesus, ressuscitar a aparecer a diversas pessoas, na região de Hebron. Numa visão anterior vi que foi dos que primeiro depositaram novamente o respectivo corpo e depois acompanharam a alma de Jesus. Vi também vários mortos aparecerem aos discípulos do Senhor, escondidos nas cavernas, exortando-os à fé.
 
Vi que as trevas e o terremoto espalharam terror e destruição, não só em Jerusalém e arredores, mas também em outras partes do país, mesmo em lugares longínquos. Ainda me lembro dos seguintes casos: Em Tirza desabaram as torres da cadeia, da qual Jesus resgatara alguns presos e vários outros edifícios. Na terra do Cabul houve desabamentos em muitos lugares. Em toda a Galiléia, onde Jesus tinha vivido e pregado mais tempo, vi desabar, em muitos lugares, edifícios, sobretudo muitas casas de fariseus que tinham perseguido Jesus com mais ódio e que então estavam todos na festa em Jerusalém e cujas mulheres e filhos morreram soterrados sob os destroços das casas.
 
As devastações em redor do lago de Genezaré (mar de Galiléia) eram consideráveis. Em Cafarnaum caíram muitíssimos edifícios; a povoação dos escravos, situada entre Tiberias e os jardins de Zorobabel, Centurião de Cafarnaum, foi quase completamente destruída.
 
O rochedo que formava uma pequena península no lago e fazia parte de belos jardins do Centurião, perto de Cafarnaum, desmoronou-se todo; o lago entrou pelo vale a dentro e chegou até perto de Cafarnaum, que dantes estava distante quase meia hora. A casa de Pedro e a morda da Santíssima Virgem, entre Cafarnaum e o lago, ficaram intactas. As águas do mar da Galiléia estavam muito agitadas; as margens ruíram em algumas partes e em outras se levantaram. O lago mudou consideravelmente de forma, ficando mais ou menos como está hoje e a configuração das respectivas margens quase não se conhece mais. De maior importância foram as mudanças na extremidade sudoeste do lago, logo abaixo do Tariquéia, onde havia um dique comprido e escuro, que separava o lago de um pântano e dava firme direção às águas do Jordã, ao saírem do lago; todo esse dique foi levado pelas águas, causando vastas destruições.
 
No lado oriental do lago, onde os porcos dos Gerazenos se tinham lançado no pântano, afundaram-se muitas terras, como também em Gergesa, Gerasa e em todo o distrito de Corazim. Também o monte da segunda multiplicação dos pães sofreu forte abalo e a pedra sobre a qual fora colocado o pão, partiu-se ao meio. Dentro e em redor de Panéas desabaram também muitas casas.
 
Na Decápolis desapareceram partes inteiras de cidades; muitos lugares na Ásia sofreram grandes prejuízos, como, por exemplo, Nicéa e principalmente muitos lugares a leste e nordeste de Panéas. Também na Galiléia superior vi grande destruição e os fariseus encontraram, ao voltar da festa, muita desgraça em casa. Alguns receberam a notícia já em Jerusalém; foi por isso que os inimigos de Jesus ficaram tão abatidos, até depois de Pentecostes e não ousaram tomar medida alguma importante contra a comunidade do Senhor.
 
No monte Garizim vi ruir grande parte do Templo. Havia lá um ídolo em cima de um poço, num pequeno Templo, cujo telhado, junto com o ídolo, caiu na água do poço. Em Nazaré desabou metade da sinagoga, da qual os judeus expulsaram Jesus; também a parte do rochedo da qual quiseram lançá-lo no abismo, desmoronou-se.
 
Muitas montanhas, vales e cidades sofreram forte destruição. O leito do Jordão mudou-se em várias partes; Pois pelos abalos do litoral do mar da Galiléia e pelas mudanças das correntes dos riachos, formaram-se obstáculos e mudou-se a corrente das águas, de modo que o leito do Jordão é hoje muito diferente do que era antes. Em Machérus e em outras cidades de Herodes, ficou tudo calmo e inalterado; essa região estava fora do círculo da penitência e da ameaça, como aqueles homens no horto das Oliveiras, que não caíram e por isso também não se levantaram.
 
Em algumas regiões, aonde havia muitos espíritos maus, vi-os em grande número afundar-se na terra, juntamente com os edifícios e montes destruídos; os tremores de terra recordaram-me então as convulsões dos possessos, quando o demônio sente que é obrigado a sair. No momento em que, perto de Gergesa, se afundou no pântano parte do monte, de onde outrora os demônios se lançaram no pântano, com a manada de porcos, vi imensa multidão de maus espíritos cair, como uma nuvem sinistra e afundar-se com o monte no abismo.
 
Creio que foi em Nicéia que vi um acontecimento, de cujos pormenores me lembro só imperfeitamente. Vi um porto, com muitos navios e numa casa, com uma torre alta, perto do porto, vi um homem; era pagão, o capitão do porto. Tinha por obrigação subir muitas vezes à torre e observar o mar, a ver se chegavam navios ou velar por qualquer acontecimento. Vi que, ouvindo forte estrondo sobre os navios do porto e temendo a aproximação de um inimigo, subiu apressadamente à torre; olhando para os navios, viu-lhes pairar acima grande número de figuras escuras, que, com vozes lamentosas, lhe gritaram: “Se queres conservar os navios, leva-os para fora do porto; pois devemos voltar ao abismo; morreu o grande Pan”.
 
É o que me lembro ainda distintamente dessa visão; disseram-lhe outras coisas ainda e deram-lhe muitas ordens, onde e como devia revelar, numa viagem marítima iminente, o que lhes tinham dito; exportaram-no também a receber bem os mensageiros que viriam, anunciando a doutrina e a morte daquele que nesse momento tinha falecido.
 
Os maus espíritos foram desse modo obrigados pelo poder de Deus a avisar esse homem bom, tornando-se assim núncios de sua própria ignomínia. O capitão do porto mandou, pois, pôr a seguro os navios, quando estava iminente uma violenta tempestade; vi então os demônios se lançarem rugindo no mar e a metade da cidade ficou destruída pelo terremoto. A casa com a torre ficou intacta. O homem fez depois longas viagens em navio, cumprindo todas as ordens que recebera e anunciando a morte do grande Pan, como os demônios tinham chamado ao Senhor; mais tarde chegou também a Roma, onde se admiram muito daquela narração. Vi ainda muitas outras coisas desse homem, mas esqueci-as; entre outras, vi que uma das suas narrativas de viagens, misturada com os acontecimentos que contei, se propagou muito entre os povos, mas não me lembro mais da conexão. Creio que tinha um nome semelhante a Tamus ou Tramus.
 
José de Arimatéia pede a Pilatos o corpo de Jesus.
 
Mal se tinha restabelecido um pouco a calma em Jerusalém, depois de tantos acontecimentos assustadores, quando Pilatos, tão consternado, foi importunado de todos os lados com narrativas do que sucedera. Também o Supremo Conselho lhe mandou, como já resolvera de manhã, um requerimento, pedindo que mandasse esmagar as pernas dos sacrificados, para que morressem mais depressa e tirá-los depois da cruz, para que não ficassem pendurados durante o Sábado. Pilatos enviou, pois, os carrascos para esse fim ao Calvário.
 
Pouco depois vi José de Arimatéia entrar no palácio de Pilatos. Já recebera a notícia da morte de Jesus e resolvera, com Nicodemos, sepultar o corpo do Senhor no sepulcro novo que escavara na rocha do seu jardim, não longe do monte Calvário. Creio tê-lo visto já fora da porta da cidade, onde observou tudo que se passou e deliberou o que se devia fazer; pelo menos vi lá homens que, por ordem dele limpavam o jardim do sepulcro e ainda terminavam algumas obras no interior mesmo. Nicodemos também foi a diversos lugares, para comprar panos e especiarias para o embalsamamento do corpo; depois esperou a volta de José.
 
Esse encontrou Pilatos muito assustado e incomodado; pediu-lhe francamente e sem hesitação licença para tirar da cruz o corpo de Jesus, rei dos judeus, porque queria sepultá-Lo no seu próprio sepulcro. O fato de um homem tão distinto pedir, com tal insistência, licença para prestar a última homenagem ao corpo de Jesus, a quem o juiz iníquo tão ignominiosamente mandara crucificar, abalou-lhe ainda mais a consciência; aumentou-se-lhe ainda mais a convicção da inocência de Jesus e com ela, o remorso; mas, fingindo calma, perguntou: “Então já está morto?”, pois havia poucos minutos apenas que mandara os carrascos matar os crucificados, quebrando-lhe as pernas.
 
Mandou por isso chamar o centurião Abenadar, que voltara das cavernas, onde falara com alguns dos discípulos; perguntou-lhe se o rei dos judeus já tinha morrido. Então relatou Abenadar a morte do Senhor, às três horas, as últimas palavras e o grito forte de Jesus, o tremor de terra e o abalo que fendeu o rochedo. Exteriormente parecia Pilatos admirar-se apenas que tivesse morrido tão cedo, porque os crucificados em geral viviam mais tempo; mas interiormente estava assustado e amedrontado, pela coincidência desses sinais com a morte de Jesus.
 
Queria talvez disfarçar um pouco a crueldade com que procedera; pois despachou imediatamente uma ordem escrita, entregando a José de Arimatéia o corpo do rei dos judeus, com a licença de tirá-Lo da cruz e sepultá-Lo. Estava satisfeito de poder assim pregar uma peça aos príncipes dos sacerdotes, que teriam visto com prazer Jesus ser enterrado ignominiosamente com os dois ladrões. Mandou também alguém ao Calvário, para fazer executar essa ordem. Creio que foi o mesmo Abenadar; pois que o vi tomar parte no descendimento de Jesus da cruz.
 
Saindo do palácio de Pilatos, foi José de Arimatéia encontrar-se com Nicodemos, que o estava esperando na casa de uma boa mulher, situada numa rua larga, próximo do beco em que Jesus, logo no começo do doloroso caminho da cruz, fora tão vilmente ultrajado. Nicodemos tinha comprado muitas ervas e especiarias para o embalsamamento, em parte da mesma mulher, que vendia ervas aromáticas, em parte em outros negócios, onde a própria mulher fora comprar as especiarias que não tinha, como também vários panos e faixas, necessárias para o embalsamamento.
 
De todos esses objetos fez-lhe um pacote que pudesse como comodamente transportar. José de Arimatéia também foi ainda a outro lugar, para comprar um pano grande de algodão, muito bonito e fino, com seis côvados de comprimentos e vários côvados de largura. Os criados foram buscar no armazém, ao lado da casa de Nicodemos, escadas, martelos, ponteiros, odres, vasilhas, esponjas e outros objetos necessários para aquele fim. Colocaram os objetos menores numa padiola, semelhante àquela em que os discípulos levaram o corpo de João Batista, que tinham raptado do castelo forte de Herodes.
 
O coração de Jesus trespassado por uma lança. Esmagamento das pernas e morte dos ladrões.
 
Durante todo esse tempo reinava silêncio e tristeza sobre o Gólgota. O povo assustado dispersara-se, indo esconder-se em casa. A Mãe de Jesus e João, Madalena, Maria, filha de Cléofas e Salomé estavam, em pé ou sentados, em frente à cruz, com as cabeças veladas, chorando. Alguns soldados estavam sentados no barranco, com as lanças fincadas no chão. Cássio, a cavalo, ia de um lado para outro. Os soldados conversavam do alto do Calvário com outros que estavam mais em baixo. O céu estava nublado e toda a natureza parecia abatida e de luto. Vieram então seis carrascos, subindo o monte Calvário; trouxeram escadas, pás e cordas, como também pesadas maças de ferro de três gumes, para esmagar as pernas dos executados.
 
Quando os carrascos entraram no círculo do suplício, os parentes de Jesus retiraram-se um pouco. A Santíssima Virgem foi novamente presa de angústia e receio de que os verdugos ainda maltratassem o Corpo de Jesus; pois encostaram as escadas à cruz e subindo, sacudiram o santo Corpo conferindo se apenas se fingia morto. Como, porém, notassem que o corpo já estava inteiramente frio e rígido e João, a pedido das mulheres piedosas, a eles se dirigisse para impedir a crueldade, deixaram provisoriamente o corpo do Senhor, mas não pareciam convencidos de que estivesse morto.
 
Subiram então pelas escadas nas cruzes dos ladrões; dois esmagaram, com as maças cortantes, os ossos dos braços acima e abaixo do cotovelo, um terceiro fez o mesmo acima e nas canelas, abaixo dos joelhos. Gesmas soltou gritos horríveis. Esmagaram-lhe em três golpes o peito, para acabar de matá-lo. Dimas gemeu com a tortura e morreu; foi o primeiro mortal que tornou a ver o Redentor. Os carrascos desataram então as cordas, deixando cair os corpos no chão e arrastando-os depois com cordas, para o vale entre o Calvário e o muro da cidade, onde os enterraram.
 
Os carrascos ainda pareciam duvidar da morte do Senhor e os parentes de Jesus estavam ainda mais assustados, pela brutalidade com que haviam procedido e com medo de que pudessem voltar. Mas Cássio, oficial subalterno, homem de 25 anos, ativo e um pouco precipitado, cuja vista curta e cujos olhos tortos, juntamente com os ares de importância que se dava, provocavam freqüentemente a troça dos subordinados, recebeu de repente uma inspiração sobrenatural. A crueldade e vil brutalidade dos carrascos, o medo das santas mulheres e um impulso repentino, causando por uma graça divina, fizeram-no cumprir uma profecia.
 
Ajustando a lança, que trazia em geral dobrada e encurtada, firmou-lhe a ponta e virando o cavalo, esporeou-o para subir o cume, onde estava a cruz e onde o cavalo quase não podia virar; vi como o afastou da fenda do rochedo. Parando assim entre a cruz do bom ladrão e a de Jesus, ao lado direito do corpo de Nosso Salvador, tomou a lança com ambas as mãos e introduziu-a com tal força no lado direito do Santo Corpo, através das entranhas e do coração, que a ponta da lança saiu um pouco do lado esquerdo, abrindo uma pequena ferida. Quando tirou depois com força a santa lança, brotou da larga chaga do lado direito do Redentor um rio de sangue e água que, caindo, banhou o rosto de Cássio, como uma onda de salvação e graça. Ele saltou do cavalo e, prostrando-se de joelhos, bateu no peito e confessou a fé em Jesus em alta voz, diante de todos os presentes.
 
A Santíssima Virgem e os outros, cujos olhos estavam sempre fixos no Salvador, viram a súbita ação do oficial com grande angústia e acompanharam o golpe da lança com um grito de dor, precipitando-se para a cruz. Maria caiu nos braços das amigas, como se a lança lhe tivesse transpassado o próprio coração e sentisse o ferro cortante atravessá-lo de lado a lado. Cássio, caindo de joelhos, louvava a Deus, pois, iluminado pela graça, ficou crendo e também os olhos do corpo se lhe curaram e desde então via tudo claro e distinto. Mas ao mesmo tempo ficaram todos profundamente comovidos à vista do sangue que, misturando com água, se juntara, espumante, numa cavidade da rocha, ao pé da cruz; Cássio, Maria Santíssima, as santas mulheres e João apanharam o sangue e a água em tigelas, guardando-o depois em frascos e enxugando-o da rocha com panos.
 
Cássio estava como que transformado; tinha recobrado a vista perfeita e profundamente comovido, curvava-se diante de Deus, com coração humilde. Os soldados presentes, tocados pelo milagre que se operara nele, prostaram-se de joelhos, batiam no peito e louvavam a Jesus. O sangue e a água corriam abundantemente da larga chaga do lado direito do Salvador, sobre a rocha limpa, onde se juntaram; apanharam-no, com indizível comoção e as lágrimas de Maria e Madalena misturavam-se-lhe. Os carrascos, que nesse ínterim tinham recebido a ordem de Pilatos de não tocar no corpo de Jesus, que doara a José de Arimatéia, para o sepultar, não voltaram mais.
 
A lança de Cássio, constava de várias peças, que eram ajustadas uma sobre a outra; quando dobrada, parecia apenas um bastão, de pouco comprimento. A parte de ferro que feria, tinha a forma de pêra achatada; quando se queria servir da lança, enfiava-se-lhe a ponta e abriam se em baixo duas lâminas de ferro, curvas e movediças.
 
Tudo isso se passou em redor da cruz de Jesus, logo depois das quatro horas, quando José de Arimatéia e Nicodemos estavam ocupados em juntar as coisas necessárias para o enterro. Os criados de José de Arimatéia foram, enviados para limpar o sepulcro e anunciaram aos amigos de Jesus no Gólgota que José recebera de Pilatos licença para tirar da cruz o corpo do Mestre e sepultá-lo no seu sepulcro; então voltou João, com as santas mulheres, à cidade, dirigindo-se ao monte Sião, para que a Santíssima Virgem pudesse tomar algum alimento e também para buscar alguns objetos para o enterro. Maria tinha uma pequena habitação nos edifícios laterais do Cenáculo. Não entraram pela porta mais próxima, mas, mais ao sul, pela porta que conduz a Belém; pois a porta para o Calvário estava fechada e ocupada por dentro pelos soldados que os fariseus tinham requisitado, com medo de um levante do povo.
 
A descida de Jesus aos infernos.
 
Quando Jesus, com um grito forte, rendeu a santíssima alma, vi-a, qual figura luminosa, acompanhada de muitos Anjos, entre os quais também Gabriel, descer pela terra a dentro, ao pé da cruz. Vi, porém, que a divindade lhe ficou unida tanto à alma, como também ao corpo, pregado à cruz. Não sei explicar o modo porque se passou. Vi o lugar aonde se dirigiu a alma de Jesus; era dividido em três partes, parecendo três mundos e eu tinha a sensação de que tinha a forma redonda e que cada um estava separado do outro por uma esfera.
 
Antes de chegar ao limbo, havia um lugar claro, e por assim dizer, mais verdejante e alegre. Era o lugar em que vejo sempre entrarem as almas remidas do purgatório, antes de serem levadas ao céu. O limbo, onde se achavam os que esperavam a redenção, estava cercado de uma esfera cinzenta, nebulosa e dividido em vários círculos. Nosso Salvador, conduzido pelos Anjos como em triunfo, entrou por entre dois desses círculos, dos quais o esquerdo encerrava os Patriarcas até Abraão e o direito as almas de Abraão até João Batista.Jesus penetrou por entre os dois; eles, porém, ainda não o conheciam, mas estavam todos cheios de alegria e desejo; foi como se dilatassem esses páramos da saudade angustiosa, como se ali entrassem o ar, a luz e o orvalho da Redenção.
 
Tudo se deu rapidamente, como o sopro do vento. Jesus penetrou através dos dois círculos, até um lugar cercado de neblina, onde se achavam Adão e Eva, nossos primeiros pais. Falou-lhes e adoraram-no com indizível felicidade. O cortejo do senhor, ao qual se juntou o primeiro casal humano, dirigiu-se então à esquerda, ao limbo dos Patriarcas que tinham vivido antes de Abraão. Era uma espécie de purgatório; pois entre eles se moviam, cá e lá, maus espíritos, que atormentavam e inquietavam algumas dessas almas de muitas maneiras.
 
Os anjos bateram e mandaram que abrissem; pois havia lá uma entrada, uma espécie de porta, que estava fechada; os anjos anunciaram a vinda do Senhor, parecia-me ouvi-los exclamar: “Abri as portas!” Jesus entrou triunfantemente; os espíritos maus, retirando-se, gritaram: “Que tens conosco? Que queres fazer de nós? Queres crucificar-nos também?, etc”. 
 
 – Os anjos, porém, amarraram-nos e empurraram-nos para diante. Essas almas sabiam pouco de Jesus, tinham só uma idéia obscura do Salvador; Jesus anunciou-lhes a Redenção e eles lhe cantaram louvores. Dirigiu-se então a alma do Senhor ao espaço a direita, ao verdadeiro limbo, em frente ao qual se encontrou com a alma do bom ladrão que, cercado de espíritos maus, foi precipitada no inferno. A alma de Jesus dirigiu-lhes algumas palavras e entrou então no seio de Abraão, acompanhada dos Anjos, das almas remidas e dos demônios expulsos.
 
Esse lugar parecia-me situado um pouco mais alto; era como se subisse do subterrâneo de uma igreja à igreja superior. Os demônios amarrados quiseram resistir, não queriam passar; mas foram levados a força pelos Anjos. Neste lugar estavam todos os santos Israelitas, a esquerda dos Patriarcas, Moisés, os Juizes, os Reis; a direita os profetas e todos os antepassados e parentes de Jesus, até Joaquim, Ana, José, Zacarias, Isabel e João.
 
Nesse lugar não havia nenhum mau espírito, nem tormento algum, a não ser o desejo ansioso da Redenção, que se realizaria enfim. Indizível delicia e felicidade enchia as almas todas, que saudavam e adoravam o Salvador; os demônios amarrados foram obrigados a confessar sua ignomínia diante delas. Muitas dessas almas foram enviadas à terra, para entrar nos respectivos corpos e dar testemunho do Senhor. Foi nesse momento que tantos mortos saíram dos sepulcros em Jerusalém; apareciam como cadáveres ambulantes, depositando depois novamente os corpos, como um mensageiro da justiça deposita o manto oficial, depois de ter cumprido as ordens do superior.
 
Vi depois o cortejo triunfal do Salvador entrar numa esfera mais baixa, uma espécie de lugar de purificação, onde se achavam piedosos pagãos e tinham tido um pressentimento da verdade e o desejo de conhecê-la. Havia entre eles espíritos maus, porque tinham ídolos; vi os espíritos malignos forçados a confessar o embuste e as almas adorarem o Senhor com alegria tocante. Os demônios desse lugar foram também amarrados e levados no cortejo. Assim vi o Salvador passar triunfalmente com grande velocidade, por vários lugares onde estavam almas encerradas, libertando-as e fazendo ainda muitas outras coisas, mas no meu estado de miséria não posso contar tudo.
 
Por fim o vi aproximar-se, com ar severo, do centro do abismo, do inferno, que me apareceu sob a forma de um imenso edifício horrível, formado de negros rochedos, de brilho metálico, cuja entrada tinha enormes portas, terríveis, pretas, fechadas com fechaduras e ferrolhos que causavam medo. Ouviam-se uivos de desespero e gritos de tormento, abriram-se as portas e apareceu um mundo hediondo e tenebroso.
 
 Assim como vi as moradas dos bem-aventurados sob a forma de uma cidade, a Jerusalém celeste, com muitos palácios e jardins, cheios de frutas e flores maravilhosas, de várias espécies, conforme as inúmeras condições e graus de santidade, assim vi também o inferno como um mundo separado, com muitos edifícios, moradas e campos. Mas tudo destinado, ao contrário, a tortura e as penas dos condenados. Como na morada dos bem aventurados tudo é disposto segundo as causas e condições da eterna paz, harmonia e alegria, assim no inferno se manifesta em tudo a eterna ira, a discórdia e desespero.
 
Como no céu há muitíssimos edifícios, indizivelmente belos, transparentes, destinados a alegria e adoração, assim há no inferno inúmeros e variados cárceres e cavernas, cheios de tortura, maldição e desespero. No céu há maravilhosos jardins, cheios de frutos de gozo divino; no inferno horrendos desertos e pântanos, cheios de tormentos e angustias e de tudo que pode causar horror, medo e nojo.
 
Vi tempos, altares, castelos, tronos, jardins, lagos, rios de maldição, de ódio, de horror, de desespero, de confusão, de pena e tortura; com há no céu rios de benção, de amor de concórdia, de alegria e felicidade; aqui a eterna, terrível discórdia dos condenados; lá a união bem-aventurada dos santos.
 
Todas as raízes da corrupção e do erro produzem aqui tortura e suplicio, em inumeráveis manifestações e operações; há só um pensamento reto: a idéia austera da justiça divina, segundo a qual cada condenado sofre a pena, o suplicio, que é o fruto necessário de seu crime; pois tudo que se passa e se vê de horrível nesse lugar, é a essência, a forma e a perversidade do pecado desmascarado, da serpente que atormenta com o veneno maldoso os que o alimentaram no seio. Vi lá uma colunata horrorosa, em que tudo se referia ao horror e a angústia, como no reino de Deus a paz e ao repouso. Tudo se compreende facilmente, ao vê-lo, mas é quase impossível exprimir tudo em palavras.
 
Quando os anjos abriram as portas, viu-se um caos de contradição, de maldições, de injurias, de uivos e gritos de dor. Vi Jesus falar a alma de Judas. Alguns dos anjos prostraram exércitos inteiros de demônios. Todos foram obrigados a reconhecer e adorara Jesus, o que foi para eles o maior suplício. Grande número deles foram amarrados a um círculo, que cercava muitos outros, que deste modo também ficaram presos.
 
No centro havia um abismo de trevas, Lúcifer foi amarrado e lançado nesse abismo, onde vapores negros lhe ferviam em redor. Tudo se fez segundo os decretos divinos. Ouvi dizer que Lúcifer, se não me engano, 50 ou 60 anos antes do ano 2.000 de Cristo, seria novamente solto por certo tempo. Muitas outras datas e números foram indicados, dos quais não me lembro mais. Deviam ser soltos ainda outros demônios antes desse tempo, para provação e castigo dos homens. Creio que também em nosso tempo era a vez de alguns deles e de outros pouco depois do nosso tempo.
 
É-me impossível contar tudo quanto me foi mostrado; são muitas coisas e não as posso relatar em boa ordem; também me sinto tão doente e quando falo dessas coisas, elas se me representam novamente diante dos olhos e só o aspecto já é suficiente para nos fazer morrer.
 
Ainda vi exércitos imensos de almas remidas saírem do purgatório e do limbo, acompanhando o Senhor, para um lugar de delicias abaixo da Jerusalém celeste. Foi lá que vi também, há algum tempo, um amigo falecido. A alma do bom ladrão foi também conduzida para lá e viu assim o Senhor no Paraíso, conforme a promessa. Vi que nesse lugar foram preparados banquetes de alegria e conforto, como os tenho visto já muitas vezes, em visões consoladoras.
 
Não posso indicar com exatidão o tempo de tudo que se passou, como também não posso contar tudo quanto vi e ouvi lá porque eu mesma não compreendo mais tudo, já porque podia ser mal compreendida pelos ouvintes. Vi, porém, o Senhor em lugares muito diferentes, até no mar, parecia santificar e libertar todas as criaturas; em toda parte fugiam os maus espíritos diante dele e lançaram-se no abismo. Vi também a alma do Senhor em muitos lugares da terra.
 
 Vi-O aparecer no sepulcro de Adão e Eva, sob o Gólgota. As almas de Adão e Eva juntaram-se-lhe novamente; falou-lhes e com elas O vi passar, como sob a terra, em muitas direções e visitar os túmulos de muitos profetas, cujas lamas se lhe juntaram, próximo das respectivas ossadas e explicou-lhes o Senhor muitas coisas. Vi-O depois, com esse séqüito escolhido, em que seguia também Davi, passar em muitos lugares de sua vida e paixão, explicando-lhes com indizível amor todos os fatos simbólicos que se tinham dado ali e o cumprimento dessas figuras em sua pessoa.
 
Vi-O especialmente explicar as almas tudo quanto se dera de fatos figurativos no lugar me que foi batizado e contemplei muito comovido a infinita misericórdia de Jesus, que as fez participar da graça de seu santo Batismo.
 
Causou-me inexprimível comoção ver a alma do Senhor, acompanhada por esses espíritos bem aventurados e consolados, passar, como um raio de luz, através da terra escura e dos rochedos, pelas águas e pelo ar e pairar tão sereno sobre a terra.
 
É o pouco de que me lembro ainda, de minha contemplação da descida do Senhor aos infernos e da redenção das almas dos Patriarcas, depois de sua morte; mas além dessa visão dos tempos passados, vi nesse dia uma imagem eterna de sua misericórdia para com as pobres almas do purgatório. Vi que, a em cada aniversário desse dia, lança por meio da Igreja, um olhar de salvação ao purgatório; vi que já no Sábado Santo remiu algumas almas do purgatório, que tinham pecado contra ele na hora da crucificação.
 
A primeira descida de Jesus ao limbo é o cumprimento de figuras anteriores e, por sua vez, é a figura da redenção atual. A descida aos infernos que vi, referia-se ao tempo passado, mas a salvação de hoje é uma verdade permanente; pois a descida de Jesus aos infernos é o plantio de uma árvore de graça, destinada a administrar os seus méritos divinos as almas do purgatório e a redenção contínua e atual dessas almas é o fruto dessa árvore da graça no jardim espiritual do ano eclesiástico.
 
A Igreja militante deve cuidar dessa árvore, colher-lhe frutos, para os outorgar a Igreja padecente, porque essa nada pode fazer em seu próprio proveito. Eis o que se dá em todos os merecimentos de Nosso Senhor; é preciso cooperar, para ter neles. Devemos comer o pão ganho com os suor do nosso rosto. Tudo quanto Jesus fez por nós no tempo, dá frutos eternos; mas devemos cultivá-los e colhê-los no tempo, para poder gozá-los na eternidade.
 
A Igreja é como um bom pai de família; o ano eclesiástico é o jardim mais perfeito, com todos os frutos eternos no tempo; em um ano tem bastante de tudo para todos. Ai! Dos jardineiros preguiçosos e infiéis, que deixam perder uma graça, que poderia curar um enfermo, fortalecer um fraco, saciar um faminto: no dia de juízo terão de dar conta até do menor pezinho de erva.
 
A sepultura de Jesus.
 
O jardim e o sepulcro de José de Arimatéia
 
Esse jardim está situado a cerca de sete minutos do monte Calvário, perto da porta de Belém, na encosta que vai subindo até os muros da cidade; é um belo jardim, com grandes árvores e bancos, em lugares com sombra; de um lado se estende até o muro da cidade, no alto da encosta. Quem vem da porta ao norte do vale, entrando no jardim, tem à esquerda o terreno do jardim, que sobe até o muro da cidade; e vê no fundo do mesmo, à direita, um rochedo isolado, onde é o sepulcro.
 
Essa porta é de metal, que parece ser cobre e abre em dois batentes que, abertos, se encostam à parede em ambos os lados; não fica perpendicular, mas um pouco inclinada para o nicho e quase tocando o solo, de modo que uma pedra colocada em frente impede de abri-la. A pedra destinada a esse fim ainda estava fora da gruta e foi colocada à porta fechada só depois de depositado o corpo do Nosso Senhor no sepulcro. É grande e um pouco arredondada para o lado da porta, porque as paredes laterais também não é necessário rolar a pedra para fora da gruta, o que seria bastante difícil, por causa da falta de espaço; mas passa-se uma corrente, que pende da abobada, através de algumas argolas, fixas para esse fim na pedra; puxando pela corrente, levanta-se a pedra, mas mesmo assim, só com esforço de vários homens se a desloca, encostando-a à parede lateral.
 
Em frente á entrada da gruta, há no jardim um banco de pedra. Pode-se subir o rochedo do sepulcro e andar sobre a relva de que é coberto; de lá se avista justamente o muro da cidade e também o ponto mais alto de Sião e algumas torres; vê-se também de lá a porta de Belém, um aqueduto e a fonte de Gion. A rocha no interior da gruta é branca, com veios vermelhos e pardos. Toda a obra da gruta foi feita com muito capricho.
 
O descendimento da cruz.
 
Enquanto a cruz ficou abandonada, cercada apenas de alguns guardas, vi cerca de cinco homens, que, vindo de Betânia, desceram pelos vales, aproximaram-se do lugar do suplício, olharam para a cruz e afastaram-se furtivamente; creio que eram discípulos. Havia, porém, dois homens, José de Arimatéia e Nicodemos, que vi três vezes nos arredores, examinando e deliberando; uma vez, durante a crucificação, estavam perto, (talvez quando mandaram comprar as vestes de Jesus da mão dos soldados). Mais tarde estavam lá para ver se o povo já se tinha afastado, indo depois ao sepulcro, para fazer alguns preparativos; do sepulcro voltaram à cruz olhando para cima e em redor, como se estudassem as condições. Fizeram o plano para o descendimento e voltaram à cidade.
 
Começaram então a juntar todas as coisas necessárias para o embalsamamento do corpo. Fizeram os servos levar as ferramentas para o descendimento do santo corpo da cruz e além disso, duas escadas, que tiraram de uma granja, perto da casa grande de Nicodemos; cada uma dessas escadas constava apenas de uma estaca, atravessada, de distância em distância, por paus, que serviram de degraus; havia nessas escadas ganchos, que se podiam fixar mais alto ou baixo, seja para prendê-las em qualquer porte, seja para pendurar neles algum objeto necessário, durante o trabalho.
 
A boa mulher em cuja casa receberam as especiarias para o embalsamamento, tinha-lhes empacotado tudo muito bem, para poderem transportá-las comodamente. Nicodemos comprara 100 arráteis de especiarias, que, segundo o nosso peso, equivale aproximadamente a 16kilos, como me foi revelado várias vezes.
 
Transportavam parte dessas especiarias em pequenos barris de cortiça, que lhes pendiam do pescoço sobre o peito. Um desses barrizinhos continha um pó. Em bolsas de pergaminho ou de couro levaram pequenos molhos de ervas. José levou também um vaso de ungüento, feito não sei de que material; era vermelho e tinha um aro azul. Os servos, como acima já mencionamos, tinham levado numa padiola: vasos, odres, esponjas e ferramentas. Levaram também fogo, numa lanterna fechada.
 
Esses servos saíram para o Calvário antes dos senhores e por uma outra porta, creio que pela de Belém. No caminho pela cidade, passaram pela casa à qual tinha ido a Santíssima Virgem, com outras mulheres e com João, afim de buscar algumas coisas necessárias para o embalsamamento do corpo do Senhor e donde saíram, seguindo os servos a pouca distância. Eram talvez cinco mulheres, algumas das quais transportavam grandes fardos de panos sob os mantos.
 
Era costume das mulheres envolver-se cuidadosamente numa longa faixa de pano, da largura de um côvado, quando saiam de noite ou quando queriam fazer secretamente uma obra piedosa. Começavam a enrolar-se por um braço e o pano envolvia-as tão estreitamente, que não podiam dar passos largos; tenho-as visto enrolarem-se assim e o pano chega comodamente para o corpo e o outro braço e ainda para velar a cabeça; nesse dia tinha algo de estranho: era o traje de luto.
 
José de Arimatéia e Nicodemos também tinham se vestido de luto: as mangas, estolas e cinta larga eram pretas; os mantos, que traziam puxados sobre a cabeça, eram longos e largos e de cor cinzenta. Cobriram tudo que transportavam com esses mantos. Ambos se dirigiram à porta do Calvário.
 
As ruas estavam desertas e silenciosas; no terror geral todo o povo se conservava em casa, com as portas fechadas. Muitos estavam prostrados por terra, fazendo penitência; só poucos celebraram as cerimônias prescritas para a festa.
 
Quando José e Nicodemos chegaram à porta, encontraram-na fechada e as ruas vizinhas, como os muros da cidade, ocupados por numerosos soldados; eram aqueles que os fariseus tinham requerido, depois de duas horas da tarde, porque tinham uma insurreição. Os soldados ainda não tinham recebido ordem de retirar-se. José apresentou-lhes uma ordem escrita de Pilatos para os deixar passar; os soldados mostraram-se prontos a obedecer a essa ordem, mas disseram-lhes que já haviam experimentado em vão abrir a porta, que provavelmente se deslocara em conseqüência do terremoto; por isso foram também os carrascos obrigados a entrar pela porta Angular, depois de quebrar as pernas dos crucificados. Mas, quando José e Nicodemos puseram as mãos nos ferrolhos, abriu-se a porta com toda a facilidade, com assombro de todos.
 
O dia ainda estava sombrio, escuro e nebuloso, quando chegaram ao Calvário, onde encontraram os servos que tinham mandado adiante, como também as santas mulheres, que estavam sentadas em frente à cruz, chorando. Cássio e vários soldados que se tinham convertido, estavam como transformados e mantinham-se a alguma distância, tímidos e respeitosos.
 
José e Nicodemos falaram com a Santíssima Virgem e João a respeito de tudo que tinham feito, para salvar Jesus da morte ignominiosa e souberam que só com dificuldade se havia impedido que as pernas de Nosso Senhor fossem quebradas e que assim se tinha cumprido a profecia. Falaram também do golpe da lança, com a qual Cássio abrira o peito de Jesus. Depois de ter chegado também o centurião Abenadar, começaram, com muita tristeza e respeito, a obra piedosa do descendimento e embalsamamento do santo corpo do Senhor, Mestre e Redentor.
 
A santíssima Virgem e Madalena estavam sentadas ao pé da cruz, à direita, entre a cruz de Dimas e a de Jesus; as outras mulheres estavam ocupadas em arrumar as especiarias e os panos, a água, as esponjas e os vasos. Cássio também se aproximou, quando viu Abenadar chegar e contou-lhe a miraculosa cura de seus olhos. Todos estavam comovidos, cheios de tristeza e amor, mas graves e silenciosos. Às vezes, quando a pressa e atenção à obra santa o permitiam, se ouvia cá e lá, um gemido abafado ou soluço. Sobretudo Madalena, muito exaltada, abandonava-se inteiramente à dor e não se lembrava dos presentes, nem se moderava por qualquer consideração.
 
Nicodemos e José encostaram as escadas por detrás da cruz, levando, ao subir, um pano largo, no qual estavam presas três largas correias, prenderam o corpo de Jesus, sob os braços e joelhos, ao lenho e seguraram os braços de Nosso Senhor, atando-os pelos pulsos aos madeiros transversais. Depois tiraram os cravos, batendo-os por detrás com ponteiros colocados sobre as pontas. As mãos do Senhor não foram muito abaladas pelos golpes do martelo e os cravos caíram facilmente das chagas, que estavam muito alargadas pelo peso do corpo e esse, seguro por meio dos panos, não pendia mais dos cravos.
 
A parte inferior do corpo que, com a morte, tombara sobre os joelhos, repousava então, em posição natural, sobre um pano, que estava seguro no alto, aos braços da cruz. Enquanto José tirava o cravo e deixava cair cuidadosamente o braço esquerdo sobre o corpo, atou Nicodemos o braço direito do mesmo modo ao da cruz, segurando também a cabeça coroada de espinhos em posição natural, pois caíra sobre o ombro direito; tirou o cravo da mão direita e fez descer o braço, com as respectivas ataduras, ao longo do corpo. Ao mesmo tempo o centurião Abenadar tirou, com grande esforço, o longo cravo dos pés.
 
Cássio apanhou respeitosamente os cravos e depositou-os aos pés da Santíssima Virgem. José e Nicodemos colocaram então as escadas no lado da frente, próximo do santo corpo, desataram a correia superior do tronco da cruz e sucessivamente as correias, pendurando-as nos ganchos da escada. Descendo então devagar das escadas e passando as correias de gancho em gancho, cada vez mais para baixo, vinha também o santo corpo descendo gradualmente para os braços do centurião Abenadar, que de pé sobre um escabelo, segurou o corpo sobre os joelhos e desceu depois com ele enquanto Nicodemos e José, segurando a parte superior pelos braços, desciam degrau por degrau das escadas, devagar e com todo cuidado, como se tranportassem um amigo querido, gravemente ferido. Assim desceu o santo e desfigurado corpo do Salvador da cruz a terra.
 
O descendimento do corpo da cruz foi um espetáculo indizivelmente tocante. Faziam todos os movimentos com tanto cuidado e carinho, como se receassem causar sofrimento ao Senhor; manifestavam ao santo corpo o mesmo amor e respeito que tinham sentido para com o Santo dos santos, durante a vida. Todos que estavam presentes, não desviavam os olhos do corpo do Senhor e acompanhavam todos os movimentos e manifestavam solicitude, estendendo os braços, derramando lágrimas ou por outros gestos de dor.
 
Mas todos guardavam silêncio; os homens que trabalhavam, penetrados de um respeito involuntário, como quem toma parte num ato religioso, só falavam a meia voz, para chamar a atenção ou pedir qualquer objeto. Quando ressoaram as marteladas que fizeram sair os pregos, Maria Santíssima, Madalena e todos que tinham assistido à crucificação, sentiram de novo as dores dilacerantes daquela hora; pois esses golpes lhes lembravam as dores cruéis de Jesus causadas pelas marteladas e todos estremeceram, pensando ouvir-Lhe novamente os gemidos penetrantes e contudo se afligiam de que a santa boca Lhe houvesse emudecido, no silêncio da morte.
 
Depois de descer o santo corpo, os homens o envolveram dos joelhos até os quadris e depositaram-no sobre um pano, nos braços da Mãe Santíssima, que olhos estendeu, cheia de dor e saudade.
 
O corpo de Jesus é preparado para a sepultura.
 
A Santíssima Virgem estava sentada sobre uma coberta, estendida sobre a terra; o joelho direito, um pouco elevado, como também as costas, apoiavam-se-lhe sobre uma almofada, feita de mantos enrolados; fizeram esse arranjo para facilitar à Mãe, exausta de dor e cansaço, a triste obra de caridade que ia fazer, para com o santo corpo do Filho querido, cruelmente assassinado.
 
A santa cabeça de Jesus, um pouco curvada, estava encostada ao joelho de Maria; o corpo jazia estendido sobre o pano. Igualavam-se a dor e o amor da Virgem Santíssima. Tinha de novo nos braços o corpo do Filho adorado, a quem durante tão longo martírio não pudera testemunhar seu amor; via quanto estava desfigurado o santo corpo, pelas horríveis crueldades, via-lhe de perto as feridas, beijava-lhe as faces sangrentas, enquanto Madalena jazia prostrada por terra, com o rosto sobre os pés de Jesus.
 
Os homens retiraram-se então para um pequeno vale, situado a sudoeste, na encosta do Calvário, onde tencionavam terminar o embalsamento e arrumaram tudo quanto era necessário para esse fim. Cássio, com um grupo de soldados que se tinham convertido, mantinha-se a respeitosa distância; toda a gente inimiga do Mestre tinha já voltado para a cidade e os soldados ainda presentes ficaram para servir de guarda e impedir que alguém viesse perturbar as últimas honras prestadas a Jesus. Alguns ajudavam, comovidos e humildes, prestando pequenos serviços, quando lhes pediam.
 
Todas as santas mulheres ajudavam, onde era preciso, passando os vaso com água, esponjas, panos e ungüentos e especiarias ou mantinham-se atentas a certa distância. Entre elas se achavam Maria, filha de Cléofas, Salomé e Verônica; Madalena estava sempre ocupada com o santo corpo; Maria Helí, a irmã mais velha da Santíssima Virgem, senhora já idosa, estava sentada silenciosa, João estava sempre ao lado da Santíssima Virgem, pronto a prestar-lhe qualquer auxílio; era o mensageiro entre as mulheres e os homens; ajudava àquelas e depois prestou também muitos serviços aos homens, durante o embalsamamento.
 
Estava tudo muito bem preparado; as mulheres trouxeram odres de couro, que se podiam abrir e dobrar e um vaso com água, que estava sobre uma fogueira de carvão. Trouxeram a Maria e a Madalena tigelas com água e esponjas limpas, espremendo as usadas e despejavam a água usada nos odres de couro. Creio, pelo que os chumaços redondos que as vi espremerem, eram esponjas.
 
A Santíssima Virgem conservava um ânimo forte, em toda a sua indizível dor; mesmo em sua tristeza não podia deixar o santo corpo no horrendo estado em que o pusera o ignominioso suplício e assim começou, com atividade infatigável, a lavá-lo cuidadosamente. Abrindo a coroa de espinhos pelo lado posterior, tirou-a cuidadosamente da cabeça de Jesus, com auxílio dos outros. Para que os espinhos que entraram na cabeça, não alargassem as feridas, foi preciso cortá-los um a um da coroa.
 
Colocaram depois a coroa junto aos cravos, ao lado, e Maria tirou alguns espinhos compridos e fragmentos que tinham ficado na cabeça do Salvador, com uma espécie de pinças curvas e elásticas, de cor amarela e mostrou-os tristemente aos amigos compassivos. Puseram os espinhos junto à coroa; mas é possível que alguns fossem guardados como lembrança.
 
Quase não se podia mais reconhecer o rosto do Senhor, tão desfigurado estava pelas feridas e pelo sangue. O cabelo e a barba, em desalinho, estavam completamente colados pelo sangue. Maria lavou-lhe o rosto e a cabeça, passando esponjas molhadas sobre o cabelo, para tirar o sangue que secara. A medida que lavava, tornavam-se mais visíveis os efeitos do cruel suplicio , causando cada vez novas manifestações de compaixão, novos cuidados, de ferida em ferida.
 
Maria limpou-lhe as feridas da cabeça, lavou o sangue dos olhos, das narinas e dos ouvidos, com uma esponja e um pequeno lenço, estendidos sobre os dedos da mão direita; com esse limpou também a boca entreaberta, a língua, os dentes e os lábios de Nosso Senhor. Dispôs o pouco que restava da cabeleira de Jesus em três partes, uma para cada lado e uma para o lado posterior da cabeça e depois de alisar os cabelos de ambos os lados, fê-los passar por trás das orelhas.
 
Quando acabou de limpar a cabeça, deu-Lhe um beijo na face e cobriu o santo rosto. Dirigiu então os cuidados ao pescoço, aos ombros, ao peito e às costas do santo corpo, aos braços e às mãos laceradas e sangrentas. Ai! Então se viu toda a horrenda dilaceração do santo corpo. Todos os ossos do peito e todas as articulações estavam deslocadas e tornaram-se inflexíveis; o ombro sobre o qual Jesus transportou a pesada cruz, era uma grande chaga; toda a parte superior do corpo estava coberta de feridas e pisaduras, causadas pela flagelação; no lado esquerdo se via uma ferida pequenina, onde saíra a ponta da lança e no lado direito se abria a larga chaga feita pela mesma lança, que também lhe traspassou o coração de lado a lado.
 
Maria Santíssima lavou e limpou todas essas feridas. Madalena, prostrada de joelhos, ficava-lhe às vezes em frente, para a ajudar, mas quase sempre estava aos pés de Jesus, os quais lavou então pela última vez, mais com as lágrimas do que com água, enxugando-os com o cabelo.
 
A cabeça, o peito e os pés do Senhor foram assim limpos do sangue e de toda a imundície; o corpo, de um branco azulado, com o brilho de carne exangue, coberto de manchas pardas e de outros lugares vermelhos, onde a pele fora arrancada, repousava sobre os joelhos de Maria, que lhe envolvia os membros lavados e se pôs a embalsamar todas as feridas, começando novamente pela cabeça.
 
As santas mulheres ajoelhavam-se alternadamente diante dela, apresentando-lhe um vaso, do qual, com o indicador e o polegar da mão direita, tirava um bálsamo ou ungüento sobre o cabelo; vi, que segurando as mãos de Jesus com a mão esquerda, as beijou respeitosamente e encheu as largas chagas dos cravos com o mesmo ungüento ou as mesmas especiarias de que enchera os ouvidos as narinas e a chaga do lado. Madalena estava quase todo o tempo ocupada com os pés de Jesus, ora enxugando e untando-os, ora banhando-os novamente com as lágrimas; muitas vezes apoiava neles o rosto.
 
Vi que não despejavam fora a água usada, mas guardavam-na nos odres de couro, nos quais também espremiam as esponjas. Vi diversas vezes que Cássio e outros soldados foram buscar água à fonte de Gion, em odres e jarros, que as mulheres tinham trazido; essa fonte de Gion estava tão perto, que se podia enxergá-la do jardim do sepulcro.
 
Quando a Santíssima Virgem acabou de untar todas as feridas, envolveu a santa cabeça em faixas; mas ainda não pôs o lenço que devia cobrir-lhe o rosto. Fechou-lhe os olhos entreabertos, pousando sobre eles a mão por algum tempo; fechou também a boca do Senhor, abraçou o santo corpo do Filho e, chorando, deixou cair o rosto sobre o de Jesus. Madalena, pelo grande respeito que tinha ao Senhor, não lhe tocou no semblante, mas apenas descansou o rosto sobre os pés do santo corpo.
 
José e Nicodemos já tinham estado por algum tempo perto, esperando, quando João se aproximou da Santíssima Virgem, pedindo que se separasse do corpo de Jesus, para que o pudessem preparar para a sepultura, porque o sábado já estava perto. Maria abraçou mais uma vez, com o maior fervor, o corpo do Filho adorado, despedindo-se dele com palavras comoventes.
 
Então levantaram os homens o santo corpo no pano em que jazia, sobre os joelhos da Mãe Santíssima e levaram-no para o lugar do embalsamamento. A Virgem Santíssima, novamente entregue à dor, para a qual tinha achado alguma consolação nos piedosos cuidados, caiu, com a cabeça velada, nos braços das mulheres; Madalena, porém, seguiu os homens, correndo-lhes alguns passos atrás, com os braços estendidos, como se lhe quisessem raptar o Amado, mas voltou depois para junto da SS. Virgem.
 
Levando o santo corpo, os homens desceram um pouco do alto do Gólgota, para um lugar, numa dobra da encosta, onde havia uma pedra chata e lisa, própria para esse fim. Ali já tinham feito todos os preparativos para o embalsamamento. Vi primeiro, ali estendido, um pano trabalhado a crivo, semelhante a uma rede, como que feita de rendas; parecia-se com o grande pano de fome, que se pendura em nossas igrejas.
 
 
Quando criança, pensava eu sempre, ao ver esse pano, que era o mesmo que vi no embalsamamento do Senhor. Provavelmente tinha o feitio de uma rede, para deixar escorrer a água, ao lavar. Vi mais um pano grande, estendido sobre a pedra. Deitaram o corpo do Senhor sobre o primeiro e alguns seguravam o outro por cima.
 
Nicodemos e José de Arimatéia ajoelharam-se e desataram, sob essa coberta, o lençol em que tinham envolvido o ventre do Senhor, ao descê-Lo da cruz. depois tiraram também do santo corpo a cinta que Jonadab, sobrinho do pai nutrício do Salvador, lhe trouxera antes da crucifixão. Lavaram então o ventre do Senhor com esponjas, sob o pano com que o cobriam, com piedoso recato e que o tornava invisível aos seus olhos.
 
Coberto ainda com o pano, levantaram-nO depois, por meio de outros panos, passados sob os braços e joelhos e assim lhe lavaram também as costas, sem virar o corpo. Continuavam a lavar, até que a água espremida das esponjas escorria clara e limpa. Depois o lavaram ainda com água de mirra e vi que depuseram o santo corpo sobre a pedra, estendendo-o respeitosamente com as mãos, dando-lhe uma posição reta, pois o meio do corpo e as pernas estavam ainda um pouco curvas, entesadas, na posição em que se encolhera, morrendo.
 
Puseram-Lhe então sob os lombos um pano da largura de um côvado e cerca de três côvados de comprimento, enchendo-lhe o seio de molhos de ervas, - como vejo às vezes em banquetes celestes, ervas verdes em pratos de couro, com borda azul, - e de fibras finas e crespas de plantas parecidas com açafrão e sobre tudo isso espalharam um pó fino, que Nicodemos trouxera num vaso.
 
Envolveram depois o ventre, com todas essas especiarias, no pano, puxaram uma parte deste, por entre as pernas, para cima e fixaram-na sobre o ventre, fazendo entrar a extremidade do pano por baixo do cinto. Depois de O ter deste modo envolvido, ungiram todas as chagas das coxas, cobriram-nas de especiarias, puseram molhos de ervas entre as pernas, até os pés e enrolaram as pernas junto com as ervas, de baixo para cima.
 
Então foi João chamar a Santíssima Virgem e as outras santas mulheres. Maria ajoelhou-se ao lado da cabeça, colocando sob essa um lenço fino, que recebera de Cláudia Prócula, mulher de Pilatos e que trouxera ao pescoço, sob o manto. Ela e as outras santas mulheres encheram então os espaços entre a cabeça e os ombros, em redor do pescoço, até às faces de Jesus, com molhos de ervas, com as fibras e o pó fino e feito isso, a Santíssima Virgem atou tudo com aquele pano, envolvendo cabeça e ombros. Madalena derramou ainda um frasco inteiro de um líquido aromático na ferida do lado de Jesus e as santas mulheres puseram-lhe ainda ervas e especiarias nas mãos e em redor dos pés.
 
Os homens puseram especiarias nas axilas, na cova estomacal, enchendo todo o espaço em redor do corpo, cruzaram sobre o seio os santos braços entorpecidos e envolveram finalmente todo o corpo, junto com as especiarias, no grande pano branco, até o peito, como se enfaixa uma criança; depois fizeram entrar sob um dos braços já enfaixados a extremidade de uma faixa, com a qual enrolaram todo o corpo, levantando-o e começando pela cabeça. Feito isto, puseram-no sobre o pano grande, de seis côvados de comprimento, o qual José de Arimatéia comprara e nele o envolveram. O corpo jazia obliquamente sobre o pano, do qual dobraram uma extremidade dos pés até o peito, a outra, de cima, sobre a cabeça e ombros; com as pernas salientes dos lados envolveram o meio do corpo.
 
Todos se ajoelharam então em redor do corpo, para se despedirem, chorando e eis que um milagre comovente se lhes deparou ante os olhos: Toda a figura do santo corpo, com todas as feridas, apareceu na superfície do pano que o cobria, desenhado em cor vermelho escura, como se Jesus quisesse recompensar-lhes o retrato, através de todo o invólucro. Chorando alto, abraçaram o santo corpo, beijando e venerando a milagrosa imagem. A admiração de que estavam possuídos, era tão grande, que de novo abriram o pano e tornou-se ainda maior, quando acharam todas as faixas e ataduras do corpo brancas como dantes; só o pano exterior trazia a imagem da figura do Senhor.
 
A parte do pano sobre a qual jazia o corpo, mostrava o desenho do dorso do Senhor e os lados do pano que o cobriam, sobrepostos, apresentavam a imagem da frente, porque na frente estava o pano dobrado sobre Ele, com vários cantos. A imagem não dava a impressão de feridas sangrentas, pois todo o corpo estava envolto espessamente em especiarias, com muitas ataduras; era, porém, uma imagem milagrosa, testemunho da divindade criadora, que permanecera unida ao corpo de Jesus.
 
Vi também muitos fatos da história posterior dessa santa mortalha, os quais, porém, não sei mais contar na devida ordem. Ela estava, junto com outros panos, na posse dos amigos de Jesus, depois da ressurreição. Uma vez vi que foi arrancada a uma pessoa, que a levava sob o braço. Vi-a duas vezes nas mãos de judeus, mas também muito tempo em diversos lugares, venerada pelos cristãos. Uma vez houve uma questão por causa dela e para a terminar, jogaram a mortalha no fogo, mas foi milagrosamente levada pelos ares e caiu nas mãos de um cristão.
 
Foram feitas três copias da santa imagem, por santos homens, que puseram outros panos em cima, com fervorosa oração, reproduzindo assim tanto a figura do dorso, como também a imagem composta da frente. Essas cópias foram consagradas pelo contato na intenção solene da Igreja e em todos os tempos têm sido instrumento de muitos milagres.
 
O original vi uma vez, um pouco estragado, com alguns rasgões, na Ásia, venerado por cristãos não católicos. Esqueci o nome da cidade, que fica situada num vasto país, vizinho da terra dos Reis Magos. Vi nessas visões também certas coisas de Turim e da França, do Papa Clemente I e do imperador Tibério, que morreu cinco anos depois da morte de Cristo; mas esqueci-as.
 
O enterro.
 
Os homens colocaram o santo corpo sobre a padiola de couro, cobriram-no com uma coberta parda e enfiaram em cada lado um varal, o qual me causou uma viva recordação da Arca da Aliança. Nicodemos e José carregavam as extremidades anteriores dos varais sobre os ombros; atrás seguravam Abenadar e João. Depois se seguiam a Santíssima Virgem, sua irmã mais velha, Maria Helí, Madalena e Maria de Cléofas e após elas, o grupo das mulheres que dantes estavam um pouco mais afastadas: Verônica, Joana Cuza, Maria Marcos (mãe de Marcos), Salomé Zebedaei, Maria Salomé, Salomé de Jerusalém, Susana e Ana, sobrinha de S. José, educada em Jerusalém. Encerravam o séquito Cássio e os soldados. As outras mulheres, por exemplo Maroni, de Naim, Dina, a Samaritana e Mara, a Sufamita, estavam então em Betânia, em casa de Marta e Lázaro.
 
 
Dois soldados, com fachos torcidos, iam na frente, pois precisavam de luz na gruta do sepulcro. Cantando salmos, em tom triste e baixo caminharam cerca de sete minutos, através do vale, em direção ao jardim do sepulcro. Vi na encosta, alem do vale, Tiago o Maior, irmão de João, olhar o cortejo e voltar depois, para o anunciar aos outros discípulos, refugiados nas cavernas.
 
O jardim irregular, coberto de relva, que ficava diante do rochedo da gruta, na extremidade do jardim, era cercado de uma sebe e além desta tinha na entrada uma cancela, cujas trancas, com gonzos de ferro, estavam fixas em estacas. Defronte da entrada do jardim, diante do rochedo do sepulcro, à direita, há várias palmeiras. A maior parte das outras plantas são arbustos, flores e ervas aromáticas.
 
Vi o cortejo parar na entrada do jardim e abrir a cancela, tirando algumas trancas, das quais se serviam depois, como alavancas, para fazer rolar para dentro da gruta a grande pedra que devia fechar o sepulcro. Chegando ao pé do rochedo, abriram a padiola e tiraram o santo corpo, deitando-o sobre uma tábua estreita, coberta de um largo pano. Nicodemos e José carregaram as duas extremidades da tábua, enquanto os outros dois seguravam o pano.
 
A nova gruta sepulcral fora limpa e perfumada pelos criados de Nicodemos; era bem graciosa e no alto das paredes interiores tinha um friso esculpido. A cova mortuária era, no lugar da cabeça, um pouco mais larga do que no lugar dos pés e havia sido escavada na forma côncava de um cadáver amortalhado, com pequenas elevações no lugar da cabeça e dos pés.
 
As santas mulheres assentaram-se em frente à entrada da gruta. Os quatro homens desceram com o santo corpo do Senhor à gruta, onde o depuseram no chão; encheram ainda parte do leito sepulcral de especiarias, estenderam sobre ele um pano, colocando sobre este o santo corpo. O pano pendia ainda dos lados do sepulcro. Manifestando ao santo corpo o seu amor com lágrimas e abraços, saíram da gruta. Entrou então a Santíssima Virgem. Sentou-se à cabeceira de Jesus, à beira do sepulcro, que tinha cerca de dois pés de altura e inclinou-se, chorando, sobre o cadáver do Filho.
 
Depois de Maria Santíssima sair, entrou Madalena, com ramos de flores, que colhera no jardim e que espalhou sobre o santo corpo. Torcendo as mãos e chorando alto, abraçou os pés de Jesus. Como, porém, os homens lá fora insistissem em fechar o sepulcro, voltou para junto das mulheres. Os homens dobraram sobre o santo corpo a parte pendente do pano, cobriram tudo com uma cobertura parda e fecharam as portas. Puseram uma barra transversal e uma perpendicular; parecia uma cruz.
 
A grande pedra destinada a fechar as portas do sepulcro e que ainda estava fora da gruta, tinha uma forma semelhante a uma arca ou um monumento sepulcral; um homem podia deitar-se sobre ela. Era muito pesada e os homens rolaram-na para dentro da gruta, com auxílio das trancas tiradas da cancela do jardim e encostaram-na às portas fechadas do sepulcro. A entrada exterior da gruta foi fechada com uma porta de ramos entrelaçados.
 
Todos os trabalhos dentro da gruta foram feitos à luz de fachos, porque dentro estava muito escuro. Durante o enterro do Senhor, vi vários homens na proximidade do jardim e do Monte Calvário, que, tímidos e tristes, andavam de um lado para outro; creio que eram discípulos, que receberam de Abenadar notícias e, saindo das cavernas, aproximaram-se através do vale e àquela hora estavam voltando.
 
A volta para casa, depois do enterro; o sábado; prisão de José de Arimatéia.
 
Já era a hora em que começava o sábado. Nicodemos e José voltaram à cidade, passando por uma pequena porta que havia no muro da cidade, perto do jardim e que, se bem me lembro, lhes era concedida por favor particular. Disseram à Santíssima Virgem, a João, Madalena e algumas mulheres que ainda queriam ir ao Monte Calvário, para rezar e buscar algumas coisas ali deixadas, que essa porta, como também o portão para o Cenáculo, lhes seriam abertos, se batessem. Maria Helí, a irmã já idosa da Santíssima Virgem, foi conduzida à cidade por Maria Marcos e outras mulheres. Os criados de Nicodemos e José voltaram ao Monte Calvário, para buscar os utensílios que lá tinham deixado.
 
Os soldados reuniram-se àqueles que ocupavam a porta que dava para o Monte Calvário; Cássio seguiu para o palácio de Pilatos, levando a lança e relatou-lhe tudo que acontecera, prometendo também lhe dar notícias exatas de tudo quanto ainda sucedesse, se o mandasse acompanhar a guarda do sepulcro, a qual os judeus, segundo fora informado, viriam requerer-lhe. Pilatos escutou todas as informações com um oculto terror, tratou-o porém, como fanático e com nojo e medo supersticioso da lança que Cássio trouxera consigo, mandou-lhe que a levasse para fora da sala.
 
Quando a Santíssima Virgem e os amigos voltavam com os utensílios do Monte Calvário, onde ainda tinham rezado e chorado, viram um destacamento de soldados que lhes vinha ao encontro; retiraram-se então para os dois lados do caminho, para deixar passar a tropa. Esta se dirigiu ao Monte Calvário, provavelmente para tirar, ainda antes do sábado, as cruzes e enterrá-las. Depois de terem passado, as santas mulheres continuaram o caminho em direção à pequena porta da cidade.
 
José e Nicodemos encontraram-se na cidade com Pedro, Tiago o Maior e Tiago o Menor. Todos estavam chorando. Pedro especialmente estava muito triste, preso de violenta dor; abraçou-os soluçando, acusou-se a si mesmo, lastimando não ter estado presente à morte do Senhor e agradeceu-lhes terem dado sepultura ao corpo sagrado. Todos estavam desvairados de dor. Pediram ainda para serem recebidos no Cenáculo, quando batessem e despediram-se, para procurar ainda outros discípulos dispersos.
 
Vi mais tarde a Santíssima Virgem e as amigas baterem à porta do Cenáculo e serem recebidas, como também Abenadar e, pouco a pouco, os demais Apóstolos e vários discípulos. As santas mulheres retiraram-se para a parte onde habitava a Santíssima Virgem; tomaram um pouco de alimento e passaram ainda alguns minutos, recordando com tristeza e dor tudo o que se tinha passado. Os homens revestiram-se de outras vestes e vi-os começarem o sábado de pé, sob um candeeiro.
 
Depois comeram ainda carne de cordeiros, em diversas mesas, no Cenáculo, mas sem cerimônias; pois não era o cordeiro pascal, que já tinham comido na véspera. Reinava tristeza e desânimo geral. Também as santas mulheres rezavam com Maria, à luz de um candeeiro. Mais tarde, quando já escurecera totalmente, foram ainda recebidos Lázaro, Marta, Maroni, a viúva de Naim, Dina Sumarites e Maria Sufanites, que depois de começar o sábado, vieram de Betânia e a dor renovou-se pela narração de tudo que se passara.
 
Mais tarde saíram José de Arimatéia e alguns discípulos e diversas mulheres do Cenáculo, voltando para casa; iam tímidos e tristes pelas ruas de Sião, quando de repente um grupo de homens armados saiu de uma emboscada, arremessando-se sobre eles e prendendo José de Arimatéia, enquanto os outros fugiram com gritos de terror. Vi encarcerarem o bom José numa torre do muro da cidade, não muito longe do tribunal. Caifás mandara soldados pagãos executarem essa prisão, porque não eram obrigados a guardar o sábado. Os inimigos tinham a intenção de deixar José morrer de fome e não falar nesse desaparecimento.
 
A guarda no túmulo de Jesus.
 
Na noite de sexta-feira para sábado vi Caifás e os príncipes dos judeus reunirem-se em conselho, para decidir o que deviam fazer, diante dos acontecimentos milagrosos e da excitação do povo. Depois foram ainda durante a noite, procurar Pilatos e disseram-lhe que se tinham lembrado de que aquele impostor tinha dito, quando ainda vivia, que no terceiro dia após a morte ressuscitaria; pediam-lhe que por isso mandasse guardar o sepulcro até o terceiro dia, para que os discípulos de Jesus não lhe roubassem o corpo, divulgando em seguida que tinha ressuscitado dos mortos, pois dessa forma seria a segunda impostura pior do que a primeira.
 
Pilatos, porém, não quis intrometer-se mais nessa questão e disse-lhes: “Tendes uma guarda; ide guardar o túmulo como entenderdes”. Mandou, porém, Cássio acompanhar a guarda e observar e relatar-lhe depois tudo. Vi os doze fariseus saírem da cidade, antes do pôr do sol. Os doze soldados que os acompanhavam, não estavam vestidos à forma romana: eram soldados do Templo e pareciam-me uma espécie de guarda de corpo. Levaram braseiros, fixos sobre hastes, para poder ver tudo durante a noite e para ter luz na escuridão do sepulcro.
 
Ao chegar, certificaram-se da presença do corpo, amarraram uma corda à porta do túmulo, dessa corda fizeram passar uma segunda à pedra, selando essas cordas com um selo semilunar. Depois voltaram à cidade e os guardas sentaram-se defronte da porta exterior do sepulcro. Ficavam alternadamente cinco ou seis homens, indo de vez em quando alguns à cidade, para buscar víveres.
 
Cássio, porém, não deixou o posto; permanecia em pé ou senado, no fosso em frente à entrada da gruta, de modo que podia ver o lado do túmulo fechado, onde repousavam os pés do Senhor. Recebeu grandes graças interiores e a inteligência intuitiva de muitos mistérios; como não estivesse acostumado a tais estados sobrenaturais, ficava, a maior parte do tempo dessa iluminação espiritual, como que embriagado, inconsciente das coisas exteriores. Foi nesse tempo que se converteu inteiramente, tornando-se novo homem; passou o dia em atos de arrependimento, ação de graças e adoração.
 
Os amigos de Jesus no Sábado santo.
 
Vi á noite, como já mencionei, os homens reunidos no Cenáculo, cerca de vinte, de vestes longas e brancas e cingidos, celebrando o sábado, à luz de um candeeiro e depois de comer, separaram-se para dormir. Diversos foram para casa. Também hoje os vi reunidos no Cenáculo, na maior parte do tempo em silêncio, rezando e lendo alternadamente e de vez em quando deixando entrar alguns que chegavam.
 
No local onde ficava a Santíssima Virgem, havia uma grande sala e nessa alguns recantos separados por biombos ou tapetes, para servirem de quartos de dormir. Depois que as santas mulheres, voltando do sepulcro, tinha posto todos os utensílios nos respectivos lugares, acendeu uma delas um candeeiro, que pendia no centro da sala.
 
Reuniram-se sob este candeeiro, em roda da Santíssima Virgem, rezando alternadamente, com grande devoção e tristeza. Depois tomaram algum alimento. Entraram na sala Marta, Maroni, Dina e Mara, que depois de começar o sábado, tinham vindo de Betânia, com Lázaro, que se juntou aos homens reunidos no Cenáculo. Contaram chorando aos recém-chegados a morte e a sepultura do Senhor e como já era tarde, alguns dos homens, entre os quais José de Arimatéia, mandaram chamar as mulheres que queriam voltar para suas casas na cidade e despediram-se. Ao voltar este grupo para casa, José foi preso, perto do tribunal de Caifás, como já contei e encarcerado numa torre.
 
As mulheres que ficaram no cenáculo, separaram-se então, indo para as mencionadas celas de dormir; puseram panos compridos sobre a cabeça e por algum tempo ali permaneceram sentadas no chão, em triste silêncio, encostadas às cobertas, que estavam enroladas ao pé da parede. Depois se levantaram, desenrolaram as cobertas, tiraram as sandálias, cintas e parte do vestuário, velaram-se da cabeça aos pés, como costumam fazer para dormir e deitaram-se para um curto descanso, sobre as cobertas estendidas; pois logo depois de meia noite se levantaram de novo, arrumaram a roupa, enrolaram os leitos e reuniram-se sob o candeeiro, em roda da Santíssima Virgem, para rezarem alternadamente. Tenho visto muitas vezes filhos fiéis de Deus e homens santos, desde que se reza neste mundo, observarem esse costume de orações noturnas, seja incitados por preceitos divinos e eclesiásticos.
 
Depois da mãe de Jesus e as amigas terem cumpridos esse dever de oração noturna, apesar dos grandes sofrimentos e depois de terem também os homens rezado no Cenáculo, à luz do candeeiro, bateu João, com alguns outros discípulos, à porta da sala das mulheres, que se envolveram imediatamente nos mantos e os seguiram, junto com a Santíssima Virgem, ao Templo.
 
Vi a Santíssima Virgem, as santas mulheres, João e outros discípulos chegarem ao Templo, quase ao mesmo tempo em que o sepulcro era selado: cerca de três horas da manhã. Era costume de muitos judeus, de madrugada, depois de ter comido o cordeiro pascal, irem ao Templo, que nessa ocasião já era aberto à meia noite, porque começavam os sacrifícios de manhã muito cedo. Naquele dia, porém, estava tudo em desordem, pela interrupção da festa e pala profanação do Templo.
 
Parecia-me que a Santíssima Virgem, com as amigas, queria somente se despedir do Templo, no qual tinha sido educada, adorando o Santíssimo, até trazer no seio o próprio Santíssimo, que agora fora tão cruelmente imolado, como verdadeiro Cordeiro pascal.
 
O Templo estava aberto, segundo o hábito desse dia e iluminado por lampiões e até o átrio dos sacerdotes era acessível ao povo, fora os guardas e empregados, como de costume nessa manhã. Mas, lá não havia nenhum fiel. Tudo estava ainda em desordem e devastado pelas terríveis destruições do dia precedente. O Templo estava profanado pela aparição de mortos e eu não podia deixar de perguntar a mim mesma: “Como poderão reparar tudo isto”?
 
Os filhos de Simeão e os sobrinhos de José de Arimatéia, que estavam muito tristes com a notícia da prisão do tio, encontraram-se com a Santíssima Virgem e os companheiros e conduziam-nos por todas as partes do Templo, da qual eram guardas. Viram silenciosos e assustados toda a destruição, adorando o testemunho divino; só de vez em quando os guias descreviam acontecimentos do dia anterior.
 
Vi em muitos lugares prejuízos causados pelo terremoto da véspera, que ainda não haviam sido consertados. No ponto onde se juntam o átrio e o Santo do Templo, havia tão larga fenda no muro, que um homem podia passar através e havia perigo dos muros caírem. A verga por cima da cortina, diante do Santo, abaixara, as colunas que a suportavam, cederam para os lados e a cortina pendia de ambos os lados, rasgado de cima a baixo, em duas partes. Pela grossa pedra caída do muro norte do Templo, perto da cela de oração de Simeão, também destruída, formara-se tão grande abertura, no lugar onde aparecera Zacarias, que as santas mulheres puderam passar sem dificuldade e do outro lado, perto da cátedra em que o Menino Jesus ensinara, ver, através da cortina rasgada, o Santo, o que em outros tempos era proibido. Também se fenderam aqui e acolá os muros, afundaram-se partes do solo, umbrais e colunas saíram do lugar.
 
A SS. Virgem visitou, com os amigos, todos os lugares que lhe eram sagrados, pela lembrança de Jesus. Prostrando-se por terra, beijava os santos lugares, chorando e contava as suas reminiscências, em poucas palavras comovedoras. Também as companheiras faziam o mesmo.
 
Os judeus têm grande veneração por todos os lugares onde aconteceu alguma coisa que lhes parece sobrenatural; tocam e beijam esses lugares e deitam-se por terra, tocando-a com o rosto. Nunca achei nisso coisa de admirar. Se sabemos, cremos e sentimos que o Deus de Abraão, Isaac e Jacó é Deus vivo e mora no meio do seu povo, no Templo, na sua casa em Jerusalém, devíamos admirar-nos antes, se não o fizessem. Quem crê em Deus vivo, Pai e Redentor e Santificador dos homens, seus filhos, não se admira que Ele esteja com amor vivo entre os vivos e que estes lhe prestem amor, honra e adoração, bem como a tudo quanto se lhe refere, mais do que aos pais terrestres, amigos, mestres, superiores e príncipes. Os judeus sentiam no Templo e nos lugares sagrados o que sentimos diante do SS. Sacramento.
 
Mas também entre os judeus havia cegos e “iluminados”, como há também entre nós, que não adoram o Deus vivo e realmente presente, mas se entregam ao culto supersticioso dos ídolos deste mundo. Não se lembram das palavras de Jesus: “Quem me negar diante dos homens, que servem ao espírito e à mentira do mundo, em pensamentos, palavras e obras, sem interrupção, mas rejeitam todo o culto externo de Deus, dizem às vezes, se por ventura ainda não rejeitaram o próprio Deus, como demasiadamente exterior: “Adoramos a Deus em espírito e verdade”; mas não sabem o que isso significa: no Espírito Santo e no Filho, que nasceu de Maria Virgem, que deu testemunho da verdade e viveu entre nós, que morreu por nós neste mundo e quer ficar presente na sua Igreja, no SS. Sacramento, até o fim dos séculos.
 
A SS. Virgem visitou assim muitos lugares do Templo, venerando-os religiosamente. Mostrou-lhes onde entrara a primeira vez no Templo, quando menina e onde fora educada, na parte sul do edifício, até o casamento. Mostrou-lhes onde desposara São José, onde apresentara Jesus, onde Simeão e Ana proferiram a profecia; nesse lugar chorou amargamente, pois a profecia estava cumprida; a espada transpassara-lhe o coração. Mostrou-lhes onde achara o Menino Jesus ensinando no Templo e beijou respeitosamente a cátedra. Visitaram também a caixa de esmolas, onde a viúva depositara a esmola e o lugar onde o Senhor perdoara à adúltera. Depois de ter deste modo venerado todos os lugares santificados pela presença de Jesus, com recordações, beijos, lágrimas e orações, voltaram a Sião.
 
De volta, ao amanhecer, no Cenáculo de Sião, Maria e as companheiras se dirigiram à sua habitação separada, situada à direita do pátio da casa. Na entrada se separaram delas João e outros discípulos e foram juntar-se aos homens que, em número de cerca de vinte, permaneciam reunidos, de luto, no Cenáculo, durante todo o sábado, rezando alternadamente, sob a luz do candeeiro.
 
Vi-os também de vez em quando receberem timidamente alguns recém-chegados, conversando com eles e chorando. Todos mostravam íntimo respeito e certa vergonha diante de João, que ficara com Jesus até à morte. João, porém, era benévolo e afetuoso para com todos e simples como uma criança, tratava a todos com humildade. Vi-os também uma vez tomar uma refeição. Fora disso estavam silenciosos e a casa permanecia fechada. Também não podiam ser inquietados ali, pois a casa pertencia a Nicodemos e haviam–na alugado para a refeição pascal.
 
Vi depois as santas mulheres reunidas na sala escura, iluminada apenas pela luz do candeeiro, pois as portas e janelas estavam fechadas. Ora se juntavam em roda da SS. Virgem, para a oração, ora se retiravam para suas celas separadas, cobrindo a cabeça com o véu de luto e sentavam-se sobre caixas chatas, cobertas de cinza, em sinal de luto, ou rezavam, com o rosto voltado para a parede. Sempre que se reuniam para rezar, deixavam o véu de luto nas respectivas celas. Vi também as mais fracas tomarem algum alimento, as outras, porém, jejuavam.
 
A Gloriosa Ressurreição de Jesus.
 
As vésperas da ressurreição.
 
Depois de terminado o sábado, entrou João na sala das piedosas mulheres, chorou com elas e consolou-as. Quando, após algum tempo saiu, entraram Pedro e Tiago o Maior para o mesmo fim, demorando-se também pouco tempo apenas. Retiraram-se então as santas mulheres mais uma vez para a cela, chorando ainda por algum tempo, sentadas sobre a cinza e cobertas do véu de luto.
 
Enquanto a Santíssima Virgem estava sentada, em ardente oração, cheia de saudade de Jesus, vi acercar-se lhe um Anjo, que lhe disse que saísse pela portinha de Nicodemos, pois o Senhor se aproximava. Encheu-se então o coração de Maria de profunda alegria; envolvendo-se no manto, ela deixou as santas mulheres, sem dizer aonde ia. Vi-a dirigir-se apressada àquela portinha do muro da cidade pela qual tinham entrado, ao voltar do Sepulcro.
 
Podiam ser cerca de 9 horas da noite, quando vi a Santíssima Virgem parar de repente o passo apressado, num lugar deserto, perto dessa portinha; olhou com radiante amor para o muro da cidade. A alma de Jesus veio voando, resplandecente, sem sinais das chagas, ao encontro de Maria, seguida de um grande número de almas dos patriarcas. Virando-se para os patriarcas e indicando Maria, disse estas palavras: “Maria, minha Mãe” e foi como se abraçasse; depois desapareceu.
 
Maria, porém, caiu de joelhos e beijou a terra onde Ele pisara; os sinais dos joelhos e pés da Virgem ficaram impressos na pedra. Voltou então, cheia de indizível consolação, para junto das santas mulheres, que encontrou reunidas em redor de uma mesa, preparando ungüentos e especiarias. Não lhes disse o que lhe sucedera; mas estava confortada e consolou a todos e confirmou-as na fé.
 
Quando Maria voltou, vi as santas mulheres em redor de uma longa mesa, de pés cruzados, como um aparador e cuja toalha pendia até o chão. Vi algumas escolherem, misturarem e arrumarem variadíssimos molhos de ervas; tinham também alguns frascos com ungüento e outros com água de nardo, como também várias flores vivas, entre as quais me lembro de ter visto uma íris listrada ou um lírio; embrulharam tudo em panos. Durante a ausência de Maria, tinham ido à cidade Madalena, Maria Cléofas, Salomé, Joana Cuza e Maria Salomé, para comprar tudo. Queriam ir na madrugada do dia seguinte ao sepulcro, para derramar e espalhar tudo sobre o corpo amortalhado do Senhor. Vi os discípulos buscarem uma parte das especiarias em casa daquela merceeira e entregarem-nas à porta da casa das santas mulheres, sem entrar lá.
 
José de Arimatéia é posto em liberdade.
 
Pouco tempo depois do encontro da Santíssima Virgem com a alma do Senhor e da sua volta para junto das mulheres santas, vi José de Arimatéia rezando no cárcere. De súbito vi o cárcere cheio de luz e ouvi chamar-lhe o nome; vi o teto em parte como que levantado do muro e uma figura resplandecente, que desceu um pano, que me fez lembrar do pano em que José envolvera o corpo de Jesus e a figura mandou-o subir pelo pano. José segurou então o pano e apoiando os pés em algumas pedras salientes do muro, subiu até duas vezes a altura de um homem, à abertura que, depois de o ter deixado passar, tornou a fechar-se. Quando José chegou em cima, desapareceu a figura. Eu mesmo não sei se foi o Senhor ou um Anjo que o libertou.
 
Vi-o depois correr sobre o muro da cidade, sem ser notado, até perto do Cenáculo, que está situado perto do muro sul de Sião. Ali desceu e bateu na porta do Cenáculo. Os discípulos ali reunidos tinham fechado as portas e já se entristeciam muito pelo desaparecimento de José; ao receberem a notícia, pensaram primeiro tivesse sido lançado numa fossa.
 
Quando, porém, abriram e o viram entrar, reinou a mesma alegria que mais tarde, quando Pedro, libertado do cárcere, reapareceu entre eles. José contou a aparição que tivera; alegraram-se muito e ficaram consolados; deram-lhe de comer e agradeceram a Deus. José porém, fugiu na mesma noite de Jerusalém, para a cidade natal, Arimatéia; mas recebendo depois notícia de que não havia mais perigo, voltou para Jerusalém.
 
Pelo fim do Sábado vi também Caifás e outros sacerdotes em casa de Nicodemos, conversando com este e interrogando-o hipócritamente a respeito de muitas coisas; não sei mais do que se tratava. Ele, porém, ficou decidido e fiel na defesa do Senhor e os inimigos saíram então.
 
A noite antes da ressurreição de Jesus.
 
Pouco depois vi o sepulcro do Senhor. Tudo ali estava quieto e sossegado; cerca de sete guardas estavam sentados ou em pé, defronte e em redor do rochedo. Cássio raras vezes se afastara, durante todo o dia e por poucos instantes; lá estava de novo mergulhado em meditação sobre muitas coisas e em expectativa; pois receberam muitas graças e iluminações e estava interiormente esclarecido e comovido.
 
Era noite e os braseiros diante da gruta sepulcral projetavam uma viva luz em redor; então me aproximei, na minha contemplação, do corpo sagrado, para o adorar: jazia ainda inalterado, envolto nos panos, rodeado de luz, entre dois Anjos, que vi continuamente, desde que foi levado à sepultura, do lado da cabeça e dos pés, em silenciosa adoração.
 
Esses Anjos eram como figuras sacerdotais e lembravam-me vivamente os Querubins da Arca da Aliança, pela posição, com os braços cruzados sobre o peito; somente não lhes vi asas. Em geral a sepultura e o túmulo do Senhor me lembravam por diversas vezes extraordinariamente a Arca da Aliança, em várias épocas da história. Talvez que a luz e a prece dos Anjos de tenham tornado até certo ponto visíveis a Cássio e por isso ficasse em contínua contemplação diante do sepulcro fechado, como alguém que adora a SS. Sacramento.
 
Durante a minha adoração, tive a impressão de que a alma do Senhor, com as almas remidas dos patriarcas, entrava pelo rochedo na gruta, fazendo-os conhecer todo o martírio do seu santo corpo. Nesse mesmo momento me parecia que todos os invólucros eram tirados; vi o corpo sagrado cheio de feridas e era como se a divindade, que lhe permanecia unida, o mostrasse às almas de maneira misteriosa, em todos os maus tratos e cruel martírio que padecera. Parecia-me inteiramente transparente e visível todo o seu interior. Podiam-lhe conhecer as feridas, dores e sofrimentos, nas partes mais íntimas. As almas estavam cheias de indizível respeito e pareciam estremecer e chorar de compaixão.
 
Entrei depois numa contemplação, cujo mistério, em toda a extensão, não posso contar claramente. Vi a alma de Jesus entrar-lhe no corpo sagrado, sem lhe restituir a vida pela perfeita união e com ele sair do sepulcro; pareceu-me que os dois Anjos, que adoravam nas duas extremidades do túmulo, levaram o santo corpo martirizado para cima, nu, desfigurado e cheio de feridas, ereto, mas com os membros na posição em que estavam no túmulo.
 
Vi-os subir ao céu, passando pelo rochedo que tremeu; tive uma visão de Jesus, apresentando o corpo martirizado ao trono do Pai Celestial, no meio de inúmeros coros de Anjos em adoração, do mesmo modo que as almas de muitos profetas tomaram os respectivos corpos, depois da morte de Jesus, conduzindo-os ao Templo, sem que eles vivessem verdadeiramente e tivessem de morrer de novo; pois foram depois depostos pelas almas sem separação violenta. Nessa contemplação não vi as almas dos patriarcas acompanharem o corpo do Senhor. Também agora não me lembro mais onde ficaram, até que as vi novamente reunidas à alma do Senhor.
 
Notei nessa contemplação um tremor do rochedo do sepulcro; quatro dos guardas tinham ido à cidade buscar qualquer coisa, três que estavam presentes, caíram como que desmaiados. Atribuíram-no a um terremoto, não percebendo a verdadeira causa. Cássio, porém, estava muito comovido e abalado; pois viu algo do que se passou, sem ter entretanto uma clara compreensão. Mas permaneceu no posto, esperando com profundo respeito o que ia acontecer. No entanto voltaram os soldados ausentes.
 
Minha contemplação tornou a dirigir-se depois às santas mulheres. Depois de terem terminado a preparação das especiarias, que foram envolvidas em panos e arrumadas para se levarem comodamente, retiraram-se novamente para as celas; não se deitaram, porém, para dormir, encostaram-se apenas nos leitos enrolados, para descansar, porque queriam ir ao sepulcro de Jesus antes de amanhecer.
 
Tinham manifestado várias vezes receios a respeito dessa intenção; pois tinham medo de que os inimigos de Jesus lhe pudessem fazer mal, se saíssem. Mas a Santíssima Virgem, reanimada desde a aparição de Jesus, consolou-as e disse-lhes que descansassem um pouco e depois fossem sossegadamente ao sepulcro, que não lhes sucederia mal algum. Assim foram descansar um pouco.
 
Eram, porém, cerca de onze horas quando a Santíssima Virgem, impelida pelo amor e pela saudade, não achou mais sossego; levantou-se, envolveu-se inteiramente no manto cinzento e saiu sozinha de casa. Pensei ainda: “Ah! Como podem deixar sair sozinha nestas condições a santa Mãe, tão angustiada e abatida?” Vi-a, porém, ir cheia de tristeza até à casa de Caifás e dali até ao palácio de Pilatos, o que significava uma longa volta para dentro da cidade.
 
Assim percorreu sozinha toda a via sacra de Jesus, pelas ruas desertas, demorando-se nos lugares onde o Senhor sofrera qualquer dor ou mau trato. Era como se procurasse algo que tivesse perdido. Muitas vezes se lançava por terra, apalpava com as mãos as pedras em redor, tocando depois com a mão a boca, como se tivesse tocado numa coisa sagrada, o sangue do Senhor e o beijasse respeitosamente. Estava, porém, num estado sobrenatural; pelo amor via tudo em redor de si luminoso e claro, estava toda absorta em amor e adoração. Acompanhei-a pelo caminho e senti e fiz, na medida de minhas poucas forças, tudo quanto ela sentiu e fez.
 
Ela seguiu o caminho da cruz até o Monte Calvário. Quando se aproximou deste, parou de repente e vi Jesus, com o santo corpo torturado, aparecer diante da Santíssima Virgem; um Anjo ia á frente, os dois Anjos que o adoravam no sepulcro, iam ao lado, seguindo-se um grande número de almas remidas. O corpo não se movia, era como um cadáver ambulante, rodeado de luz; mas ouvi sair dele uma voz, que anunciou à Mãe Santíssima o que Ele tinha feito no limbo e que em breve ressuscitaria, com corpo vivo e glorificado e viria ao seu encontro; que o esperasse perto da pedra em que caíra, no Monte Calvário. Vi depois essa aparição se dirigir à cidade e a Santíssima Virgem, envolta no manto, prostrando-se de joelhos, rezar no local onde o Senhor a mandara esperar. Já devia ser mais de meia noite, pois Maria gastara muito tempo em seguir a via sacra.
 
Vi, porém, o cortejo do Senhor percorrer também todo o caminho da cruz. todo o suplício e os padecimentos de Jesus foram mostrados às almas e os Anjos colheram, de maneira misteriosa, toda a substância sagrada que lhe fora arrancada, durante a Paixão. Vi que lhes foi mostrado também a crucifixão, a elevação da cruz, o golpe da lança no lado, a descida da cruz e a preparação para a sepultura; a Santíssima Virgem contemplou tudo em espírito e adorou-O com amor.
 
Vi então, na contemplação, o corpo do Senhor jazendo novamente no túmulo e que os Anjos lhe tinham restituído, de maneira misteriosa, tudo quanto lhe fora tirado, durante o suplício. Vi-o de novo envolta na mortalha, rodeado de esplendor e os dois Anjos em adoração, nas extremidades do túmulo, do lado da cabeça e dos pés. Não posso explicar como O vi; são tantas e tão variadas coisas, tão inefáveis, que a nossa inteligência não as pode compreender segundo as leis comuns da natureza. Quando as vejo, é tudo tão claro e compreensível, mas depois de me turva a mente, de modo que não o posso claramente descrever.
 
Quando o céu clareou-se a leste de um alvo rasto luminoso, vi Madalena, Maria Cléofas, Joana Cuza e Salomé, envoltas nos mantos, saírem da habitação, no Cenáculo. Levavam sob os mantos as especiarias, embrulhadas nos panos e uma delas levava também uma lanterna acesa. As especiarias constavam de flores vivas, para serem espalhadas sobre o corpo e de suco extraído de plantas, essências e óleos, que queriam derramar sobre ele. Vi as santas mulheres encaminharem-se, com muito receio, em direção à portinha de Nicodemos.
 
A Ressurreição do Senhor.
 
Vi a alma de Jesus aparecer, com grande esplendor, entre dois Anjos de figura guerreira, (os Anjos que eu via dantes tinham figura sacerdotal), rodeado de muitas outras figuras luminosas; passando por cima através do rochedo do sepulcro, desceu sobre o santo corpo, como se inclinasse para ele e com ele se fundisse. Então vi os membros se lhe moverem nos invólucros e o corpo vivo, e resplandecente do Senhor, unido à alma e à divindade, sair, ao lado das mortalhas, como se saísse da chaga do lado. Esta visão me recordou Eva, que saiu do lado de Adão. Tudo estava cheio de luz e esplendor.
 
Nesse momento vi, na minha contemplação, a aparição de uma forma monstruosa, que dos infernos subiu, por baixo do túmulo. Levantou raivosamente a cauda de serpente e a cabeça de dragão contra o Senhor. Além disso, como ainda me recordo, tinha uma cabeça humana. Vi, porém, na mão do Redentor ressuscitado um belo bastão branco e sobre este uma bandeira desfraldada. O Senhor pisou a cabeça do dragão e bateu três vezes com o bastão na cauda da serpente; vi-a encolher-se cada vez mais e afinal desaparecer; a cabeça do dragão foi pisada e esmagada na terra e só a cabeça humana lhe ficou ainda. Tenho tido essa visão já por diversas vezes na contemplação da ressurreição e vi também uma serpente semelhante, espreitando à hora da conceição de Nosso Senhor.
 
A forma dessa serpente lembra-me sempre a serpente do paraíso, mas era ainda mais hedionda. Penso que essa visão se referia à promissão: “A semente da mulher esmagará a cabeça da serpente”. Parecia-me um símbolo da vitória sobre a morte; pois enquanto Jesus esmagou a cabeça do dragão, não vi mais o sepulcro, mas vi o Senhor passar resplandecente através do rochedo. Tremeu a terra, um Anjo em figura de guerreiro desceu do céu ao sepulcro, como um relâmpago, levantou a pedra para o lado direito e sentou-se-lhe em cima. Foi tal o tremor de terra, que as lanternas oscilavam e as chamas saiam por todos os lados.
 
A vista disso, caíram por terra os guardas, como que atordoados e jaziam como mortos, com os membros tortos. Cássio viu tudo de luz e esplendor; mas recobrando ânimo, aproximou-se resolutamente do túmulo, abriu um pouco as portas, examinou as mortalhas vazias e afastou-se, para ir relatar a Pilatos o que acontecera. Mas ainda se demorou um pouco na proximidade, esperando que sucedesse mais alguma coisa; pois vira só o terremoto, o Anjo que num instante levantara a pedra e se lhe sentara em cima, o túmulo vazio, mas não vira Jesus. Como também os guardas, foi Cássio um dos primeiros que deram notícia do sucedido aos Apóstolos.         
 
No mesmo momento em que o Anjo desceu ao sepulcro e a terra tremeu, vi o Senhor aparecendo à Mãe Santíssima, perto do Monte Calvário. Estava maravilhosamente belo, sério e luminoso. A veste, que lhe envolvia o corpo como um largo manto, flutuava no ar atrás dEle quando caminhava e tinha reflexos de cor branca azulada, como fumaça vista através da luz do sol. As chagas estavam largas e brilhavam; nas chagas das mãos se podia introduzir bem um dedo. Os lábios das chagas tinham a forma de três triângulos eqüiláteros, coincidindo no centro de um circulo. Do meio das mãos saiam raios luminosos para os dedos. As almas dos patriarcas inclinaram-se diante da Mãe de Jesus, à qual o Senhor disse, em poucas palavras, que me fugiram da memória, que tornaria a vê-Lo. Mostrou-lhe as chagas e quando ela se prostrou por terra, para beijar-lhe os pés, tomou-a pela mão e levantando-a, desapareceu.
 
Vi ao longe o brilhar das lanternas ao lado do sepulcro e a leste de Jerusalém uma luz branca no horizonte – o amanhecer do dia.
 
As santas mulheres no sepulcro. Aparições de Jesus.
 
As santas mulheres estavam perto da pequena porta de Nicodemos, quando o Senhor ressuscitou. Nada notaram dos prodígios que nesse momento se deram, nem sabiam que fora posta uma guarda à porta do túmulo; pois na véspera, como era sábado, ninguém fora ao sepulcro e elas tinham ficado de luto, com as portas fechadas. Inquietas, diziam umas às outras: “Quem nos tirará a pedra da porta?” Pois no desejo de prestar homenagem ao corpo do Senhor, tinham se esquecido inteiramente da pedra.
 
Tinham a intenção de derramar água de nardo e ungüentos sobre o corpo do Senhor e cobri-lo de flores e ervas aromáticas, pois não tinham contribuído para as especiarias usadas no embalsamamento, de cujas despesas se encarregava Nicodemos e por isso queriam agora oferecer ao corpo do Senhor e Mestre o que de mais preciso podiam encontrar. Salomé comprara a maior parte; não era a mãe de João, mas outra Salomé, uma senhora rica de Jerusalém, aparentada com S. José. Resolveram que iriam pôr as especiarias sobre a pedra, diante do túmulo e esperar até que porventura viesse um dos discípulos, que lhes abrisse as portas, no entanto continuavam caminhando para o jardim do sepulcro.
 
Vi os guardas deitados em redor, como mortos e com os membros tortos. A pedra fora colocada do lado direito da gruta, de modo que se podia abrir a porta que, porém, ainda estava encostada. Vi através da porta, no leito sepulcral, os panos em que o corpo de Jesus tinha sido envolto. O pano largo, que cobria todo o corpo, estava inalterado, apenas vazio e encolhido, continha somente as ervas aromáticas. A faixa com que fora enrolado, estava ao longo do lado anterior do leito Sepulcral mas não fora desenrolada. O pano com que Maria lhe cobrira a cabeça, encontrava-se na cabeceira, à direita, na mesma posição em que lhe envolvera a cabeça, apenas o véu do rosto fora aberto.
 
Vi então as mulheres se aproximarem do jardim. Vendo as lanternas da guarda e os soldados deitados em redor, assustaram-se e deixando de lado o jardim, seguiram alguns passos em direção ao Gólgota. Madalena, porém, esqueceu-se de todo o perigo e entrou apressada no jardim; Salomé seguiu-a a alguma distância. Eram as duas principalmente que tinham comprado os ungüentos. As duas outras mulheres eram mais tímidas e ficaram fora do jardim.
 
Vi Madalena, deparando com os guardas, correr assustada para trás, ao lado de Salomé; depois avançaram juntas e passando timidamente por entre os soldados, que ainda estavam atordoados, entraram na gruta. Viram a pedra já afastada; as portas estavam encostadas, como provavelmente Cássio as deixara. Então abriu Madalena, com grande ânsia, uma das portas, olhou assustada para o leito sepulcral e viu todos os panos vazios e separados. Tudo estava cheio de esplendor e um Anjo sentado à direita, sobre o túmulo.
 
Madalena ficou espantada; não sei se ouviu qualquer palavra do Anjo. Correu precipitadamente para fora do jardim, pela pequena porta de Nicodemos, ao encontro dos Apóstolos, reunidos na cidade. Também não sei se Maria Salomé, que não entrara na gruta, ouviu alguma palavra do Anjo; vi-a fugir do sepulcro e do jardim, muito assustada, logo depois de Madalena e juntar-se às mulheres que ficaram fora do jardim, às quais anunciou o que sucedera.
 
Tudo isso foi feito com grande pressa e com o espanto de quem viu espíritos. As outras mulheres, ouvindo as notícias de Maria Salomé, assustadas e ao mesmo tempo satisfeitas, não ousaram por algum tempo entrar no jardim.
 
Cássio, porém, depois de sair do sepulcro, demorara-se algum tempo nos arredores, esperando ver Jesus ou que este aparecesse talvez às mulheres, que se aproximavam; dirigiu-se depois apressadamente à porta da cidade, para levar notícias a Pilatos e passando perto das santas mulheres, contou-lhes em poucas palavras o que vira, exortando-as a que fossem verificá-lo com os próprios olhos.
 
Então recobraram ânimo e entraram juntas no jardim e tendo entrado com muito medo na gruta, viram diante delas os dois Anjos do sepulcro, em vestes sacerdotais, brancas e resplandecentes. As mulheres, extremamente assustadas, estreitando-se uma à outra e cobrindo o rosto com as mãos, inclinaram-se até à terra. Um dos Anjos, porém, falou-lhes, dizendo que não se assustassem; não procurassem ali o Crucificado, pois estava vivo, tinha ressuscitado e não se achava mais entre os mortos. Mostrou-lhes também o leito vazio do sepulcro e mandou-lhes que anunciassem aos discípulos o que tinham ouvido e visto, avisando-lhes que Jesus os precederia na Galiléia; deviam lembrar-se do que lhes dissera na Galiléia: “O Filho do homem será entregue nas mãos dos pecadores e crucificado e no terceiro dia ressuscitará dos mortos”.
 
Então desapareceram os Anjos e as santas mulheres, com temor e tremendo, olharam para o leito sepulcral e os panos, chorando e ao mesmo tempo cheias de alegria; depois saíram, dirigindo-se à porta da cidade pela qual Jesus saíra para o suplício. Estavam ainda espantadas, não se apressavam, mas paravam de vez em quando, olhando em redor, na esperança de ver Jesus ou que Madalena voltasse.
 
No entanto vi Madalena chegar ao Cenáculo; estava como que desvairada e bateu com veemência à porta. Alguns dos discípulos estavam ainda deitados, dormindo ao longo das paredes; outros já se haviam levantado e estavam conversando; Pedro e João foram abrir. Madalena disse apenas: “Tiraram o Senhor do sepulcro, não sabemos para onde o levaram”. Tendo dito isto, voltou ao jardim do sepulcro, correndo com grande pressa. Pedro e João entraram de novo em casa, disseram algumas palavras aos outros discípulos e seguiram-na depois apressadamente, mas João mais ligeiro do que Pedro.
 
Vi Maria Madalena entrar novamente no jardim e correr ao sepulcro, perturbada pela corrida forçada e a tristeza. Estava toda molhada de orvalho, o manto caíra-lhe da cabeça aos ombros e os cabelos tinham-se-lhe soltado. Como estava só, teve medo de entrar na gruta, mas ficou no fosso, diante da gruta; ali se inclinou, para olhar para dentro do túmulo, através da porta baixa da gruta.
 
Segurando o longo cabelo com as mãos, viu dois Anjos de vestes brancas, sacerdotais, sentados à cabeceira e aos pés do túmulo e ouviu ao mesmo tempo a voz de um deles: “Mulher, por quê choras?” E Madalena exclamou, cheia de tristeza, (pois não pensava senão no corpo de Jesus, que não estava mais ali): “Levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram!” Dizendo isso e vendo só os panos, virou-se logo, como quem procura alguém; pensava que devia encontrá-Lo em qualquer parte e tinha um vago sentimento de sua presença e nem a aparição dos Anjos podia dissuadi-la. Parecia não se lembrar que eram Anjos; pensava só em Jesus, perguntava somente a si mesma: “Jesus não está aqui; onde estará Ele?”
 
Vi-a alguns passos diante da gruta, vagando de um lado para o outro, como quem, com grande perturbação, está procurando alguém. O longo cabelo caia-lhe de ambos os lados sobre os ombros; uma vez o segurou no ombro direito, com ambas as mãos; depois o pegou de ambos os lados e jogou-o para trás, olhando sempre em redor.
 
De súbito viu, a dez passos de distância, a leste do rochedo sepulcral, onde o jardim sobe para o muro da cidade, atrás de uma palmeira, nas moitas, uma figura alta, vestida de branco, à luz do crepúsculo e correndo para lá, ouviu de novo as palavras: “Mulher, por quê choras? A quem procuras?” Julgou que fosse o jardineiro e eu também lhe vi na mão uma enxada e na cabeça um grande chapéu, que se parecia com um pedaço de casca de árvore, para proteger do sol, como vi também o jardineiro na parábola que Jesus contou às mulheres, em Betânia, pouco antes da Paixão.
 
A aparição não era luminosa, mas de um homem vestido de uma longa veste branca, à luz do crepúsculo. Às Palavras: “Quem procuras?” Madalena respondeu imediatamente: “Senhor, se O levaste, dize-me onde está e irei buscá-Lo”. E ao mesmo tempo olhou em redor, para ver se o achava ali perto. Então lhe disse Jesus, com a voz habitual: “Maria!” Reconhecendo-Lhe a voz e esquecendo a crucificação, morte e sepultura, Madalena virou-se imediatamente e disse-Lhe, como se Ele ainda estivesse vivo: “Raboni (Mestre)!” E caiu de joelhos, estendendo as mãos para lhe abraçar os pés. Jesus, porém, ergueu a mão para a afastar, dizendo: “Não me toques: pois ainda não subi ao meu Pai. Mas vai a meus irmãos e dize-lhes: “Ascenderei a meu Pai e a vosso Pai, a meu Deus e a vosso Deus”. E o Senhor desapareceu.
 
Recebi também a explicação do motivo pelo qual Jesus disse: “Não me toques”; mas não me lembro mais muito bem. Parece-me que o disse, porque Madalena era muito impetuosa e estava dominada inteiramente pela convicção de que Ele vivia como dantes e que tudo era como outrora. Das palavras de Jesus: “Ainda não subi a meu Pai”, recebi a explicação de que ele não se apresentara ainda ao Pai depois da Ressurreição e não lhe agradecera ainda a vitória sobre a morte e a Redenção. Parecia dizer com isso que as primícias da alegria pertenciam a Deus; antes de tudo devia lembrar-se de dar graças a Deus, pelo mistério consumado da Redenção e da vitória sobre a morte; pois Madalena queria abraçar-Lhe os pés, como dantes e não pensava senão no Mestre querido e esquecera, no enlevo do amor, o grande milagre da ressurreição.
 
Depois do desaparecimento do Senhor se levantou Madalena e correu mais uma vez ao sepulcro, como para se convencer de que não tinha sonhado. Então vi os dois Anjos sentados à cabeceira e aos pés do túmulo, ouviu o que tinham dito também às outras mulheres, a respeito da ressurreição, viu os panos; convencida do milagre e da visão, saiu correndo, para procurar as companheiras no caminho do Gólgota; pois, andavam ainda pelos arredores, indecisas, esperando a volta de Madalena e nutrindo o desejo de ver o Senhor em qualquer parte.
 
Tudo o que se deu com Madalena, durou apenas alguns minutos; podiam ser cerca de duas horas e meia, quando lhe apareceu o Senhor. Ela correra justamente para fora do jardim, quando entrou João e logo após este, Pedro. João ficou na entrada e curvando-se, olhou pela porta meio aberta do sepulcro e viu lá dentro os panos. Então chegou Pedro e entrou na gruta; lá viu as mortalhas dobradas, nas quais estavam embrulhadas as especiarias: tudo enlaçado com faixa de pano, como as mulheres costumam enrolar tais panos para guardas; o véu do rosto, porém, estava dobrado perto da parede, do lado direito. João entrou então também na gruta e, aproximando-se do leito sepulcral, viu-o e creu na ressurreição; pois nesse momento se lhes tornou claro o que Jesus tinha dito e o que está escrito na Escritura e a que dantes tinham prestado pouco atenção. Pedro levou os panos sob o manto. Depois saíram, correndo, pela pequena porta de Nicodemos; João, porém, tomou novamente a dianteira.
 
Vi com eles e também com Madalena, o sepulcro. Ambas às vezes vi os dois Anjos sentados à cabeceira e aos pés, como sempre e durante todo o tempo em que o santo corpo de Jesus esteve no sepulcro. Pareceu-me, porém, que Pedro não os viu. Quanto a João, ouvi-o dizer mais tarde os discípulos de Emaús que, olhando de fora para dentro, vira um Anjo. Talvez fosse por isso que, assustado, deixou primeiro entrar Pedro e não o escreveu no Evangelho por humildade, para não ter visto mais do que Pedro.
 
Depois vi os guardas, estendidos por ali, recobrarem os sentidos e levantarem-se. Tomaram as lanças e os braseiros, que ardiam na entrada, em cima de hastes e lançavam luz na gruta, saíram assustados e perturbados do jardim e voltaram à cidade, pela porta pela qual Jesus fora conduzido à morte.
 
No entanto encontrara Madalena as santas mulheres e contara-lhes que comunicara a Pedro ter visto os Anjos; as mulheres responderam-lhe que também tinham visto os Anjos. Madalena voltou apressadamente à cidade, pela porta do Calvário; as mulheres, porém, foram novamente na direção do Jardim, esperando talvez encontrar ainda lá os dois Apóstolos. Os guardas passaram-lhes perto e disseram-lhes algumas palavras.
 
Quando as santas mulheres chegaram próximas ao jardim do sepulcro, veio-lhes ao encontro Jesus, com uma veste larga e branca, que lhe cobria até as mãos e disse: “Deus vos salve!” Elas estremeceram e caíram-Lhe as pés, os quais pareciam querer abraçar; mas não me lembro mais claramente de o ter visto. O Senhor disse-lhes algumas palavras, apontou com a mão em uma direção e desapareceu.
 
As santas mulheres foram depressa pela Porta de Belém a Sião, para anunciar aos discípulos que tinham visto o Senhor e o que Ele lhes dissera. Estes, porém, não queriam a princípio lhes dar fé às afirmações, nem às de Madalena, tomando tudo, até à volta de Pedro e João, por imaginação das mulheres.
 
João e Pedro, que se tornara muito pensativo com o que tinha visto, encontraram-se, ao voltar, com Tiago o Menor e Tadeu, que os tinham querido seguir ao sepulcro. Também esses dois estavam muito comovidos, pois o Senhor lhes aparecera perto do Cenáculo. Vi, porém, que Jesus tinha passado perto de Pedro e João: pareceu-me que Pedro O viu, pois vi-o de súbito extremamente comovido. Não sei se João também O reconheceu.
 
Nas visões que se referem a esse tempo, vejo muitas vezes, em Jerusalém e em outros lugares, o Senhor e outras aparições no meio de homens, mas não noto que estes o avistem. Às vezes vejo alguns estremecerem de repente espantar-se, enquanto que outros ficam indiferentes. Parece-me que vejo o Senhor sempre, mas percebo ao mesmo tempo que naqueles dias os homens o viam só de vez em quando.
 
Do mesmo modo tenho visto sempre os dois Anjos sacerdotais na gruta do sepulcro, desde a sepultura do Senhor, mas vi também que as santas mulheres às vezes os viam, outras vezes viam só um e ainda em outras ocasiões viam ambos. Os Anjos que falaram às mulheres, eram os Anjos de aparência sacerdotal. Falou apenas um deles e só um foi visto, porque a porta não estava aberta. O Anjo que desceu do céu como um relâmpago, rolou a pedra para o lado o sentou-se-lhe em cima, apareceu na figura de um guerreiro. Cássio e os guardas viram-no a princípio sentado na pedra. Os Anjos que falaram ainda depois, eram um ou dois Anjos do sepulcro. Do motivo porque tudo assim sucedeu, não me lembro mais; quando o vi, não fiquei surpresa; pois lá vemos muito simples e direito e nada parece estranho.
 
Relatório da guarda do sepulcro.
 
No entretanto chegara Cássio ao palácio de Pilatos, cerca de uma hora depois da ressurreição. Vi o governador deitado no leito e Cássio apresentar-se-lhe e relatar-lhe, muito comovido, como o rochedo tremera e um Anjo descera do céu, removendo a pedra e as mortalhas ficaram vazias. Jesus era com certeza o Messias e o Filho de Deus; ressuscitara e não estava mais no sepulcro. Ainda contou outras coisas que vira.
 
Pilatos ouviu tudo com um oculto terror, mas não deixou perceber nada e disse a Cássio: “És um sonhador; fizeste muito mal em colocar-te junto do sepulcro do Galileu; pois os deuses dEle conquistaram poder sobre ti e fizeram-te ver todas essas visões fantásticas. Dou-te o conselho de não falar dessas coisas ao sumo Sacerdote, senão te meterás em maus lençóis”.
 
Fingiu também crer que o corpo de Jesus fosse roubado pelos discípulos e que a guarda descrevesse o sucedido de modo diferente apenas para se desculpar, porque havia permitido o roubo ou porque não cumprira com o dever ou talvez porque tivesse sido enfeitiçada. Tenho Pilatos falado ainda mais tempo dessa maneira indecisa, despediu-se Cássio e o governador mandou novamente oferecer sacrifícios aos ídolos.
 
Vieram ainda quatro dos soldados da guarda, dando a mesma informação a Pilatos, que os mandou a Caifás, sem lhes manifestar opinião. Vi uma parte dos soldados da guarda dirigir-se imediatamente a um vasto pátio perto do Templo, onde estavam muitos anciãos do povo. Vi estes se reunirem em conselhos e depois tomarem os soldados de parte e os induzirem, com dinheiro e ameaças, a dizerem que os discípulos tinham roubado o corpo de Jesus, enquanto os guardas dormiam.
 
Como, porém, os soldados replicassem que os camaradas contariam o contrário a Pilatos, prometeram os fariseus arranjar tudo com Pilatos e persistiam em descrever o sucedido como o tinham contado ao governador. Mas já se espalhara também a notícia da fuga inexplicável de José de Arimatéia do cárcere bem fechado e como os fariseus quisessem lançar suspeitas sobre os guardas, que persistiam em proclamar a verdade, acusando-os de terem combinado com os discípulos o roubo do corpo de Jesus e ameaçando-os violentamente, se não o trouxessem de novo, responderam os guardas que não o podiam fazer, assim como os guardas do cárcere não podiam trazer o fugitivo José de Arimatéia.
 
Responderam valentemente às acusações e não se deixaram induzir por nenhum suborno a guardar silêncio, a respeito dos acontecimentos; até falaram com muita franqueza do falso e odioso julgamento de sexta-feira e da interrupção das cerimônias da Páscoa; então foram presos e lançados no cárcere os outros, porém, espalharam o boato de que os discípulos tinham roubado o corpo de Jesus e os fariseus mandaram propagar esta mentira em todos os lugares e sinagogas do mundo, junto com outros insultos a Jesus.
 
Mas esta mentira lhes foi de pouco proveito; pois após a ressurreição de Jesus, apareceram muitas almas de santos judeus defuntos e comoveram os corações dos descendentes, levando a converterem-se os que ainda eram acessíveis à graça e ao arrependimento. Vi também tais aparições apresentarem-se a muitos discípulos que, abalados na fé e desanimados, se tinham dispersado pelo país; consolaram e firmaram-nos na fé.
 
A ressurreição dos corpos mortos dos sepulcros, depois da morte de Jesus, não tinha semelhança com a ressurreição do Salvador; pois o Senhor ressuscitou com o corpo glorificado e revivificado, andou na terra vivo e em pleno dia e subiu ao céu com esse mesmo corpo, diante dos olhos dos amigos; esse corpo não era mais sujeito à morte e ao sepulcro.
 
Mas os outros ressuscitados eram apenas cadáveres ambulantes e sem movimento, dados como invólucro às almas, que de novo os depuseram no seio da terra, onde esperam a ressurreição final, como todos nós. Em verdade ressuscitaram menos do que Lázaro, que viveu verdadeiramente e mais tarde morreu segunda vez; pois aqueles foram depostos nos sepulcros, como vestimentas das almas, quando o corpo de Jesus foi sepultado.
 
Ameaças dos inimigos.
 
No domingo seguinte, se não me engano, vi os judeus começarem a limpar, a lavar e purificar o Templo. Encheram o chão de flores e cinza de ossos de mortos e ofereceram sacrifícios de expiação; tiraram os escombros, fecharam as aberturas com tábuas e tapetes e fizeram depois as cerimônias da Páscoa, as quais na própria festa não tinham podido completar.
 
Proibiram, porém, todos os boatos e murmúrios, explicando a interrupção da festa e as destruições no Templo como conseqüência do terremoto e da presença de pessoas impuras durante o sacrifício; citaram um trecho de uma visão do profeta Ezequiel, sobre a ressurreição dos mortos, não sei mais como a aplicaram a esse fato. Demais ameaçaram com penas e excomunhão. Assim reduziram todos os silêncios, pois muitos se sentiam culpados, como cúmplices do crime. Contudo conseguiram acalmar realmente apenas a grande multidão, endurecida no pecado e já perdida; a parte melhor do povo converteu-se silenciosamente nessa ocasião e abertamente na festa de Pentecostes e mais tarde na sua terra, ao ouvir a pregação dos Apóstolos.
 
Os Sumos Sacerdotes tornaram-se por isso cada dia menos arrogantes e o número dos fiéis aumentou, de modo que já nos dias do Diácono Estevão, todo o bairro de Ofel e a parte oriental de Sião não podia mais conter a multidão da comunidade de Jesus Cristo e os cristãos construíram as cabanas e tendas além da cidade, através do vale de Cedron, até Betânia.
 
Vi naqueles dias o Sumo Sacerdote Anás como que possesso do demônio; puseram-no em reclusão e não apareceu mais. Caifás estava desvairado de secreto furor.
 
Na quinta-feira depois da Páscoa, vi Pilatos procurar a esposa, mas em vão. Estava escondida em casa de Lázaro, em Jerusalém. Ninguém imaginava que estivesse ali, pois naquela ocasião não se encontravam mulheres no edifício, só Estevão, o discípulo que ainda não era conhecido como tal, entrava e saia de vez em quando da casa, levando-lhe comida e dando-lhe notícias e preparava-a para a conversão. Estevão era primo de Paulo. Simão de Cirene procurou depois do sábado os Apóstolos, pedindo admissão e o batismo.
 
Ágape após a ressurreição de Jesus.
 
(*Ágape: Refeição que os primitivos cristãos faziam em comum. Refeição entre amigos.)
 
Nicodemos, preparou uma refeição para os Apóstolos, as mulheres e uma parte dos discípulos, sob as colunatas abertas, no vestíbulo do Cenáculo. Depois do meio-dia ali se reuniram dez dos Apóstolos; Tomé retraíra-se arbitrariamente, afastando-se um pouco dos outros. Tudo quanto se fez ali foi para cumprir a vontade de Jesus que na ceia pascal se sentara entre Pedro e João, revelando-lhes diversos mistérios do SS. Sacramento e fazendo-os depois sacerdotes; ordenou-lhes também que ensinassem essas verdades aos outros, juntamente com as doutrinas anteriores a esse respeito.
 
Vi primeiro Pedro e João, no meio dos outros oito Apóstolos, comunicando-lhes os mistérios que Jesus lhes confiara; explicaram-lhes também a doutrina do Senhor a respeito do modo de administrar este Sacramento e de ensiná-lo aos discípulos. Vi que, de uma maneira sobrenatural, tudo quanto Pedro ensinou, foi dito também por João. Todos os Apóstolos estavam revestidos das vestes brancas de cerimônia, sobre as quais Pedro e João haviam colocado nos ombros uma estola, cruzada no peito e segura com um gancho; os outros Apóstolos traziam uma estola sobre um ombro, a qual, passando pelo peito e as costas, cruzava debaixo do outro braço e era segura por um gancho. Pedro e João eram sacerdotes, ordenados por Jesus, os outros eram ainda diáconos.
 
Terminada esta explicação, entraram na sala também as santas mulheres, em número de nove; Pedro falou-lhes e ensinou-lhes. João, Porém, foi receber na casa do despenseiro, perto do portão, dezessete dos mais provados discípulos, que estiveram mais tempo com Jesus. Entre esses estavam: Zaqueu, Natanael, Matias, Barsabás e outros. João serviu-os no lava-pés e na vestição; vestiram longas vestes brancas e cintas. Depois da explicação da doutrina, Mateus foi enviado por Pedro à Betânia, para ensinar a muitos outros discípulos, durante uma refeição semelhante, em casa de Lázaro e fazer tudo o que os Apóstolos tinham feito no Cenáculo.
 
A refeição foi realmente um banquete. Rezaram em pé e comeram deitados sobre os leitos e durante a refeição Pedro e João ensinaram. No fim do banquete foi colocado em frente a Pedro um pão delgado e estriado, que ele partiu nas partes marcadas e subdividiu cada parte mais uma vez. Depois mandou passar esses bocados, em dois pratos, por ambos os lados da mesa. Passou também de mão em mão um grande cálice, do qual todos beberam. Se bem que Pedro benzesse o pão, não era contudo o SS. Sacramento, mas apenas um ágape*(refeição); Pedro disse ainda que ficassem unidos, como era um só o pão que os alimentara e o vinho que beberam. Depois se levantaram todos e cantaram salmos.
 
Tiradas as mesas, as santas mulheres formaram um semicírculo, na extremidade da sala; os discípulos colocaram-se de ambos os lados e todos os Apóstolos andavam de um lado para outro, ensinando e revelando a esses discípulos mais provados o que lhes podiam comunicar sobre o SS. Sacramento. Pareceu-me ser a primeira explicação do catecismo depois da morte de Jesus. Vi também que depois apertaram as mãos uns aos outros, declarando ardentemente que queriam ter tudo em comum, dar tudo uns aos outros e ficar todos unidos.
 
Então vi em todos uma grande comoção. Talvez tivessem sentido só interiormente o que vi exteriormente: pois vi-os, no meio de uma luz brilhante, fundirem-se uns aos outros e tudo formou afinal um templo de luz, em que apareceu a SS. Virgem como cume e centro de todos. Até mesmo vi que toda a luz emanava dela para os Apóstolos e destes voltava, pela SS. Virgem, ao Senhor. Era uma imagem das relações recíprocas entre os presentes.
 
Extraído do Livro "Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus - Anna Catharina Emmerich - Ed. MIR
 

 

 
 
 

Artigo Visto: 1928 - Impresso: 248 - Enviado: 19

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